O rosto de Diane Kruger não passará despercebido aos fãs
da série The Bridge. Pelo desempenho em Uma Mulher Não Chora/Aus dem Nichts
(2017), do realizador Fatih Akin, ganhou a distinção para melhor actriz no
último festival de Cannes. Mais recentemente, Uma Mulher Não Chora arrecadou um Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro. Diane Kruger dá corpo a Katja
Sekerci, personagem no limite do desespero com violentas exigências ao nível da
representação. Organizado em capítulos, o filme retrata tanto a dor da perda
como o desejo de vingança. Katja perde abruptamente o marido e o filho na
sequência de um atentado perpetrado por neonazis do grupo National Socialist
Underground, com ligações aos gregos do partido Aurora Dourado. Os terroristas
do NSU têm como um dos seus alvos predilectos a imigração. De origem turca, o
marido de Katja, ex-recluso, exemplo dos programas de reinclusão,
será uma das vítimas do grupo, juntamente com o filho. A questão social e o
drama particular da perda interpenetram-se, vindo à tona de um modo
especialmente transtornante o desespero de uma mulher sem esperança na justiça
para alcançar a verdade. Rodeada de amigos e de família, Katja Sekerci encontra-se
subitamente só. A relação com os sogros é de distância, com a sua própria mãe é
de náusea e fúria. À única amiga que podia ser apoio no centro do desespero,
pede que se afaste e a deixe só. A solidão desta mulher será pois uma das suas
marcas mais penetrantes. Sucede que Fatih Akin desvia o interesse da sua personagem,
concentrando atenções nas fragilidades do sistema judicial. O modo como posiciona
a câmara perante o rosto do advogado de defesa é revelador não só de uma tomada
de posição como de uma clara intenção de influenciar o julgamento do
espectador. Ele quer que o ódio de Katja aos assassinos da sua família seja
também o nosso ódio, quer levar-nos a desconfiar de um sistema capaz de absolver
criminosos na base de princípios jurídicos sempre discutíveis. In dubio pro reo
aplicar-se-á também ao julgamento que faremos das suas intenções. Apesar de
tudo, estamos numa sala de cinema a ver uma obra de arte. Justificar a vingança
enquanto prática não será sequer uma originalidade, lembrando-nos de novo os paradoxos da pena de talião. Não devemos a Gandhi o melhor argumento
contra tais paradoxos? Olho por olho, e o mundo acabará cego. Resta-nos a empatia
para com a dor de Katja, saber que fosse qual fosse a sua decisão teria sempre
a justificá-la a inexpressável dor de uma perda absoluta.
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
MAÇÃS
Ando há anos a ser roubado por uma gralha. Não leva muito, debica
aqui, debica acolá, mal sabe que leva pouco mais do que restos. Qualquer dia,
deixo-lhe uma côdea com veneno. Ou então não, continuarei a ignorá-la com
indiferença merecida. Apesar de tudo, não é o pior caso do mundo vê-la
esbaforida a saltar de galho em galho. Tenho maçãs que cheguem para todos. Leva,
leva, gralha. E sê feliz, desde que o sejas longe do meu amado silêncio.
sábado, 27 de janeiro de 2018
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
UM QUARTO EM ATENAS
Emigrada em Oxford, com doutoramento em Estudos
Clássicos, Tatiana Faia (n. 1986) é autora de uma poesia que deve tanto à
erudição classicista como à modernidade. Um Quarto em Atenas (Tinta-da-China,
Janeiro de 2018), título à laia de arte poética, vem confirmar o que os
livros anteriores, Lugano (Artefacto, 2011) e teatro de rua (do lado esquerdo,
2013), haviam indiciado quanto à forma como tão bem se articulam nestes poemas
experiência vivida e experiência literária. Nos agradecimentos finais,
encontramos uma frase que talvez ajude a perceber melhor o propósito dessa
conjugação: «Nunca se sabe muito bem onde um poema começa, a barreira entre
pensar sobre literatura e escrever é sem dúvida uma ténue parede através da
qual se pode conversar» (p. 149). Tal incerteza quanto à origem do poema pode
encontrar resposta na multiplicidade de referências que coloram os versos deste
livro, e que vão tanto dos clássicos como aos diálogos de séries televisivas,
passam por composições musicais, obras de arte, filmes, lugares, outros poetas.
É com naturalidade que Tatiana Faia se refere à
«venerável lápide de william blake» logo na estrofe inicial do primeiro poema,
lembra o «thomas bernhard empregado de loja», frequenta livrarias de arte onde
folheia «a bíblia ilustrada de chagall», lê «um estudioso de munch», observa «o
céu estrelado / nas costas de eugène boch no quadro de van gogh», para acabar a
lembrar «que foi adrienne rich quem escreveu / que eu vivo num país onde os
poetas não são presos / por serem poetas / são presos por serem negros, mulheres,
pobres» (p. 24). Kafka lido numa biblioteca, a Comédia de Dante, a «imitação
/ de derek jarman / do baco de caravaggio», «as cenas finais do paciente
inglês», «bell hooks / e biografias de muhammad ali», «a lei de tchekhov», Anne
Frank, «composições / que dvorak escreveu para divertimento dos filhos», evocações
de Jorge de Sena, Ruy Belo, António José Forte, Daniel Faria, o diário de
Pavese, um poema de Andrew McMillan, «a voz de ellis de vries», etc, etc, etc,
etc, são interlocutores no decorrer dos dias. E é enquanto tal que vêm à tona
nos versos, quase sempre ao jeito de uma comparação ou associação a situações vividas,
actuais, fruto de uma experiência quotidiana indissociável da vivência literária.
Seria completamente errado julgar que esta desmesura
referencial afasta os poemas da vida, reduzindo-os ao exercício da citação para
mero deleite intelectual. Antes pelo contrário, da janela do quarto em Atenas
observa-se a civilização ocidental e faz-se do poema anotação, testemunho claro
de um cenário exterior filtrado pelo declarado cansaço da testemunha.
Relativamente longos, por vezes em sequências de 2, 4 ou 5 estâncias, em alguns
casos datados, estes poemas, na sua vertente narrativa, como que registam o
mundo pelos olhos de uma autora dividida entre Oxford e Atenas, com escala em
Lisboa. Poemas tais como O Retorno, 2016, Literatura Para Falcões ou O Grande
Fardo de Palha do Poeta Comprometido, são especialmente incisivos na forma como
abordam a contemporaneidade literária, remetendo, a espaços, para o discurso verrinoso
de um Jorge de Sena (de resto, diversas vezes aludido ao longo do livro). Mas
não me parece que sejam estes os momentos mais cativantes de Um Quarto em
Atenas.
Muito mais empolgante é o modo como o sujeito poético
surge a partir de uma espécie de fissura instaurada entre observador e mundo
observado. A distância proporcionada pela ironia ajuda a que o retrato seja
certeiro e impiedoso: «avanças na última estação em direcção / a um pouco mais
de nada / e há homens sentados nos bancos / de fatos e chapéus de chuva / eles
entram e saem são rasos e incólumes / não amas neles a rotina medíocre / e sem
história do conforto o sossego acomodado / os jantares pacientemente contados /
durante as pausas nos cafés lembras-te / de que o contrário de estar vivo é
isto mesmo» (p. 8). Ou seja, a rotina, o conforto, a acomodação, decalcam a
morte ao longo dos dias. Asseverações deste tipo servem um olhar que não se
furta à consideração de tipo político: «entendi a vergonha de pertencer a uma
europa / que nunca vai ser nova o bastante / e à qual pode nem ser dado / vir a
ser nova o suficiente» (p. 16). A velha Europa, assim desmontada, é lugar de
saturações e de cansaços, impele a um questionamento sobre a sua condição de
berço civilizacional. Que civilização? A que cultiva ilusões e distracções para
disfarçar a insatisfação geral.
No poema intitulado Ambros Aldewarth, personagem
desenvolvida por W. G. Sebald no livro “Os Emigrantes”, fica explícito o
compromisso desta poesia para com o seu tempo. O poema segue o livro, mas não
se fecha nele. Serve-se dele para questionar as implicações da memória na
construção do tempo: «a memória às vezes atinge-te / como uma permanência da
estupidez / da letargia / a cabeça pesada e confusa não como quem / se concentra
para olhar para trás no tempo / mas como a vertigem entrevista / do topo de um
arranha-céus / com o olhar ao nível das nuvens / e o nó obscuro do tempo» (p.
99). Creio existir entra a poesia de Tatiana Faia e o seu tempo um compromisso
que não situa nem diminui o poema, antes lhe confere um carácter testemunhal
capaz de inquietar o leitor e de algum modo desconcertar eventuais ideias
feitas que possamos ter acerca da relação entre literatura e vida. O melhor de
Um Quarto em Atenas é a vista que oferece, as sobras de uma civilização em
imagem panorâmica e os efeitos colaterais de um vazio na figura do poeta.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
TRÊS PAVÕES
A caminho do Banco, cruzei-me com três pavões. Não é
metáfora. Desciam a nacional 114, muito sossegados e com o ar empertigado dos
pavões. Do outro lado da estrada, um tontinho fotografava-os com o telemóvel. Estava
delirante. Acenava para os carros que subiam em marcha lenta na direcção da
Praça da Fruta, depois apontava para os pavões como quem pergunta: estão a ver
o que eu estou a ver? Os pavões tinham ar de turistas perdidos no caos da
cidade. Quando regressei do Banco, já não os vi. Talvez tenham apanhado um
táxi.
OPINIÕES
Um amigo contacta-me por e-mail a dar conta de notícia sobre a recusa de uma petição para banir de Portugal as Testemunhas de Jeová. Não sei se espera resposta, mas é possível que sim. Na caixa de comentários, um anónimo diz-se curioso acerca de eventual opinião minha sobre candidaturas portuguesas para o Nobel da Literatura. Anteontem, a minha filha Matilde perguntou-me o que achava eu da paralisação do governo dos EUA. Tenho uma única opinião acerca dos três casos: estou a terminar o livro "Um Quarto em Atenas", da Tatiana Faia. Sugiro que o leiam, estão lá todas as respostas às vossas dúvidas.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
COMO AS BARREIRAS FAZEM COM OS RIOS
(...)
munch pintou «o grito»
depois de um ataque de pânico numa ponte em paris
um ataque sofrido na companhia de amigos
ele dizia que «o grito»
não representava um homem a gritar
mas um homem a tentar conter
como as barreiras fazem com os rios
o grito de tudo o que o rodeia
Tatiana Faia, últimos versos do poema sequência Alguns Poemas Portáteis, in Um Quarto em Atenas, Edições tinta-da-china, Janeiro de 2018, p. 25.
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
NICANOR PARRA (1914-2018)
Morreu o mestre. Na coluna do lado direito, encontrarão uma entrada para cerca de 80 poemas de Nicanor Parra que verti para português. Uns melhor, outros pior, todos com enorme gosto e uma única intenção: dar a ver. Podem ir directamente para lá clicando aqui. Relembro este:
EPITÁFIO
De estatura média,
Com uma voz nem fina nem grossa,Filho mais velho de um professor primário
E de uma costureira humilde;
Fraco de nascimento
Ainda que devoto da boa mesa;
De maçãs macilentas
E de mais abundantes orelhas;
Com um rosto quadrado
No qual apenas os olhos se abrem
E um nariz de pugilista mulato
Por cima da boca de ídolo asteca
− Isto tudo banhado
Por uma luz entre irónica e pérfida −,
Nem muito lesto nem tonto no remate
Fui o que fui: uma mescla
De vinagre e de azeite virgem
Um enchido de anjo e besta!
Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.
P.S.: Lido o necrológio de Hugo Pinto Santos, aqui no Público, lembrei-me que em 2007 publiquei no n.º 12 da revista DiVersos algumas versões de poemas de Nicanor Parra. Lembrei-me eu, que ainda me vou lembrando de algumas coisas.
P.S.: Lido o necrológio de Hugo Pinto Santos, aqui no Público, lembrei-me que em 2007 publiquei no n.º 12 da revista DiVersos algumas versões de poemas de Nicanor Parra. Lembrei-me eu, que ainda me vou lembrando de algumas coisas.
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Nicanor Parra,
Os mestres e as criaturas novas
VIVA O CAPITALISMO: VERSÃO CTT
Deixam avisos na caixa do correio por não terem sido
atendidos, quando a campainha não tocou uma única vez durante o dia todo. Há
correio que chega semanas depois de ter sido enviado. Avisos de recepção
extraviados. Recolhas por efectuar, supostamente por não estarem preparadas, quando
passam dias sem que ninguém apareça para as recolher. Atrasos nem se fala. E o
caricato de uma entrega à cobrança que não foi cobrada. Isto é tudo real, nada
disto é inventado. E passou-se tudo comigo. Não devo ser caso único.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
UMA NOTÍCIA
São dados provisórios ainda. Mas indicam que em 2017
houve mais 24 mil mortes do que nascimentos, o maior saldo negativo desde 2000.
População está a encolher há nove anos consecutivos.
É ler aqui.
O GIGANTE ENTERRADO
Por razões profissionais, mas
também alguma curiosidade, cheguei ao universo do mais recente Prémio Nobel da
Literatura. Cheguei pelo pior dos caminhos, segundo me informa amigo conhecedor
da obra completa. Nunca tinha lido nada de Kazuo Ishiguro (n. 1954), o japonês
inglesado a quem António Lobo Antunes se referiu recentemente como “aquela
coisa”. A leitura de O Gigante Enterrado (Gradiva, 3.ª edição, Novembro de
2017) deixou-me mais uma vez na dúvida sobre o discernimento da Academia, que
já sabemos ser pouco ou, pelo menos, não de fiar. É verdade que não sou adepto
de literatura fantástica, nunca li Tolkien nem C. S. Lewis, também não tenho paciência
para sagas que tanto entusiasmam meio mundo como as Crónicas de Gelo e Fogo.
Isto deixa-me sem argumentos para avaliar uma narrativa repleta de ogres
ameaçadores, duendes frenéticos, curandeiras e viúvas shakespearianas, bosques
enfeitiçados, monges insidiosos, dragões adormecidos, velhas ardilosas,
cavaleiros, guerreiros, cães monstruosos. Tudo o que possa dizer sobre o
assunto é mais fruto do preconceito do que de conhecimentos profundos em
matérias congéneres.
Aqui e acolá, ecos de tragédias gregas tais como As Bacantes
e o Prometeu Agrilhoado, citações que parecem provir de um Dom Quixote de la
Mancha ou de romances de cavalaria que li em versões truncadas nos tempos de
juventude, deixam-me mais à vontade. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, também vem
à baila a determinada altura: «Os monges que aqui vivem não devem conhecer
aquilo que vêem cada dia» (p. 182). Mas Ishiguro envia-nos para os lendários
tempos do Rei Artur, na companhia de um casal de idosos que resolve empreender
uma viagem ao encontro de um filho há muito perdido. Sobre eles paira uma névoa
de esquecimento, produzida pelo bafo de um dragão enfeitiçado pelo mago Merlim.
Entre as várias personagens com quem se vão cruzando ao longo da peregrinação, Axl e
Beatrice conhecem dois cavaleiros, aparentemente, com a mesma missão: matar o
terrível dragão Querig.
O tempo é de paz entre saxões e bretões, uma paz podre
como podre parece ser a paz destes tempos mais reais. Podemos tentar ler O
Gigante Enterrado como uma parábola do inconsciente, o que desculparia certas
incongruências e o tom disparatado de algumas sequências. Mas falta
profundidade às personagens, tudo parece vago e inconsistente. O estilo
depurado de Ishiguro, única e exclusivamente preocupado em contar uma história,
talvez mais empenhado até em divertir o leitor do que em contar uma história,
renega qualquer intenção aforística, não perde tempo com reflexões. Não há
momentos de introspecção ao longo das quatrocentas páginas do romance, é tudo
ritmo e acção e coisas a acontecer. A mais pertinente das dúvidas surge já no
fim, pela voz do velho Axl em conversa com a sua amada Beatrice: «Seria
possível o nosso amor não ter ficado tão forte com o passar dos anos se a névoa
não nos tivesse roubado as recordações como fez? Talvez isso tenha permitido
que velhas feridas sarassem» (p. 404). Tudo espremido, vamos dar a isto: o
tempo tudo cura, na medida em que o esquecimento ajuda a sarar feridas. Parca conclusão.
Podemos também tentar ler O Gigante Enterrado como uma ode ao amor. O velho casal
é suficientemente marcante para que assim o entendamos, embora entre eles a
poesia seja a sua própria coexistência. Ele perdoou-lhe uma traição, ela
perdoou-lhe o orgulho. Temos, deste modo, um elogio do perdão. Tanto este
elogio do perdão como as loas ao esquecimento são extensíveis à questão
essencial aflorada no romance, ou seja, a divisão entre saxões e bretões
enquanto exemplo do que divide povos e culturas. Esticando a corda, talvez
demasiado, podíamos dizer que conflitos como, a título de exemplo, o perpetrado
entre Israel e a Palestina só serão ultrapassados quando ambos aprenderem a
esquecer. Havendo pelo meio guerreiros como Wistan, cuja missão é matar o
dragão e devolver a memória aos povos, haverá divisão. E da divisão nascerá o
conflito. A simplicidade do raciocínio é sedutora, mas não convence.
Precisamente pelo simplismo da mensagem. Ishiguro, nascido em Nagasáqui, sabe
que o esquecimento não sara feridas, apenas as disfarça. Recalcar pode
suspender a raiva, mas o que realmente a refreia é a compreensão dos recalcamentos,
é não nos deixarmos dominar por eles.
sábado, 20 de janeiro de 2018
Extractos noticiosos
Assim, andei a semana a ouvir pequenos extratos
noticiosos que me puseram ao corrente do seguinte: uma operária têxtil ia
oferecer um presente/surpresa ao ministro (afinal era um cinto de ligas
vermelho e o ministro era o da Economia). O BE está escamado com a Gestão dos
CTT (eu também) e vai mandando recados ao Governo para acabar com o regabofe. O
LNEC afinal atestou que uma qualquer bancada estava firme e não oferecia
perigo. E, pasme-se, a igreja de Braga, pela voz do bispo, anuncia ao mundo que
tem uma equipa especializada, para acompanhar casais recasados que queiram
integrar-se na igreja. Mas, deixou o aviso, é um percurso longo de
discernimento.
Assim vai o mundo. O da Maria e o meu.
ALGUNS GESTOS DE MICHELLE GRANGAUD
Uma gota de água
lentamente forma-se,
meia bolha na boca da torneira.
Já ninguém se lembra
do espanto que era
carregar no botão e haver luz.
Ali, no passeio,
a pena de pomba
em que ninguém poisou ainda o pé.
A rua espelhada
no vidro traseiro
do autocarro: corre ao invés.
Lembrar quando havia
na rua cavalos.
Um tempo que durou imenso tempo.
Anda muito pouca
gente à tardinha
na rua, no Verão, nos bairros finos.
Horizonte am-
plo, quadriculado,
que o comboio folheia como um livro.
Michelle Grangaud (n. 1941, Argel, Argélia), in Sud-Express - Poesia Francesa de Hoje, do livro Geste (1991), trad. Fiama Hasse Pais Brandão, Relógio D'Água, 1993, pp. 89-96.
DOROTHY MALONE (1925-2018)
Ei-la, ao lado de Richard Widmark, no filme Warlock/O Homem das Pistolas de Ouro (1959). Escrevi sobre ele aqui. Dorothy Malone entrou em mais westerns, antes de ter abandonado o cinema com uma participação em Instinto Fatal (1992).
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
UM POEMA DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA
ALMOFADA ZOOM
Daquele mapa d'estradas atrás da porta
do nosso quarto, umas vezes parece-me ver
terra caindo nos tacos do soalho inocente,
papoilas e rosmaninho rompendo
para a ofuscante luz dos teus como nenhuns
olhos. Uma roda desperta, esmagando
um dedo da memória. E num aparente destino
ficou tão pequenino, a caber inteiro
na almofada. Outras vezes, avisto
linhas rectas paralelas cruzadas em brita,
alcatrão queimado com o seu cheiro
a esconder o cheiro de sangue dos cadáveres,
o verde do mapa e aquele cabrão
a dirigir-se à Andaluzia. Já não importa.
Agora estou contigo e tu levas-me
prò fim do longe onde ainda nada
nasceu sequer parecido com amor.
Então ficas tremendamente maior
que o quarto onde o teu mamilo
se torna a minha almofada.
POEMA, CONTO, POEMA EM PROSA, PROSA EM POEMA?
TEORIA DOS AFECTOS
Gosto muito mais dos supermercados desde que deixei a casa dos meus pais. Lembro da minha mãe dizendo que eles sempre colocam os produtos que estão quase vencendo na frente, e os mais novos atrás. Sempre achei que essa era uma verdade universal: «Todo supermercado tem a política de guardar os produtos mais novos no fundo, e deixar sempre os mais velhos na frente, para as pessoas pegarem.» Mas nem sempre isso é verdade. Hoje, por exemplo, as ervilhas do fundo da prateleira tinham exatamente a mesma data de validade das que estavam na frente. Geralmente na seção de alimentos enlatados essa regra não se aplica. Na de pães sim. Na de pães é infalível. É preciso procurar sempre os produtos mais novos, os que vão durar mais. Quando chegávamos em casa, meu pai também arrumava as compras assim. As comidas recém compradas iam para o fundo do armário, e tudo o que já estava lá dentro há mais tempo vinha para a frente. Durante um período na minha infância eu cheguei a desconfiar que meus pais haviam se conhecido num supermercado. Um dia ela estava procurando os palmitos mais novos, e ele no corredor de trás, procurando a maionese mais nova, e quando chegam ao fundo da prateleira, a prateleira não tinha fundo, e eles dão de cara um com o outro.
Luca Argel, in CONTEMSPOILERS, Mia Soave, Agosto de 2017, pp. 46-47.
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
DIGA 33 ÀS TERÇAS
ÀS TERÇAS
NO TEATRO
Por onde anda a poesia? Quem a escreve? Quem a publica? Quem a lê? Quem são os
poetas do nosso tempo? Terá a poesia leitores? Que motivações alimentam os
editores de poesia?
A ideia de organizar um ciclo de poesia no Teatro da Rainha surgiu de uma
vontade de explorar territórios pouco explorados, fazer-lhes o reconhecimento e
dá-los a conhecer. Propõe-se, numa fase inicial, uma digressão pela poesia
contemporânea portuguesa. Queremos ouvir poetas e editores, queremos tentar
perceber como mantêm viva a chama de Orfeu numa época em que a vertigem de
imagens parece deixar pouco espaço à palavra.
Condenada à morte por uns, odiada por outros, a poesia foi desde sempre uma
arte controversa. Talvez hoje o seja ainda mais, pelo carácter de resistência
de que se faz valer. Resistência ao imediatismo, resistência ao mediatismo,
resistência ao espectáculo, entendido não como transfiguração, expressão,
representação, mas antes como mera exibição de luzes capazes de levar à
cegueira.
Avessa ao deslumbramento, a poesia espanta, subverte, baralha, desconstrói, a
poesia exige daquele a quem se dirige uma predisposição para aceitar o diverso.
Ora, estaremos ainda dispostos a aceitar o diverso? Como conciliar tamanha
exigência com o quotidiano reducionista das redes sociais? Como manter no
pensamento níveis de exigência constantemente traídos pela infantilização
social?
O espaço teatral surge-nos, pois, como um espaço privilegiado para a exploração
do território poético. Também hoje o teatro nos surge enquanto modo de
resistência. Com a poesia, ele partilha a inquietação e o fingimento de que
falava Pessoa. Um fingimento que é a dimensão mais profunda da verdade. O
actor, tal como o poeta, vê aparecer a manhã sobre a cama. Citamos Herberto,
que foi poeta, que foi actor.
Não nos move qualquer veleidade do conhecimento. Sabemos que muitas das
perguntas a que tentaremos responder não têm resposta. Não têm, pelo menos, uma
resposta definitiva. Mas sabemos também que nunca o infinito foi impedimento à
caminhada. Queremos ouvir quem insiste na caminhada, perceber em que direcções
seguem os passos de quem caminha, queremos escutar o som das palavras
directamente saídas da boca de quem as escreveu.
Uma vez por mês, à terceira terça-feira de cada mês, teremos um poeta e um
editor de poesia, ou alguém que seja ambas as coisas, ou alguém que, não sendo
nenhuma delas, insista em escrever como se fosse poeta e em publicar como se
fosse editor. Privilegiaremos o contacto directo e informal através da
conversa, do diálogo, da partilha de histórias e, sobretudo, da escuta de
poemas. Porque a escrita e a escuta, articuladas uma com a outra, veiculam a
aprendizagem. Ao cabo, outra coisa não pretendemos que não seja aprender.
Henrique Manuel Bento Fialho
16 de Janeiro às 21h30
Na Sala Estúdio do Teatro da Rainha
1ª sessão com Nuno Moura (autor e editor nas editoras Mia Soave e Douda
Correria) e João Paulo Esteves da Silva (músico, autor, tradutor)
(fotografia copiada daqui)
guardião do estilo
a dinâmica sonora e colorida da sua obra
não esconde a água no pântano
penetra sem recorrer a
delicadas construções etéreas
sem recorrer à ajuda
da família
as delicadas construções etéreas servem
apenas para te esconder ó guardião do estilo
a loucura lamenta ter eclipsado
o guardião do estilo
mas é de eriçar
os pêlos dos braços, a sua obra, fatalmente marginal,
sempre presente nas fases de luto para meter o dedo
na ferida, a sua obra, com aquela infame tendência
de repetir, a sua obra
ó guardião do estilo
Nuno Moura, in “Cavalo Alucinado”, Douda Correria, Setembro
de 2017.
Nuno Moura (Lisboa, 1970) é poeta, editor, recitador profissional. Começou a
publicar em 1993. Em 1997, ganhou uma bolsa de criação literária do Ministério
da Cultura. Fundou no ano seguinte, com Helena Vieira, a editora Mariposa
Azual. Actualmente, é o editor da Mia Soave e da Douda Correria. Faz parte dos
colectivos O COPO, Ventilan, Os Bambi e Batatas Parvas. Organiza eventos de
música e de poesia. O seu mais recente livro intitula-se “Cavalo Alucinado”,
como no poema de Ângelo de Lima.
Tenho visto morrer as livrarias;
pouco a pouco, caindo, sem remédio,
umas de incompetência, outras de tédio
ou indiferença face às correrias
das gentes e das tecnologias.
Também oiço dizer que o livro é um médio
em vias de extinção; e que no assédio
de ebooks e hi-pads, o papel tem os dias
contados. Mas não sei de que se trata
nesta nova maneira de morrer;
há livros a boiar nas prateleiras
de um armazém; o naufrágio desbarata
pérolas de poesia, brasileiras,
que sem a morte eu nunca iria ler.
João Paulo Esteves da Silva, in "Trinta e quatro
sonetos e trezentas e cinco redondilhas", Douda Correria, Novembro de 2014.
João Paulo Esteves da Silva (Lisboa, 1961) é músico
profissional, tendo o Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional (1984).
São inúmeras as colaborações, em concertos e discos, com músicos nacionais e
estrangeiros. Desde 2009 lecciona na licenciatura em Jazz da ESML. Tem vindo a
trabalhar noutras áreas como a poesia — publicando dois livros, dos quais o
mais recente é o volume “Vertem-se Bíblias em Quimbundo” (2017). Traduziu dois
livros do poeta israelita Mordechai Geldman.
Próxima sessão, dia 20 de Fevereiro, com Paulo da Costa Domingos (autor e editor
da Frenesi).
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
CALDAS
"Yah, eu não sou muito de ver futebol", disse um jogador do Caldas à Sport TV. E isto é bonito pa' caralho.
UM POEMA DE JOHANNES BOBROWSKI
SOB A ORLA DA NOITE
Sob a orla da noite as pequenas
cidades ao vento, de labirínticos
telhados, paredes amarelecidas,
torres. Afundando-se na paisagem.
Tendas, a desfazer-se contra o céu,
com o eco de vozes mortas,
de bocas de sinos rasgadas,
caídas e geladas da idade.
E a planície entra
pelas suas ruelas, detém-se
nas praças em frente de
portas abertas, sobre as fontes.
Mas é de noite que elas
descem os rios, na hirta
floresta das velas nos mastros,
húmidas, bandeiras pintadas
esvoaçando. Eu cheguei
sob a orla da noite, lá fora,
acocorada à entrada da
floresta, uma aldeia, igual
à cigana morena que roda a frigideira
no reflexo da luz, no meio
das faúlhas do fogo, o fumo
a traçar-lhe o risco do cabelo.
Johannes Bobrowski (n. 9 de Abril de 1917, Sovetsk, Rússia, antiga Tilsit, Prússia Oriental - m. 2 de Setembro de 1965, Berlim Leste, República Democrática Alemã), in Como Um Respirar - Antologia Poética, trad. João Barrento, Cotovia, Abril de 1990, p. 55.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
O MELHOR DOS LIVROS EM 2017
Dando continuidade à opção tomada em 2015, voltarei a
elencar aqueles que foram, para mim, os melhores livros do ano, de acordo com
categorias que fogem às tradicionais listas da imprensa especializada. Dessas,
confesso, não fiz qualquer leitura. Chegaram-me, via amigos, brevíssimos
ecos, por nelas se incluir um livro muito querido acerca do qual, curiosamente,
ainda não tive o prazer de ler uma única recensão crítica. A vida como ela é,
como diria o outro. Este não deverá ser considerado, porém, um momento de balanço, quer-se antes um momento
de celebração do livro enquanto objecto mais do que comercializável. É também
um momento de expurgação na existência do singelo livreiro que vos escreve, passado
mais um ano rodeado de papéis imprimidos ao desbarato. Acrescentei algumas
categorias, deixei cair no olvido outras tantas. Vou já adiantando que foi um
ano fraquíssimo em sobrecapas.
Melhor cinta/Melhor Reedição
“Poemas Quotidianos”, de António Reis (Tinta-da-china,
Julho de 2017)
Assim como foi um ano fraco em sobrecapas, podemos também
dizer que foi parco em boas cintas. A excepção será a cinta que acompanhou a
saudada reedição dos "Poemas Quotidianos", de António Reis (n. 1927 – m. 1991),
com uma citação de Manuel António Pina a colocar no devido lugar a relevância
desta obra. É ainda da colecção de poesia da Tinta-da-china, que tem vindo a
impor-se como uma das melhores, o livro seguinte.
Melhor dedicatória
“Alguma Coisa Negro”, de Jacques Roubaud (Tinta-da-china,
Fevereiro de 2017)
Não abuso se disser que todo este livro é uma extensa e
pungente dedicatória a Alix Cléo Roubaud, companheira de Jacques Roubaud levada
pela morte, aos 31 anos, na sequência de uma embolia pulmonar. Caído “num
profundo estado de afasia”, o poeta recuperou-se nos poemas em diálogo com as
memórias e os objectos de uma relação abruptamente interrompida. Foi o livro de
poesia traduzida que mais apreciei em 2017.
Melhor primeira orelha/badana & Melhor Tradução
“Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos
Negros”, de Arno Schmidt (Abysmo, Outubro de 2017)
Arno Schmidt chegou finalmente à língua portuguesa,
através de um exigente trabalho de tradução levado a cabo por Mário Gomes. O
pormenor gráfico da primeira badana, onde não se lê senão o nome do tradutor, é
uma rara mas merecidíssima homenagem a quem teve o trabalho de mudar para o
idioma de Camões palavras que resistem altamente a essa mudança. Uma nota,
ainda no campo da tradução, para “Nada Natural”, a pequena antologia de Gary
Snyder que Nuno Marques e Margarida Vale de Gato traduziram e a Douda Correria
publicou.
Melhor capa
“Antro”, de Rui Baião (Averno, Outubro de 2017)
Não é de agora a colaboração do poeta Rui Baião com o
fotógrafo Paulo Nozolino, inquestionavelmente um dos melhores fotógrafos
portugueses. A capa de "Antro" é uma fotografia de Nozolino, à qual
inteligentemente não se sobrepôs absolutamente nada. Nem o nome do autor, nem o
título do livro, nem a assinatura da editora. Impossível reproduzir aqui a
luminosidade original
Melhor guarda
“Um Útero é do Tamanho de um Punho”, de Angélica Freitas
(Douda Correria, Setembro de 2017)
Poderá não ser exactamente uma guarda, mas é como se
fosse. No verso de capa e sobrecapa, as ilustrações de Xueh Magrini Troll
adquirem uma relevância à qual será difícil escapar. São uma espécie de
introdução visual ao texto, neste caso com especial pertinência. Transpõem,
deste modo, o papel decorativo tantas vezes exigido à ilustração. Angélica
Freitas é uma poeta e tradutora brasileira nascida em 1973. Em Portugal, tinha
já publicado “Rilke Shake” (Douda Correria, Agosto de 2015).
Melhor folha de guarda/Melhor lombada
“Assassinos da Lua das Flores”, de David Grann (Quetzal,
Julho de 2017)
O porte Osage, num livro que infelizmente terá escapado a
leitores interessados. Reportagem jornalística aprofundada sobre
um esquema de matança dos índios Osage, sequência de crimes que de algum modo
esteve na origem da instituição hoje conhecida pela sigla FBI. O mesmo rosto
surge na lombada, a observar-nos como um espírito que nos julga pelo peso que
traz à tona em consciências adormecidas.
Melhor corte superior
Editoras de poesia independentes
Cada vez mais a edição de poesia em Portugal resulta de
uma espécie de espírito de missão. Ao alto, três livros de três projectos
editoriais distintos — Língua Morta, Medula, Do Lado Esquerdo —
estão em representação de muitos outros, os quais afrontam o métier com aquele
amadorismo, do verbo amar, que não chega às grandes superfícies comerciais. Porque
estas, na sua incomensurável grandeza, têm o espaço alugado a quem reduz o
livro a fonte de rendimento exclusivamente material. Apostando em valores relativamente reconhecidos, dando a conhecer outros nunca publicados ou traduzindo autores estrangeiros, estas pequenas editoras vão realizando um enorme trabalho pelo bem comum.
Melhor corte dianteiro
“O Bibliófago e mais historietas breves”, de Abel Neves
(Adab edições, Abril de 2017)
O que acima afirmámos para a poesia, podíamos agora
afirmar para o conto. Abel Neves tem uma vasta obra publicada, dispersa por
diversas editoras com influência distinta no meio literário português. “O
Bibliófago” foi talvez o melhor livro de contos que li em 2017. Não me parece
que tenham sido muitos a dar por ele, escondido que andou nas estantes mais
refundidas das livrarias portuguesas.
Melhor corte inferior
“Resgate”, de Fátima Maldonado (Averno, Janeiro de 2017)
Logo a abrir o ano, a editora Averno resgatou alguns
textos críticos de Fátima Maldonado. As palavras de Manuel de Freitas, no
prefácio, não enganam: «Não querendo parecer demasiado pessimista, receio que a
liberdade (de espaço, de expressão, de estilo e de ritmo próprios) que se dava
a ler nos textos de Fátima Maldonado seja hoje uma total impossibilidade.
Refiro-me, claro, à imprensa, no que esta ainda possa ter de cultural. Talvez
noutros lugares, embora também improváveis ou raríssimos, o livre exercício
crítico possa continuar a ser praticado». Quem discordar, levante o braço.
Melhor folha de rosto
“O Grilo na Varanda — Luiz Pacheco para Laureano
Barros (Correspondência, 1966-2001)”, de Luiz Pacheco, com notas de João Pedro
George (Tinta-da-China, Junho de 2017)
Está toda a informação que é necessária, acompanhada de
um grilo cuja autoria desconhecemos. Mas o grilo faz a diferença, neste livro
que traz como bónus um filme de Paulo Pinto: “Laureano Barros, Rigoroso Refúgio”.
Ainda havemos de voltar a ele por aqui.
Melhor dobra
“Diário de Um Zé-Ninguém”, de George e Weedon Grossmith
(Tinta-da-china, Junho de 2017)
A colecção de humor que Ricardo Araújo Pereira coordena
para a editora Tinta-da-china tem toda uma identidade gráfica que a torna
inconfundível. As primeiras edições, com capa em cartolina grossa, deixam de
fora as tradicionais lombadas, revelando as costuras de que são feitas estas
edições. São livros onde a dobra faz a diferença. Tradução de Margarida Vale de
Gato.
Melhor segunda orelha/badana
“Factotum”, de Charles Bukowski (Alfaguara Portugal, Março
de 2017)
2017 foi um ano paupérrimo em matéria de segundas
orelhas. O mau tratamento oferecido a esta componente do livro é generalizado,
sugerindo-se a criação de uma associação pela defesa das segundas orelhas. Repetem-se
soluções, abandona-se a orelha ao vazio, faz-se dela uma continuação da
primeira. Segunda orelha que é segunda orelha quer-se autónoma e independente. "Factotum" surge aqui como exemplo de uma alternativa, tendo à segunda
orelha sido atribuído um propósito singular e congruente. Já agora, a primeira
vez que vi tal solução foi num livrinho da saudosa OVNI.
Melhor contracapa
“Somos contemporâneos do impossível”, de José Anjos
(Abysmo, Dezembro de 2017)
A Abysmo é outra editora que vem apostando na poesia
portuguesa. Regressando à poesia de José Anjos, de quem havia publicado, em
2015, o “Manual de Instruções para Desaparecer”, fá-lo com um extenso e, por
isso mesmo, arriscado volume. Quando o que geralmente vem na capa é deixado
para a contracapa, temos, então, a melhor contracapa. Assim se fez neste livro,
que, tal como sucede na melhor capa do ano, deu à obra plástica de Simão
Palmeirim Costa toda a primazia.
Melhor colecção
Eduardo Galeano, na Antígona
Repito-me: em 2017, a editora Antígona anunciou que iria
publicar uma colecção de obras de Eduardo Galeano. Foi uma das melhores
notícias que tive. Galeano é um Mestre, em maiúscula. Saíram “As Veias
Abertas da América Latina”, “O Caçador de Histórias” e “Mulheres”.
Noutros tempos, chamaríamos a isto um acontecimento literário. Seria celebrado
com gosto e inumeráveis razões. Agora parece haver uma certa indiferença,
como se fosse pouco ou nada, como se fosse irrelevante tamanho investimento em tempos de indigência.
Melhor ilustração de capa
“Siringe”, de Rosa Maria Martelo (Averno, Março de 2017),
ilustração de Luís Manuel Gaspar
É extensa a colaboração de Luís Manuel Gaspar com várias
editoras portuguesas, entre as quais se destaca a Averno. A ilustração que
acompanha a capa de “Siringe” comprova uma mestria no desenho que poucos
ousarão questionar. Neste caso, o resultado é especialmente inquietante devido
à difícil relação de estabelecer entre a ilustração e o título do livro.
Melhor nota de rodapé/Melhores ilustrações
“Alucinar o Estrume”, de Júlio Henriques (Antígona,
Janeiro de 2017)
Clique na imagem para ver melhor. Num ano em que tanto
se falou de turismo, esta não é apenas uma mera nota de rodapé. Pode ser um
tratado político, um slogan, pode ser um grito de revolta. Os desenhos de José
Miguel Gervásio que acompanham “Alucinar o Estrume” fazem justiça aos textos de
Júlio Henriques, observador conscientíssimo da nossa imparável decadência.
Melhor miolo
“Meninos Impossíveis”, de João Pedro Gomes (Douda
Correria, Setembro de 2017)
Que dizer deste pequeno volume da colecção Puto Xarila?
Os textos e os desenhos de João Pedro Gomes subvertem inteligentemente e com
graça o estereótipo de menino bem comportado, tão difundido em inúmeras
colecções de livrinhos para a infância. Os meninos aqui descritos têm algo
especial que os torna especiais, fisionomicamente são um reflexo das manias
interiores. O Fialho, por exemplo, é metade menino, metade alho. Já a Raquel,
alberga passarinhos no cabelo. Clique na imagem para ver melhor.
Melhor impressão
“A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do
capitão Dodero”, de Miguel de Carvalho (Debout Sur L’Oeuf, Dezembro de 2017)
A Debout Sur L’Oeuf, ou simplesmente DSO, é outra das
editoras que podia fazer parte das mencionadas no melhor corte superior. Miguel
de Carvalho, livreiro antiquário, autor, surrealista, coloca um cuidado nos
seus livros que não pode ser negligenciado. “A cidade dos paleólogos e as
viagens nocturnas do capitão Dodero” é um romance-collage, dedicado a Max
Ernst, iniciado em Abril de 2016 e terminado em Dezembro de 2017. Surgiu
inicialmente em formato A4, adquirindo agora um formato mais convencional que
não deixa de ser regalo para os olhos.
Melhor formato
“CONTEMSPOILERS”, de Luca Argel (Mia Soave, Agosto de
2017)
Um livro e um CD, interpretado como bónus editorial: “Livro
de Reclamações”. Regressaremos a ele em breve. As edições da Mia Soave são
sempre assim, juntam o melhor de dois mundos: o da palavra poética e o da
música. Um objecto não repete o outro, complementam-se, dialogam, repercutem-se.
E são quase sempre dois bens inestimáveis.
Melhor prefácio
“Lenine 2017”, de Slavoj Žižek (Elsinore, Setembro de
2017)
No ano do centenário da Revolução Russa, foi muita a
bibliografia associada às comemorações. Mas raramente com o sentido devido da
reflexão crítica. “Lenine 2017” é uma recolha de textos do próprio Lenine,
introduzidos pelo filósofo Slavoj Žižek a partir da única questão à qual
importa responder: como nos devemos relacionar hoje com o acontecimento a que chamamos
Revolução de Outubro? As respostas não são fáceis nem unívocas, como Žižek bem
o demonstra na sua ampla introdução.
Melhor texto de contracapa
“História Natural da Estupidez”, de Paul Tabori
(BookBuilders, Março de 2017)
Palavras para quê? Clique na imagem para ler melhor.
Melhor título
“Mike Tyson para Principiantes”, de Rui Costa (Assírio
& Alvim, Setembro de 2017)
Resisti à tentação de o guardar para livro do ano, embora,
por razões afectivas, assim o seja para mim. Foi, sem dúvida alguma, o livro de
poesia portuguesa que mais gostei de ler em 2017. Era um livro aguardado e
surgiu na forma em que surgiu, com introdução do André Corrêa de Sá e prefácio
da Margarida Vale de Gato. Os versos dizem o resto: «Descompreender o mundo, ou
seja, seduzir / por dentro do imparável sono como a água / nasce». Sei que
apareceu mencionado em algumas das tais listas especializadas, mas não me recordo
de o ver objecto de qualquer recensão crítica – o que não só diz muito do país
em que vivemos, como daquilo que a citação de Manuel de Freitas aponta no
melhor corte inferior.
Melhor posfácio
“Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, organização de
Eliane Robert Moraes (Tinta-da-china, Novembro de 2017)
Com o sugestivo título “Da Lira Abdominal”, o posfácio de
Eliane Robert Moraes para a antologia por si organizada é uma lição sobre bem
ler poesia. Naquelas cerca de 36 páginas reside muito do valor desta antologia,
onde o erótico, o pornográfico, o obsceno, adquirem o mais elevado grau do
lirismo em língua portuguesa. Imperdível.
Melhor cólofon
“A Balada do Velho Marinheiro”, de S. T. Coleridge
(Edições do Saguão, Setembro de 2017)
Clique na imagem para ler melhor. Eis um exemplo de como
até o pormenor mais técnico num livro pode resultar num belo exercício
criativo.
Dito isto, deixarei de fora categorias menos relevantes e
altamente subjectivas. O melhor sumário, os melhores agradecimentos, a melhor epígrafe
a melhor bibliografia… Menções honrosas para os livros de Simone Weil surgidos na
Antígona, para a insistência no ensaio por parte de editoras tais como a
Relógio D’Água ou a Cotovia, para o trabalho impressionante de uma pequena
editora sediada em Lajes do Pico, a Companhia das Ilhas. Não é qualquer um que
ousa dar oportunidade a obras de ficção como a “Nova arte de conceitos”, de
Luís Miguel Rosa, e “O domínio material”, de João Paulo de Jesus, ambos obras
de estreia, ou “Hotel do Norte”, de Rui Ângelo Araújo, romance do qual se fez
uma primeira tiragem de 250 exemplares. Assim vai o nosso mundo.
Livro do ano
“Frida”, de Sébastien Perez e Benjamin Lacombe
(Kalandraka, Setembro de 2017)
Com texto de Sébastien Perez e ilustração de Benjamin
Lacombe, “Frida” é muito mais do que um livro. E, por ter sido publicado numa
editora especializada em literatura infantil, devemos sublinhar que é muito
muito mais do que um livro infantil. O texto de Sébastien Perez é um longo
poema em prosa sobre a vida e a obra da pintora mexicana Frida Kahlo, ao passo
que as ilustrações de Benjamin Lacombe são autênticos poemas visuais sobre
exactamente os mesmos temas. Uma capa que parece ter sido bordada, os recortes
no miolo, o diálogo caleidoscópico de página para página, fazem deste livro uma
autêntica obra de arte. Só folheando, que dizendo não dá para acreditar.
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