quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #33


   Quem é esta rapariga? De onde vem a voz cristalina e frágil que nos comove e emociona? Queremos respostas. Era então menos fácil encontrá-las, mas conseguimos ficar a saber que nasceu em Estocolmo, capital da Suécia, em 1969. No Blitz, aquando do primeiro contacto, dizia-se que ela tinha 25 anos. Mais cinco que eu, então migrado na capital do meu país a tentar equilibrar a cabeça no fino cordão de noites mal dormidas. 1994, a depressão ataca pela primeira vez ao som de “And She Closed Her Eyes”. Ataca forte, acompanhada de esgotamento nervoso. A mão sobre a fonte, como na foto de capa, indiciava companhia de que não mais me libertei.
   As comparações com Rickie Lee Jones, Virginia Astley, Julee Cruise, Hope Sandoval, Tori Amos, Björk e Suzanne Vega são todas disparatadas. Stina Nordenstam esconde por detrás da voz frágil e sensível uma dor de fúrias contidas. Ritmos calmos, melodias aprazíveis, arranjos simples a pender para o jazz com coros angelicais, como no tema Little Star, podem não denunciar o que virá, podem até dissimular o que virá, mas quem leia atentamente as palavras cantadas em sussurro apercebe-se do que em "Dynamite" (1999) se tornou óbvio. A sueca não procura a canção perfeita, não traz consigo qualquer intenção de agradar aos ouvidos vampíricos dos adeptos da pop e da canção melancólica.
   Falemos de relações de confiança traídas pelo que de pior há num ser humano, falemos de dúvidas acerca da verdade no amor, falemos de uma última oportunidade, falemos de cidades assaltadas pelo terror, de bombas e ruas caóticas, falemos de partidas, da perda, falemos de crimes, de patologia social, de uma mente à beira do abismo. Ao segundo disco, Stina Nordenstam lançava sementes para o que ao terceiro implodiu com estrondo chocante. Mas como é bom, passados estes anos, voltar a imaginar esta rapariga a lançar sementes em terra lavrada. Como naquela canção, I See You Again, tão simples e tão encantadora como alguém que espreita pela janela de um comboio em andamento.
   O jazz dá-lhe um toque refinado, sobretudo quando entram os sopros de Jon Hassell, por vezes em surdina ou abafados, mas não é apenas isso que torna esta música tão tocante. É a simplicidade comum ao todo, o tom de adeus encenado a cada momento, como quando os instrumentos se levantam sobre o ritmo puxado da guitarra, à moda bossa, sem chegarem a ser épicos, sem imporem qualquer definição emocional, antes abrindo a porta à emoção. E a gente vai por ali adentro com a maior das seguranças, crentes de que entre a naturalidade da música e a excentricidade das letras poderá dar-se a verdade de um encontro.
   E deu, por pouco mais do que por ali ficando. O que será feito desta rapariga?


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