domingo, 14 de janeiro de 2018

CONTEMSPOILERS


   Um pássaro bate asas contra o vento, olhamo-lo incrédulos. O vento é muito mais forte do que o pássaro, não nos espantaria que o pássaro fosse arrastado para fora do campo de acção do vento. Mas ele insiste em bater asas. Passa-nos pela cabeça que para o pássaro seja muito mais divertido bater as asas contra o vento do que para nós é remar contra a maré. Para o pássaro, bater asas contra o vento é um divertimento. Não é instinto, nem teimosia, que o pássaro não tem, nem obstinação, palavra que o pássaro desconhece. É pura diversão. Como a água em pedra dura.
   O fotógrafo lituano Antanas Sutkus podia ser o pássaro. Vem fotografando pessoas comuns do seu país, em cenas ordinárias, desde meados da década de 1970. Os entendidos dizem que com tamanha ousadia combateu os modelos de perfeição impostos pela estética soviética, mas não estamos certos de que para Sutkus se tenha tratado de um combate. Por sua vez, o compositor György Kurtág, nascido na Roménia, mostrou-se solidário para com os coreanos do norte que combateram os americanos na Guerra da Coreia. Mas quando Bartók foi proscrito na Hungria, Kurtág mudou-se para Paris e procurou Olivier Messiaen. Já Julius Neubronner foi um farmacêutico alemão interessado na química das imagens. Servia-se de pombos para tirar fotografias aéreas, registadas em pequenas máquinas transportadas em pleno voo. Os pombos batiam as asas contra o vento, do seu esforço surdiam divertidas imagens que eram rapidamente transformadas em magníficos postais.
   Antanas Sutkus, György Kurtág e Julius Neubronner são três nomes estranhos referidos em CONTEMSPOILERS (Mia Soave, Agosto de 2017), do músico e poeta brasileiro Luca Argel (n. 1988). Neste caso, o poeta também bate asas contra o vento. Não por instinto, que há nele uma terrível cabeça pensante a tornar misteriosas as conexões fonéticas, os divertimentos formais, o aspecto lúdico do poema na síntese irónica que faz de um postal, como na secção intitulada Coroa de Patas de Caranguejo, ou nos cruzamentos que opera entre som e significado alongando a palavra textual até àquele ponto em que ela se torna figura. Não figurada, não figurativa, mas corpo que surge da intersecção das linguagens poética e musical.
   Luca Argel, licenciado em música, com mestrado em literatura, como se encontra por aí reproduzido na imprensa, é o pássaro que bate asas contra o vento no sentido de uma linguagem própria e singular. Ele não se deixa ir na onda nem se deixa levar pelo vento, tem no horizonte um núcleo sem fronteiras onde versos e prosa dialogam como na palavra escrita dialogam imagem e som. E então os idiomas misturam-se como as artes, como as disciplinas, e tudo fica mais indisciplinado, et voilà, mais poético.
   No CD com o título Livro de Reclamações, ele mesmo irónico se o entendermos enquanto bónus editorial do livro que acompanha, “replica” a estranheza com movimentos de um rock algo roufenho, ao antiquado modo gravador de quatro pistas, desmentindo radicalmente as expectativas da palavra embalada por violão ao estilo eventualmente conhecido de youtubes e afins. Esta voz é de uma provocação à qual somos incapazes de resistir, tal como não resistimos a pássaros que batam asas contra o vento. A meio do CD, o único texto do livro, e o mais improvável, é dito sobre uma guitarra minimalista, minimalíssima, sem pontuação na cadência.
   O livro, que abre com uma secção intitulada Antífonas Cafonas, não enjeitaria, aqui e acolá, melodias orelhudas ao estilo  contemporâneo. Luca Argel faz questão de subverter, isto é, de bater asas contra o vento:

A PARTE ESCRITA

a parte escrita deste poema
sofreu alterações irreversíveis.
embora ninguém saiba exactamente quais são elas,
a parte escrita deste poema
há muito já não é a mesma.

das cinco palavras do título
nenhuma foi aproveitada.
os verbos e os pronomes
foram todos substituídos.
o último verso
não existe mais
e os outros mudaram de lugar.

o assunto e os personagens
da parte escrita deste poema
diluíram-se a cada releitura
até desaparecerem completamente.
o autor da parte escrita deste poema
está irreconhecível
e mesmo o seu nome
já tem outro significado.

da parte escrita deste poema não restou
nenhum susto,
nenhuma mancha de grafite.


   Há nisto um jogo, o jogo de defraudar expectativas superando ideias feitas. Que esperar de um jovem músico e poeta brasileiro instalado em Portugal? Que amanhe melodias sedutoras para poemas metricamente irrepreensíveis? Que desenhe sambas e bossas para sonetos? Esqueçam. O poético fundamenta-se na desconstrução de uma ideia, reafirma a liberdade do autor enquanto granadeiro no terreno das formas fixas, do imobilismo, da linguagem cristalizada por convenções e metodologias academicamente propagadas. O que resta do poema é o gesto lúdico, é a ironia da desconstrução, é aceitar que a intenção anterior ao significado é já ela mesma portadora de sentido. 

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