quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

"CHRISTINE" (2016)



O menos que se pode dizer de Christine é que se trata de um objecto de cinema que evita transformar a tragédia da sua personagem central em “símbolo” do que quer que seja. Do mesmo modo, o contexto televisivo em que Christine trabalha não pode ser encarado como um retrato de “toda” a televisão: em termos históricos, a realização de Campos interessa-se pelas especificidades da conjuntura audiovisual de meados da década de 70, ao mesmo tempo que, no plano psicológico, observa as nuances mais delicadas da história pessoal de Christine.
João Lopes, aqui.


Baseado numa transtornante história verídica: aqui. Imperdível.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

PERDER O ESQUECIMENTO


A hipótese de um Deus enganador configura-se cada vez mais verosímil. Desbravado o caminho da pós-humanidade, apanhado o ser na rede da pós-verdade, o homem surge aos olhos do artista como uma espécie de cadáver que caberá à arte autopsiar em aula de anatomia. O quadro de Rembrandt anunciou a actualidade como um oráculo, embora aí ainda tenhamos corpo de carne o osso. No futuro, será apenas memória registada num vastíssimo depósito de combinações: palavras e sons, sons e imagens, imagens e cheiros, cheiros e texturas, texturas e palavras… Enfim, memórias. Fragmentos representativos de uma realidade cuja natureza é já a sua falsidade enquanto raiz do autêntico. Um depósito de logros, por assim dizer. Símbolos que combinados com outros símbolos formam representações. A lição de anatomia terá então como objecto anatómico uma representação identitária, pode ser um diário, uma qualquer página numa qualquer rede social, um vastíssimo número de fotografias e de filmes caseiros que terão já ultrapassado a imagem de si para se estabelecerem como o si mesmo, númeno, a essência por detrás da aparência. Dicotomia, aliás, entretanto desfeita. Porque num futuro muito próximo ninguém saberá distinguir aparência de essência, será tudo mera representação. No teatro teremos então a verdade, assim como na poesia a mentira terá os dias contados. Fingir equivalerá a respirar, pelo que os processos de transfiguração artística estarão muito mais ligados ao facto do que à imaginação.


O cinema documental de Chris Marker (n. 1921 – m. 2012) antecipa esse futuro aproveitando-se da noção de jogo. Em Level Five (1997) um homem e uma mulher, ausentes um do outro, ligam-se através de um jogo de estratégia cujo objectivo é a reconstituição da batalha de Okinawa. Ela refere-se-lhe como se ele não existisse, fala para uma câmara. Ele, em voz off, refere-se a ela no final como se estivesse a falar de um fantasma. A relação entre ambos é tão lúdica como a que se estabelece entre nós e as personagens. Afinal quem nos fala? E de onde? De que tempo? De que realidade? De que vida? De que morte? Pode alguém ser tão adorável como uma imagem? questiona ela, enquanto reconstrói a partir da estrutura do jogo pedaços da sua própria existência. Ele apaixonou-se por uma imagem e colocou uma mulher no lugar da imagem, colocou-a a ela. A via não é a do idealismo tradicional, a imagem não surge enquanto modelo, já que surge da vida e não de uma ideia. É esta a direcção do cinema de Marker, da vida para a ideia. Não o inverso. E assim temos que entre um jogo de estratégia e a realidade histórica realiza-se o autêntico, em ambos é a perda, a derrota, a paradoxal relação do homem com a derrota que emerge como uma imagem poderosa, indestrutível.


Os jogos de estratégia são feitos para ganhar batalhas perdidas, tal como os suicídios em massa na batalha de Okinawa. A batalha estava perdida para quem caísse na mão do inimigo, o suicídio era o nível derradeiro de um jogo com a morte de premeio. O sucesso equivale ao fracasso. Não será também este o enigma estabelecido por Sans soleil (1983)? A viagem no espaço, mais uma vez com o Japão em fundo, tem na sua origem a força de uma imagem inaugural: três crianças islandesas, representação da felicidade. O poder da Natureza equivale aí ao poder do Tempo, tal como na paisagem desértica de Cabo Verde. Se o Tempo cura feridas? Não. O Tempo tudo arrasa, tudo deixa em ferida, ruína. A história do filme resulta, aliás, de uma intensa reflexão histórica acerca do poder da memória. Há uma cena a destacar-se das demais, a cena do abate de uma girafa. Um primeiro tiro atordoa-a, um segundo atravessa-a de um lado ao outro, levando-a a esvair-se em sangue até por fim tombar. Um terceiro tiro fatal, na cabeça, retira-lhe a vida. E o sofrimento. O plano final mostra-nos dois abutres a comerem-lhe os olhos. É esse órgão directamente ligado à visão, princípio de todo o cinema, de toda a arte visual, que é questionado. A impossibilidade da memória equivale à impossibilidade da História, o cinema é um documento que busca o reconforto melancólico de uma imagem originária.


Teatro de sombras, este cinema de pendor etnográfico com intuitos documentais. O que aqui se documenta não é tanto o facto como é a reflexão sobre o facto, partindo da vida, da realidade, da História. Mesmo quando surge no formato de ficção científica. A curta-metragem La jetée (1962) é hoje considerada uma obra-prima do género. Muito por causa, suponho, do seu processo de montagem. Em La jetée o movimento das imagens não corresponde ao de um filme convencional. O movimento, aqui, é sugerido como quem folheia um álbum de fotografias ou de banda desenhada. O movimento das imagens está na sua relação com o texto. Num cenário pós-apocalíptico, o que resta da humanidade sobrevive em túneis onde são levadas a cabo experiências com o intuito de fazerem sobreviver a humanidade num plano extraterritorial e "extratemporal": o plano da memória. Um homem é escolhido para viajar através do tempo nas suas memórias. A escolha recai sobre ele por viver obcecado com uma imagem da infância. Esta obsessão com as imagens, com o poder da imagem, percorre os filmes de Marker paralelamente a uma meditação profunda sobre a relação da memória com o passado. Será possível recuperar o passado? Reconstituí-lo? Não será a própria fixação do presente uma forma de recuperação do passado? Afinal, uma imagem gravada hoje não será no futuro um pedaço de passado em estado de conservação? A inocência cósmica ambicionada sobreviverá então nesse pedaço de história porventura poupado à lava do tempo. A viagem sugerida na ficção de Chris Marker não é outra senão a que o próprio levará a cabo nos seus documentários posteriores, tanto em Sans Soleil como em Level 5. Após muitos casos de homens que perderam a memória, eis o exemplo de um que parece ter perdido o esquecimento…

UM POEMA DE PIER PAOLO PASOLINI


A MADRUGADA MERIDIONAL

Passeava nas proximidades do hotel — era ao entardecer —
e quatro ou cinco rapazes surgiram,
na pele de tigre dos campos, sem
um penhasco, uma cova, um resto de vegetação
que fosse abrigo para eventuais disparos: que
Israel estava ali, sobre a mesma pele de tigre,
semeada de casas de cimento e muros
inúteis, como em todos os subúrbios.
Fui ter com eles, àquele lugar absurdo,
longe da estrada, do hotel,
da fronteira. Foi mais uma amizade,
daquelas que duram uma noite
e atormentam depois toda uma vida. Eles,
deserdados, e também crianças
(que, dos deserdados têm o saber
do mal — o furto, a rapina, a mentira —
e, das crianças, o idealismo ingénuo
de sentir que se consagram ao mundo),
tiveram logo a velha luz do amor
— como de gratidão — no fundo dos seus olhos.
E falando, falando, até
cair a noite (e já um me abraçava,
ora dizendo que me odiava, ora que não,
que me amava, me amava), soube, por eles, todas as coisas,
todas as coisas mais simples. Eles eram os deuses,
os filhos de deuses, que misteriosamente disparavam,
por um ódio que os faria descer das montanhas de argila,
como noivos sedentos de sangue, sobre os Kibutz invasores
na outra metade de Jerusalém...
Maltrapilhos, que agora vão dormir
ao relento, no fundo de um baldio dos subúrbios.
Com os irmãos mais velhos, soldados
armados de uma velha espingarda e bigodes
de mercenários resignados com mortes antigas.
São estes os Jordanos, terror de Israel,
estes que à minha frente choram
a dor antiga dos foragidos. Um deles,
emissário do ódio, já quase burguês (ao moralismo
chantagista, ao nacionalismo que empalidece de raiva
neurótica) canta-me o velho refrão
que aprendeu na sua rádio, com os seus reis —
outro, no meio dos seus trapos, ouve concordando,
enquanto, como um cachorrinho, se encosta a mim,
não sentindo, naquele campo de fronteira,
no deserto jordano, no mundo,
mais do que um mísero sentimento de amor.

Pier Paolo Pasolini (n. 5 de Março de 1922 - Quartiere Santo Stefano, Bolonha, Itália - m. 2 de Novembro de 1975, Óstia, Roma, Itália), in Poemas, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Assírio & Alvim, Março de 2005, pp. 433-435. Mais sobre Pasolini: aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A LER



Há uma frase do Lacan sobre a paixão. Era qualquer coisa do género: “a paixão – ou o amor, já não sei – é dar o que não se tem a quem não quer receber”. E eu acho que a função pedagógica é da mesma ordem. É dar o que não se tem, porque ninguém sabe tudo… sabe-se umas coisas, tem-se umas ideias, umas impressões, melhor ou pior organizadas. Portanto, dá-se o que não se tem a pessoas que não querem totalmente receber o que se está a dar. E têm toda a razão, porque têm mais que fazer na vida, têm outras ideias, etc. Ponhamos as coisas assim: dentro daquilo que eu posso fazer, o mais que posso é manter esta forma de fazer as coisas, trabalhar o melhor possível dentro desta forma, e não procurar fazer doutra maneira, encontrar outro estilo que eventualmente não teria tanto que ver comigo. Ou seja, isto não é resistência, mas mais persistência. Enquanto me deixarem e tiver condições para o fazer, irei fazendo, da melhor forma possível, nestes moldes. Mas tenho ideia de que tudo isto é muito relativo, que a minha maneira não é necessariamente melhor ou pior do que outras formas de fazer a mesma função. Acima de tudo, acho que devem vir outras pessoas que consigam fazer isto de uma forma mais orgânica e equilibrada.


Fernando Guerreiro, entrevistado aqui.

VIVA O CAPITALISMO


   Ao fim de duas horas e meia de tentativas, uma equipa médica decidiu abortar a execução de um homem condenado à pena de morte nos Estados Unidos, por não ter conseguido encontrar uma veia onde pudesse administrar a injecção letal.
   A situação aconteceu na última quinta-feira no estado-norte-americano do Alabama. Os médicos tentaram, sem sucesso, inserir a agulha mais de dez vezes a Doyle Hamm, um homem de 61 anos condenado à pena de morte por assassinar o recepcionista de um hotel durante um assalto em 1987, na cidade de Cullman.
(...)
   Não é a primeira vez que os medicamentos usados para matar não funcionam - à medida que as empresas europeias que os produzem se recusam a vendê-los aos EUA e os produtos mais antigos são descontinuados e desaparecem do mercado -, ou que o pessoal médico encarregue da execução falha, porque os médicos qualificados se recusam a participar nas execuções.
 (aqui)

ROCOCÓ


Pensa-se que a palavra "Rococó" derive de rocaille, termo francês que designa o tipo de ornamentação à base de pedras e conchas geralmente usado na decoração de fontes e grutas e que se terá combinado com "barroco". O termo "Rococó" terá sido inventado por um discípulo de David pouco depois da Revolução Francesa. Pretendia ser um insulto irónico à frivolidade do estilo aristocrático e floreado em vigor. (...) O Rococó caracteriza-se por uma abordagem ligeira, decorativa. Em temas narrativos, a história era muitas vezes reforçada por putti jocosos, ou por estátuas que pareciam ganhar vida, ansiosas por participar. Mesmo nos temas mais sombrios, os pintores entregavam-se a floreados ornamentais e efeitos fáceis. Nas artes aplicadas, a ênfase na decoração era ainda mais acentuada. Motivos como cornucópias e conchas apareciam em toda a parte e cultivavam-se as linhas curvas e a assimetria.

Citado de Arte, vários autores, consultor editorial Andrew Graham-Dixon, trad. Sofia Gomes, Civilização Editores, Agosto de 2009, pp. 242-243.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

FOLHETIM DOS FOLHETOS


   Há tempos, em crónica intitulada, ao melhor jeito presencista, Ah, a poesia!, queixava-se António Guerreiro no Público da «proliferação imoderada e imprudente de pequeníssimos livros ou plaquettes, que os devotos do círculo de onde eles nascem querem que circulem como relíquias, mas que o leitor, habitando um mundo profano e sem espírito de coleccionador ou de caçador, gostaria que fossem mais nutridos, mais volumosos, e sobretudo que não fosse tão evidente uma perigosa inclinação para a autocomplacência editorial, que arrasta outras complacências». Matando dois ou três ou quatro coelhos de uma cajadada, eis o cronista no lugar do leitor, do crítico e do conselheiro editorial. Pelo menos. Mais recentemente, Diogo Vaz Pinto, para quem palavra de Guerreiro é homilia papal, veio também ele, num estilo mais flatulento, queixar-se das ditas plaquettes. Arroto particularmente malcheiroso, por servir para enaltecer em particular uma obra que não necessitaria de ver reduzidas as demais a “dejectos”. Portanto, DVP quis dizer bem de uma plaquette, mas moeu-se-lhe a consciência. Não conseguiria fazê-lo sem respeitar os ditames da Santa Madre Igreja, isto é, oferecendo à crónica um largo preâmbulo sobre “o lado negativo” das ditas. Viu-se a crítica do “caderninho” reduzida a dúzia de linhas facilmente resumíveis: “Em tão poucas páginas, com recursos aparentemente tão escassos, há, na verdade, de tudo”. De facto, há de tudo.
   Chamemos-lhes plaquetas, folhetos ou cadernos, os livros de pequena espessura sempre conviveram de perto com a edição de poesia. Sempre… e não só com a edição de poesia. Recordemos os menos atentos, ou os mal-intencionados, da relevância de duas colecções nesse formato constantes no muito estimável catálogo da editora & etc: a colecção “subterrâneo três” e a colecção “contramargem”. Não por acaso podemos recordar a tradução de Aníbal Fernandes para a “Proposta Modesta” (& etc, colecção contramargem, n.º 6, Agosto de 1980), de Jonathan Swift (n. 1667 – m. 1745), opúsculo vindo a lume em 1729, elevado pelo tempo à condição de obra-prima da sátira política e da escrita humorística em geral. Nesse texto breve, mas supomos que intenso e nutrido, impera a urgência da denúncia. O tema é a miséria disseminada pela Irlanda, ilustrada pelo espectáculo de mendigos nas ruas de Dublin. Para acabar com a miséria, Swift arquitecta um plano económico que antecipa, em grande parte, as visões estritamente economicistas e, por consequência, desumanas da realidade. Consistiria o plano em aproveitar parte considerável das crianças produzidas na nação, note-se, para alimentar famintos e vulgares comensais. As vantagens seriam inúmeras: baixar o número de papistas, oferecer aos agricultores uma alternativa económica, proporcionar ganhos ao Estado, rendimentos às reprodutoras, renovar as cartas dos restaurantes, reforçar os atractivos do casamento, diminuir o consumo de carne de vaca… Não sabemos se Swift cabe na designação de “pombo”, nem se o texto incluído por Breton na sua “Antologia do Humor Negro” merece o epíteto de “dejecto”. Cremos que enquanto opúsculo do séc. XVIII mantém, ao séc. XXI, uma estimulante cultura subversiva que casa lindamente com o formato em causa. E oferece uma ideia de base, mais vale curto e inteligente que extenso e verborreico.
   Modelos de solidez criativa são igualmente os folhetos publicados por Fernando Guerreiro (n. 1950) durante a década de 1980 (e que bom seria vê-los reunidos num só volume). Regressemos a “Amor Fati” (Edição do autor, Janeiro de 1982), onde os derradeiros anos de Friedrich Nietzsche (n. 1844 – m. 1900) são acompanhados através de uma incursão biográfica e bibliográfica na demanda de relações entre vida e obra. O pretexto é a deriva do filósofo alemão por terras italianas, à procura de um sol que a sul pudesse “vencer a sedução do suicídio”. O título recupera uma fórmula cara à filosofia nietzschiana, designação de espécie de fatalidade que aceita no mundo uma ordem natural, selectiva, desbravando terreno para a revelação do mais forte, do mais terrível, do mais trágico. Nietzsche, já doente, tece um elogio épico do nada, fechado num quarto cujas paredes confinam o território da Natureza. Desta, sobram bocados de comida que sugerem receitas às quais corresponde a química dos elementos no processo transformador da matéria. O corpo, a carne, tende para um nada que é tudo. Guerreiro cita correspondência, aforismos, divaga pelo laboratório culinário: «Uma doação em que a própria vontade é a da massa. Será que se a comerem, compreendem? A matéria antes rígida, sólida, pétrea amolga-se agora e melhor à língua se adapta». Conto? Poema? Ensaio? Texto. E nele, porventura, tanto a relação do motivo com o seu mundo como a daquele que investiga com o objecto de investigação. No fundo, é de assimilar ideias, conteúdos, palavras, imagens, sons, cheiros, que a vida se faz e transforma até ser pólen. As 18 páginas da publicação não determinam a densidade do texto, acerca do qual muito haveria a dizer. Lembre-se, por ora, que o desenho de capa é do saudoso Paulo Varela Gomes. Peça de colecção para habitantes de um mundo profano.
   Questionamo-nos, portanto, sobre quem possam ser os “pombos” que andam a conspurcar a praça da poesia portuguesa e sua respectiva estatuária? Talvez o leitor esteja iludido, talvez o jornaleiro do Sol pretenda projectar sobre outrem suas próprias culpas, talvez esteja num momento de contrição expiando-se de práticas por si levadas a cabo enquanto editor. Pois nessa qualidade reconhecemos-lhe a responsabilidade de ter dado ao mundo muita “dita plaquette, como hoje lhe chamamos, a fazer biquinho à francês”. Algumas valendo aos respectivos autores publicidade que dificilmente se justificaria, outras, menos publicitadas, assaz apreciáveis. Contentemo-nos com esta: “fôlego sem folga” (Língua Morta, Maio de 2012), de Miguel Martins (n. 1969). Escrita de jorro, como o título indica, a prosa de Miguel Martins coloca em cena um homem no reduto doméstico. Escreve pela noite dentro enquanto a mulher dorme. Monólogo impetuoso, embora vigilante, o texto dramatiza a figura do escritor entregue à solidão, fazendo da sua arte missiva com destinatário incerto: «descansem: enquanto for vivo não me suicidarei nem que me mate. não nasci para isso, não tenho jeito para aqueles cinco segundos em que essas coisas acontecem» (p. 12). “Co-responsável” na edição, DVP não enjeitou a facilidade de uma edição menos dispendiosa cedendo à pululante urgência do poeta. Terá sido assim? O texto foi publicado, ainda bem. O leitor agradece. É deste tempo e não de outro, continua a fazer o mesmo sentido que faria no passado por haver nestes actos de escrita e publicação uma força que vem exclusivamente da vontade de fazer. Sem calculismo literário, sem presunções mediáticas, o campo é o da espontaneidade, do fazer. Aqui ninguém se preocupa com perigosas inclinações para a autocomplacência editorial, faz tudo parte de um jogo de imprudências que, afinal, está na raiz do impulso poético.
   Não se referindo a si próprio, a quem se referirá DVP quando acusa o “ambiente de praça fétida em que o que há mais são pombos lerdos e os seus dejectos, as plaquettes” (sic)? É difícil percebê-lo sem entrarmos no universo da columbofilia. Aí compreenderíamos que à espécie de “pombo lerdo” corresponde um voo sem correio específico, sem carta nem agenda, imprudente, sim, sobretudo imprudente, bem distinto do voo de outros pombos armados ao furioso, cheios de cálculos e de teoremas na cabeça. Já que falámos em Miguel Martins, por que não lembrar que também ele é (foi?) editor de inúmeros folhetos. Tomemos de exemplo “Jejum” (Tea For One, Agosto de 2016), de Luís Brito (n. 1986). É o volume 29 da colecção “matéria mínima”, vinte e duas páginas agrafadas para onze poemas, com ilustração de capa assinada por Salvador Salazar. Um prejuízo! Talvez um “dejecto”. Precavendo-se, o poema diz: «Talvez melhor, quem sabe? / E o talvez é de certeza / A coisa mais fodida que há» (p. 7). Porque no poema há vida, há viver, há o sobressalto daquele que se questiona entalado entre Deus e a Natureza, sabendo-se coisa pouca, mínima, que é o que a grandiloquência do jornaleiro atolado em judiações enjeita. E então contrapõe um “Em tempos, por questões de rigor…”, blá blá blá, ao “Hoje há outras razões…”, blá blá blá, num paupérrimo exercício lógico desmontado pela realidade. O “Jejum” de poeta novo, como por aí se diz, prova que há, mais memória, menos memória, mais viagem, menos viagem, mais aventura, menos aventura, presente neste futuro, futuro naquele passado, porque o tempo se faz de coisas que vão sendo feitas. E a História é isso, mesmo que dela queiram depois fazer outra coisa. Da leitura subjectiva do poema, da sua linguagem aberta, retirará cada um sua lição com a certeza de: «Que isto da vida / Isto do amor / Isto das mulheres / É sempre a piorar e o paraíso só chegará quando / Ela morrer nos braços das tuas ideias» (p. 9).
   Luís Brito também publicou na Abysmo, que acaba de "dar à estampa" a colecção “Mão Dita”, de poesia, com uma plaquette assinada por Inês Fonseca Santos (n. 1979): “Suite sem vista” (Abysmo, Janeiro de 2018). Ah, quão óbvios não são os alvos do granadeiro?! Num poema sequência em catorze estâncias, com belíssimo grafismo de Luísa Barreto, Inês Fonseca Santos apresenta-nos a uma rapariga num quarto de hotel. A solidão mistura-se com o desejo, o tédio com o medo, o erotismo com a perda, num cenário com vista para os lugares da intimidade. A cidade está lá, mas é como se não estivesse. Todo o espaço envolvente remete para um espaço interior. Alguém limpa os quartos do hotel, mas o que se retém é o “silêncio após a limpeza dos quartos”. Há reflexos no espelho que enviam para memórias, o dentro é o espaço que a escrita redime da solidão absoluta: «Nessa noite, a rapariga encostou a mão / ao lume. Houve reclamações em todo o hotel: // o cheiro insuportável da rapariga / era o de quem escreve» (p. 20). E do desfecho damos ensejo à leitura, porta aberta, por ironia, ao que surge fechado em si mesmo, cerrado na clausura de um intimismo que separa a rapariga do mundo, como se entre ela e o outro não houvesse exterior. Deste modo, a escrita surge enquanto extensão da intimidade, é, em essência, a fenda a partir da qual a intimidade quebra. Lê-se como quem assiste a uma curta-metragem, fazendo sentido a publicação isolada por não ser a sequência fragmento de algo maior. Não é grão na engrenagem, é poema a valer por si mesmo, micro-drama, na sua também situação de isolamento. Mas que interessa isto quando partimos para a leitura ocupados por preconceitos medíocres?
   Portanto: dejectos, excrementos, poiais de pombos lerdos, os folhetos que “hoje”, supostamente ao contrário do que ontem acontecia, contribuem para o “cagaçal”. Entre todos, a Douda Correria mais que outros tem, assim sendo, contribuído para a conspurcação pátria com volumes pouco nutritivos. É a dieta das 31 páginas. Que julgará o homem dos sete instrumentos da “Carta em Fuga Para Cravo e Drá” (Douda Correria, Junho de 2017), de Mariano Alejandro Ribeiro (n. 1993)? Julgará o homem dos sete instrumentos que nos tempos dos surrealistas, os nossos e os de além, era diferente? Alô, alô, Contraponto? Ou que a geração que ficou para a história como beat marchava em passo de ganso? Ou que entre cultura e contracultura o tamanho importa? Queixa-se da quantidade? Da falta de tempo? Não tenha pressas. Intenso ou não, será Mariano Alejandro Ribeiro um dos que caga sem particular denodo? Cito. Numa coisa estaremos de acordo: «Vai tudo, ou quase, como é óbvio, parar muito longe, a um deserto a que, anos depois, nem grandes expedições conseguem ir lá dar». A croniqueta ainda mais depressa. É a lei da vida. Para quê queixar-se alguém da lei da vida? Até que tudo chegue a bem longe, temos a “mercearia do Ali”. Nos folhetos da Douda com especial ironia gráfica. Para que entre livro e folheto não se intrometam as 48 páginas impostas por lei, vai a publicação sem paginação. Neste particular de Ribeiro, acompanhadas por uma libélula marroquina num poema-missiva pautado pela figura das “maçãs verdes”. Como os versos, se assim posso dizer. Recordações e momentos de nostalgia, num divertimento poético com sinais gráficos e disposição de caracteres à mais lúdica vocação experimental. Pelo meio, uma promessa: «Eu hei de te escrever um dia amigo / Um manifesto às guerras que não vivemos / Às fomes que não sofremos / Aos olmos que não fomos / Às almas que não vemos». Apreciará sua excelência maçãs verdes? Também na Douda Correria publicou Vasco Gato (n. 1978), autor de variadíssimas plaquetes. DVP dedicou duas páginas inteiras no I a uma delas (aqui). Pombo lerdo? Amigo lá de casa? E já agora, quando temos em mão “A Musa Irregular”, de Fernando Assis Pacheco (n. 1937), o que realmente temos em mão senão uma belíssima colecção de plaquetes? Recordemos parte da “nota a fechar”: «Entretanto fui mandando compor entre 1976 e 1986, na oficina de J. J. Magalhães, uma série de plaquetes de oito páginas uma apenas, a última, com o dobro do tamanho: dezasseis estritamente para ofertas». Outro pombo lerdo, a fazer biquinho à francês, contribuindo para o cagaçal com dejectos de 8 páginas.
   Como editor, DVP publicou bastantes folhetos para que aqui não os inventariemos fastidiosamente. Serão pérolas, na legítima opinião do editor. Mas senão ilegítima, tristemente façanhuda, a opinião do jornaleiro a quem cabe escrever sobre os demais além de si. Porquê desacreditar um formato? Pela sua vulgarização? Ora porra, não está mais do que valorizada a publicação de livros? A ideia de que a publicação de plaquettes se vulgarizou é tão válida como a de que agora só se publica porcaria (uma redundância, eu sei), a tentação de julgar uma obra pelo formato é simplesmente ridícula, sugerir que noutro tempo a publicação de folhetos acarretava um rigor que agora não existe é injusto e de um anacronismo patético. Sobre questões de intensidade não me pronuncio, não tenho como medi-las e em matéria de poesia não foi ainda inventada a figura do vídeo-árbitro. A quem se refere, então, DVP? Quem terá ele em mente quando alude a “pombos lerdos” e respectivos “dejectos”? Aos autores que o próprio publicou? Aos que não apreciam o seu estilo enfant terrible com péssimo gosto para camisas? É deste egocentrismo com agenda própria que devemos falar, desta mania de chamar atenções sobre si com flatulências direccionadas aos demais que não entrem no seu círculo. Enganador, sem tempo para reflectir, apressado e historicamente descontextualizado, Pinto configura a miséria jornaleira de dar por dar nas vistas adoptando a postura e o estilo daqueles que diz admirar mas de todo não compreende. Nem pode. A cada qual a vida que escolhe ou lhe sai pela culatra. Mais valia que tivesse ficado pelo Infenro a comentar política internacional. Vejamos se nas suas contas entram outros exemplos de pombos lerdos.
   Eduardo Quina (n. ?) publicou no ano passado “ausência” (Eufeme, Março de 2017), na colecção “Poetas da Eufeme”. A Eufeme é um magazine de poesia que vai no sexto número, trabalho esforçado de divulgação de autores portugueses e traduzidos. Publicações cuidadas, com arranjo gráfico equilibrado, à semelhança do que DVP fez com a revista “Criatura” já lá vão 10 anos. A diferença está numa reserva que DVP, encavalitando-se em figuras da Academia e estimulando polémicas parolas, permutou pelas parangonas do jornalismo cultural mais à mão. O resultado, claro está, é o interesse reduzido dos caciques. Em certa medida, “ausência” também responde a esse estado de coisas. A insistência na poesia vem-lhe de motivos desinteressados, empenhados na avaliação da meditação poética. Qual o lugar de Orpheu, do mytho, dos deuses, na poesia hodierna? A ausência dos deuses obriga a dúvida: «afinal, o que pode a arte / contra o tempo?» (p. 12) Eternos eles, de certa maneira, efémeros nós, de outra, insistimos no poema como alegoria de um “desastre ôntico” que é, afinal, o esvaziamento, o sangramento, de uma certa condição órfica votada à orfandade. Sobre o “sacrifício inútil da poesia” resta a consciência do isolamento, a despeito do esforço: «tenho as unhas sujas de escavar o esquecimento» (p. 25). Em busca de quê? De um resquício de sagrado? De um vestígio de humanidade no meio da barbárie? De uma flor que medre entre ruínas? Homens e deuses, afinal, são órfãos do mesmo destino: não há eternidade, apenas desmemória, esquecimento, ausência. E a poesia uma farsa. 31 páginas das quais não esperamos “grandes coisas”, apenas poesia.
   Erguida das cinzas da non nova sed nove, a volta d’mar tem na sua génese gente que já publicava folhetos ainda o DVP fazia xixi nas cuecas. Por aí começou, imagine-se, um José Luís Peixoto com “a pele branca do teu silêncio” (Março de 1997) o que não abona em favor dos editores, diga-se en passant, a fazer biquinho à francês. O que movia/move os nazarenos? O que os levava/leva à poesia? De onde surde a força, a vontade, a motivação para imprimir folhas rasuradas com poemas, dobrá-las e fazê-las circular numa vila piscatória do distrito de Leiria? Navegar com grandes naus nas águas de um chafariz? Enriquecimento ilícito? Preocupações com a porra do futuro? Sonhos húmidos com literatura? “Baralhar os horizontes”, por certo, “emaranhar-lhe as paisagens”, por certo, não de um qualquer leitor previamente concebido, mas de si mesmos. Porque nisto sempre houve a noção de que mais do que a figura abstracta do leitor importa a quem vê a palavra impressa libertá-la, fazendo disso acto de comunhão que pouco terá que ver com comunicação, história, eternidade. Do it yourself, é esse o espírito. De preferência contra o caciquismo da Kultura! Só isso explica que no catálogo da volta d’mar possam conviver escritores como Jaime Rocha, Carlos Alberto Machado, Amadeu Baptista, insuspeitos de não terem oferecido ao mundo obras volumosas, com outros, desconhecidos, como é o caso de Jorge Vicente (n. 1974). “noite que abre” (Junho de 2016) insinua uma fé no poema enquanto “génese do encontro”. É no poema que a luz e o amor adquirem sentido, e os versos de Vicente, denunciando a fragilidade do humano, oferecem às palavras uma autonomia que confunde e baralha a ordem estabelecida das coisas. O essencialismo desta poesia assume a linguagem enquanto corpo sexuado, tornando física a metafísica do poema: «dizem que a poesia é um modo / de chamar os homens, / de aspirar ao corpo, / de ser esse corpo, / de transformar esse corpo / em bruma de palavras» (p. 17). Mais um “a abandalhar o ambiente”.
   Esta deriva anti-folhetos de AG & DVP Lda inspira uma personagem com a cabeça cheia de piolhos que passa o tempo desassossegada com a desbaratização da sala de estar. Higienizado o couto, sai para a rua e depara-se com um cenário dominado por ratazanas. Volta para casa a coçar a cabeça cheia de piolhos e escreve um poema, como o outro, deveras danado com o mundo, mas satisfeitíssimo consigo próprio. A ideia do poeta soldado, tacticista, em teatro de guerra, tem nestas figuras os promotores de uma ideia de resistência, que, vai-se a ver, são meros agentes duplos, algo esquizóides no discurso e nas práticas, ao serviço do entretenimento. No fundo, soldadinhos de chumbo distraídos com o jogo da batalha naval. Contra a histeria belicista do discurso crítico, proponho “O túnel e o acordeom diário fóssil encontrado após a explosão” (2.ª edição, Novembro de 2013), de Júlia de Carvalho Hansen (n. 1984). É o volume 32 da bonita colecção da não (edições). Texto em prosa, ficciona o diário de alguém que escava à procura de um lugar honesto. Um lugar honesto. De inclinação absurda, enviando-nos a espaços para ambientes kafkianos, há nele homens que coçam: «Acredito nos homens. / Ficam parados coçando. / De repente assassinam alguém» (p. 9). Mas desta acção de escavar um túnel germina uma alegoria da procura, a personagem é ela própria o chão escavado, «O chão que cavo dentro do chão» (p. 13), metáfora do autoconhecimento que permite ao ser ligar-se, encontrar-se, ir ao encontro do outro. O túnel é uma ficção poética da maiêutica, pautada pela ironia de uma colisão do mesmo com a alteridade: «Não estou mais presa do que aqueles que acordam todos os dias e vão dormir todos os dias. O desconhecido é que é uma bela de uma puta, a do gabinete das luxúrias, que te faz tudo o que faz, então cobra um preço alto, que você nunca sabe bem, qual foi, qual é» (p. 23). Acerca de textos breves como este, enchem-se páginas de jornais sem contestação. Compreendemos o entusiasmo. É-nos estranha, pelo contrário, a atitude impaciente, quando não ordinária, para com o máximo que podemos retirar do mínimo. Chamemos-lhes plaquetas, folhetos ou cadernos, estes livros não se esgotam na pequena espessura do formato. Ridículo, palerma, ou maldoso é sugeri-lo.  
   A facilidade de impressão nos dias correntes veio tornar possível a proliferação de projectos editoriais, numa quantidade que não fere a putativa qualidade dos textos, sempre difícil de aferir, sujeita aos critérios subjectivos de quem leia. Bom ou mau, melhor ou pior, pequeno ou grande, deixamos ao cuidado dos interessados (interesseiros?) em pesar e medir. Os chamados tecnocratas da literatura. Por aqui celebra-se o fazer, a poiesis descomprometida, sem cálculo, espontânea, viva, autêntica por não buscar o novo de um modo intencional, como se o novo fosse alcançável, mas por da confusão permitir que algo de diverso possa ainda acontecer. Morta a poesia, que mais podemos ambicionar? A intensidade não tem ordens de medida, é fruto de circunstâncias históricas e pessoais. Ver mal na diversidade, na multiplicidade de vozes dispersadas, enfim, por recantos sempre obscuros, é de um pretensiosismo serôdio que não podemos deixar de denunciar. O que o mestre faz e discípulo copia toscamente é mais do mesmo, atrair atenções para os seus núcleos restritos e restritivos com a clara intenção de determinar tendências e impor discursos castradores da diversidade. Perdem tempo. Caberá no seu mundo selectivo, a dar ares de exigente, uma publicação como “Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir” (Edições 50kg, Abril de 2015), de Carlos Alberto Machado (n. 1954)? Os caracteres móveis e a zincogravura utilizados na capa garantirão à publicação algum grau de excepcionalidade que a livre de ser classificada como dejecto ou autocomplacência editorial? «sou um frágil guerreiro em combate / periga o meu último e descuidado pulmão / decomponho a ilusão em cenas breves / com um precário punhado de actores da noite / e eu com eles no esforço inglório de respirar / o ar que me falta por ti / e por mim voaria / em ave calibrada / sobre esta cidade / que é negra / negra» (p. 15). Escrito em 2011, o poema recoloca a questão do divino ao abandono. Já só com um pulmão de sobra, o poeta mergulha no cenário negro da noite e atravessa a cidade. Longe de ser a “cidade de deus”, longe de ser a “cidade ideal”, a cidade do poema confunde-se com a negrura dos seus habitantes. Poema da desolação, “Pôr as pernas do lado da cabeça e partir” sugere uma fuga interior que permita escapar de um exterior opressivo. Não será essa uma ou mesmo a função da poesia? Não sei. Sei que se agora perco tempo com tais matérias é tão-somente porque acima de qualquer sentença jornaleira, ao serviço da decrepitude cultural, coloco eu qualquer verso das publicações supracitadas.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

INTERVALO DOLOROSO


Gazeta das Caldas, n.º 5214, sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018.

(também aqui)

A CANTIGA É UMA ARMA


Na sequência de mais um atentado numa escola norte-americana, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (sublinhemo-lo sempre que necessário), veio, entre outras coisas, culpar o que outros já haviam culpado: a violência no cinema e nos games e certamente na produção musical. Não falou na violência nos livros, nem era suporto que falasse. Não lê, só twitta. Mas a novidade é outra. Trump sugeriu, como medida profilática contra estes massacres frequentes em escolas norte-americanas, que os professores andassem armados. Ficou aquém das expectativas, omitindo na sua lógica os auxiliares de acção educativa. E, já agora, a favor de uma escola inclusiva, os próprios encarregados de educação. Este homem sonha com uma sociedade armada até aos dentes. Inofensiva, claro. Já que a indústria de armamento nos Estados Unidos é tipo a produção de flores e plantas ornamentais em Portugal. O problema está, definitivamente, no cinema, na música, nos games.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

EM FEVEREIRO FOI ASSIM


Fotografias da Margarida Araújo.

   
Fotografias do Ricardo Aurélio.

E em Março, como será?

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

HOMO SAPIENS


   A minha colaboração para as Publicações & etc limitou-se a participar e ficcionar a partir de Homo Sapiens, «operação realizada por Alberto Pimenta» em 31 de julho de 1977 à tarde numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico de Lisboa.
   Homo Sapiens saiu nesse mesmo ano em edição com fotos do poeta sentado numa cadeira de pau ao lado de um banco branco, metálico, daqueles que sobem e descem sobre um eixo central e que lhe servia de mesa para livros e garrafa de vidro, fixando sem expressão os visitantes desprevenidos que paravam espantados, intrigados, diante do anónimo pobre diabo fechado numa jaula entre duas jaulas, cada uma ocupada por um dos seus moradores habituais, temíveis chimpanzés cada vez mais zangados porque ninguém lhes ligava, os mirones só olhavam algo que eles não viam, não entendiam e que por isso os irritava. Uma mulher assustada, temendo imoralidades, arrastou a filha para longe de ali, proibindo-a de olhar. O público em geral, pelo contrário, ao dar de caras com aquela cena, aproveitava a disponibilidade dominical para filosofar. Um casal não saía dali e demorava-se congeminando em voz alta:
   «É um macaco que sabe ler.»
   «É algum literato.»
   «Em todo o caso é maluco.»
   «É estrangeiro. Estão aí metidas nisso umas meninas estrangeiras.»
   «Assim já percebo.»
   "Meninas estrangeiras", ex-alunas e ainda admiradoras de um Alberto Pimenta leitor sui generis de português em Heidelberg, estavam na verdade "metidas nisso". Em dois blocos de notas, as meninas e eu anotámos observações dos mirones que viriam a aparecer no livro Homo Sapiens. O acontecimento, noticiado no parisiense Libération (Libé para os fiéis), serviu de base às reflexões de Alberto Pimenta e à minha pseudocientífica e parodicamente erudita homenagem ao «Relatório a uma Academia», de Kafka, ficção assombrosa em que um macaco, trazido de África numa jaula, decide aprender a beber aguardente, a escarrar, cuspir e fumar cachimbo como os homens para que o libertem da jaula. Na sua quase-humanidade é exibido em teatros de variedades e sociedades científicas, incluindo a Academia.

Almeida Faria, in & etc - Prolegómenos a uma editora {efémera, catálogo e bibliografia}, coordenação editorial de Paulo da Costa Domingos, Livraria Letra Livre, Biblioteca Nacional de Portugal, Fevereiro de 2017, pp. 49- 50.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A ESPREITAR A ORIGEM DO MUNDO

Halil Şerif Pasha (n. 1831 – m. 1879), Khalil Bey para os amigos, foi um diplomata turco nascido no Cairo, filho de militar emigrado no Egipto com poder económico suficiente para proporcionar aos filhos a melhor das educações. Iniciou a carreira diplomática em 1856, representando papel de relevo na Guerra da Crimeia que opôs o Império Russo a uma coligação do Império Otomano com a França, a Grã-Bretanha e o Reino da Sardenha. Embaixador em Atenas e São Petersburgo, onde começou a coleccionar arte, retirou-se para Paris em 1860. Na cidade de todos os vícios foi apresentado aos mais importantes artistas da época, dedicou-se ao jogo e reforçou a sua actividade de coleccionador de arte. Adquiriu várias obras de Delacroix, encomendou outras tantas a Courbet, Ingres, Rousseau, Daubigny… Antes de partir para Viena, em 1868, desfez-se de grande parte da sua colecção, mudando-se posteriormente para Constantinopla. Os últimos dias são incertos. Certo é que na colecção de Khalil Bey constavam algumas das mais escandalosas obras do seu tempo. Entre elas: Le Bain Turc (1862), de Jean-Auguste-Dominique Ingres (1780-1867).



50 anos tiveram de passar sobre a sua realização para que esta obra pudesse ser património nacional. O formato circular do quadro, reforçando a sinuosidade das figuras femininas, remete para o buraco de uma fechadura através da qual podemos espreitar diversos nus que Ingres pintou ao longo da carreira e que para aqui recuperou servindo uma encomenda do Príncipe Napoleão. O voyeurismo é uma das características mais evidentes da obra. A voluptuosidade destas mulheres, numa postura que sugere um bacanal lésbico — note-se como no lado direito da composição uma delas acaricia os seios da outra —, gerou escândalo quando a mulher do príncipe recusou peremptoriamente adquirir tal indecência. O Banho Turco regressou às mãos de Ingres, então reputadíssimo artista na casa dos 80. Khalil Bey adquiriu o quadro posteriormente, juntando-o a outras obras que compunham a sua vasta e célebre colecção de arte erótica.



Outro quadro dessa colecção, mais afamado do que a obra de Ingres, era A Origem do Mundo (1866). Ninguém sabe ao certo como surgiu tal nome. Anos a fio afastado do olhar do público, o quadro teve uma existência clandestina que conheceu apenas as mãos do autor e do homem que a encomendou: o turco Khalil Bey. Poucos tiveram acesso à pintura, até depois de Bey se desfazer da colecção. Os nazis queriam destruir A Origem do Mundo, os soviéticos acharam por bem conservá-la. Acabou por ir parar às mãos do psicanalista Jacques Lacan. Mesmo Lacan manteve o quadro escondido durante anos. Hoje, a vulva pintada por Courbet, que há não muito provocou escândalo lá para as bandas de Braga, pode ser devidamente apreciada no Museu d’Orsay. Há quem diga que se trata apenas do pormenor de uma obra maior à qual cortaram a cabeça, não sendo de afiançar que com cabeça pudesse o corpo desta mulher causar menos escândalo. Amigo de Proudhon, simpatizante do socialismo anarquista, Courbet é hoje considerado pelos historiadores o principal representante do realismo democrático. Não admira a posição dos russos perante tão insuspeito representante do realismo socialista.




O diplomata turco que coleccionava estas pérolas aparece poucas vezes citado nos livros de arte. Justiça lhe seja feita.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

VEDAÇÕES


Aproveitei dois deprimentes dias folga para me afundar no sofá a ver filmes. Entre o Centurião (2010), que me apeteceu ver por causa de Michael Fassbender, e o intragável Ben-Hur (2016) de um tal Timur Bekmambetov, passando por Killing Season – Temporada de Caça (2013), com Robert De Niro e John Travolta à pancada, foi muito o sangue, muita a carne decepada, muitos os corpos mutilados que me passaram pela frente. Safou-se Fences/Vedações (2016), dirigido e interpretado por Denzel Washington, com argumento baseado num drama de August Wilson. Vê-se como quem assiste a uma peça de teatro. E não fossem os tiques exagerados de Washington, tanto na representação como na encenação melodramática do remate, teríamos um filme para mais tarde recordar. Ainda assim, Troy Maxson é uma personagem marcante. Carrega a cruz doméstica justificando-se com um passado que poderia ter-lhe reservado presente bem pior, não fosse a mulher que o conservou e cristalizou na decência da família. Que a tenha traído para se sentir ele próprio, pode não ser aceitável à luz de uma moral castradora a que nos conformamos facilmente. Mas é, pelo menos, compreensível no pântano de frustrações que é a sua vida. É como se a infidelidade lhe tivesse aberto uma janela de liberdade, permitindo-lhe respirar para lá do sufoco quotidiano, monótono, rotineiro, forçado pelas regras da dignidade. Gosto de personagens desviantes, sobretudo quando acabam sós. É o preço a pagar, naturalmente, pelo encontro com uma liberdade ao que parece inconciliável com a vida doméstica. Sem ter sangue nem corpos esventrados, Fences também tem os seus efeitos especiais. E não me refiro ao céu que no final é rasgado pelo sopro do anjo Gabriel, irmão de Troy. Penso, antes, na consciência mutilada pelas circunstâncias de cada uma das personagens, no passado que os esventra obstruindo-lhes o futuro sonhado, desejado, ambicionado. Pior que cumprir uma pena em clausura, só mesmo sentir-se preso sem crime cometido.

A CASA DA ARANHA


Quando Paul Bowles se fixou em Tanger, no ano de 1947 (n. 1910 – m. 1999), não deixou para trás apenas uma infância marcada pela austeridade paterna. A primeira viagem a Marrocos dera-se em 1931, por sugestão de Gertrude Stein. Em 1937, Bowles já granjeara reputação como compositor. O encontro com Tristan Tzara, na Paris de 1929, abrira-lhe as portas de um mundo muito mais desprendido do que aquele que conhecera na América natal. Daqui trouxe os primeiros estudos de literatura e de música, desenvolvidos posteriormente ao serviço das experiências dadaístas levadas a cabo por um Kurt Schwitters. Mas foi na Europa, e depois em Marrocos, que cresceu e se afirmou tanto como músico como enquanto escritor. Sobre o casamento com a dramaturga Jane Auer, em 1938, e a mudança definitiva para Tanger, quase dez anos depois, já muito se especulou. Quem estiver interessado em detalhes biográficos poderá procurá-los nas “Memórias de um Nómada” (Assírio & Alvim, Março de 2007) ou em “Viagens” (Quetzal, Julho de 2013). Na ficção encontrará tanto de biografia como de imaginação, o que não é despiciendo tendo em conta que o romance de estreia, “O Céu que nos Protege” (Quetzal, Julho de 2017), foi inicialmente recusado por não ser considerado romance. Seguiu-se “Deixa a Chuva Cair” (Assírio & Alvim, Março de 2007), também passado em Tanger, e “A Casa da Aranha” (Quetzal, Julho de 2014), desta feita com a cidade de Fez em pano de fundo.
Concluído em 1955, “A Casa da Aranha” acompanha muito de perto a actividade do Partido Istiqlal no momento mais crítico da independência de Marrocos (ocorrida, precisamente, em Março de 1956). A Fez do romance é uma cidade sob pressão, devastada tanto fisicamente como pela desconfiança gerada entre os seus habitantes. O ambiente é de conspiração e de dúvida, de suspeição e de medo. Aos cenários de destruição próprios de um conflito político descambado para a violência junta-se a paisagem miserável de um povo colonizado, explorado e maltratado pela potência colonial. É desse núcleo desprezado, violentado, ferido no seu orgulho e na sua cultura, que surde Amar. Com apenas 15 anos, este jovem marroquino deambula pela cidade em busca de trabalho, é severamente açoitado pelo pai, fecha-se em conjecturas acerca das injustiças do mundo e vive enclausurado numa solidão que não lhe fere o orgulho, mas alimenta preconceitos acerca dos outros, sobretudo desses outros que são ricos, poderosos, estrangeiros na língua e nos costumes. Amar tem um irmão e uma irmã, tem um pai e uma mãe, mas é quase como se não tivesse. Sente-se distante e desenraizado, o Islão, recebido de um modo informal num jovem analfabeto, é para ele uma espécie de modelo a partir do qual se permite avaliar a vida, a existência, as acções, o mundo:

«Tal como a maioria dos rapazes e dos homens novos que haviam nascido em Fez desde que os franceses tinham instalado a sua Fez rival a poucos quilómetros do exterior das muralhas, Amar nunca adquirira o hábito de ir a uma mesquita e de orar. Para todos, a não ser os mais abastados, a vida tornara-se um assunto anárquico, uma barafunda, com as pessoas a deixarem as suas famílias e a irem trabalhar para outras cidades, ou a alistarem-se no exército, onde tinham a certeza de que teriam de comer» (p.97).

É neste cenário de degenerescência cultural que Paul Bowles coloca a origem de um ódio à potência colonizadora, o qual, alimentado pelo calculismo do fanatismo religioso, manipula os corações dos homens dispondo-os uns contra os outros. No entanto, a perspectiva do romance não é justificativa, nem parcial, nem unívoca. O encontro fortuito de Amar tanto com os membros do Istiqlal como com o escritor norte-americano John Stenham, e a bela e aventureira Polly Burroughs, beneficiarão um esclarecimento íntimo quanto às reais motivações do ser humano. “A Casa da Aranha” acolhe as fragilidades e as contradições da acção humana quando pensada colectivamente. Ali e acolá as dúvidas operam o desconforto: o que é maior, o sultão ou o islamismo, o Istiqlal ou Alá, a política é mais importante do que a religião? Maior que todos, a vida humana. John Stenham e Polly Burroughs, aka Madame Lee Veyron, são, de certo modo, o reforço desta desacreditação do político e do religioso perante o desassossego da natureza humana. O que ele representa de reflexivo, ela apresenta pela acção. Não tomando partido por nenhuma das partes, são tão críticos da implacável ocupação francesa como dos métodos do Istiqlal (que, a páginas tantas, Stenham, dissidente comunista, compara aos métodos do marxismo-leninismo).
Do caos exterior à pacificação interior, é este o movimento proposto pelo romance de Paul Bowles. Quando, fugindo dos motins e da histeria em Fez, a apreensão dos turistas toma conta de Polly Burroughs, John Stenham diz-lhe que estará onde estão os nativos. Nativos, não marroquinos, não muçulmanos. Simplesmente nativos. Para onde ir? E seguem, na companhia de Amar e de um amigo, para Sidi bou Chta. O que há nesse lugar? Um festival étnico, resquício derradeiro das origens ameaçadas. Durante a viagem de autocarro, Polly olha os passageiros e pensa:

«O que ela achava surpreendente a respeito destas pessoas era a impressão de limpeza que lhe davam. Não eram apenas os corpos e roupas delas que pareciam limpos (o interior do autocarro cheirava a roupa lavada secando ao sol); era outro tanto as expressões nos seus rostos, a aura do seu espírito colectivo; faziam-na pensar na pureza dos riachos de montanha, nas regiões intocadas» (p. 385)

As irmandades Aïssaoua, Haddaoua, Jilala, Hamacha, Derqaoua, Guennaoua, reúnem-se no festival de Sidi bou Chta para celebrarem a cultura. Aquele é um lugar de encontro com o passado num país onde apenas o presente parece contar. Os tambores e as danças lembram a existência de um outro mundo, com necessidades e padrões que transcendem os ditames da política e a doutrina religiosa. Lugar de encontro ontológico, portanto, na raiz de uma comunhão que deixou de ser regida pelo lucro individual. Poderá haver um lugar assim? Serão capazes de viver as pessoas num lugar sem lucro nem proveito? A impressão de limpeza, como a pureza dos riachos de montanha, contrasta fortemente com a paisagem miserável outrora descrita de «habitações, feitas com caixotes de embalagem, arbustos espinhosos e latas de óleo, amarrados uns aos outros com cordas e tiras de trapos» (p. 309).Este é o lugar da civilização, frágil como a teia de aranha. O da cultura é outro, limpo e puro como riachos de montanha.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PERCURSOS EXEMPLARES

   — Você não acha que poderia ajudar a nossa esforçada amizade se me tratasse por John, em vez de senhor Stenham?
   — Poderia — admitiu ela. — Vou tentar lembrar-me. Também vou tentar lembrar-me de que você é um romântico incorrigível, sem uma réstia de confiança na raça humana. — Ela estava olhando para ele fixamente, e ele ressentiu-se da profunda sensação de intranquilidade que a expressão dela conseguia despertar em si.
   — Você é uma rapariga esperta — disse ele com ironia.
   — Você faz-me lembrar muito um amigo meu — prosseguiu ela, olhando-o ainda. — Um rapaz bastante simpático, mas todo amarrado pelas suas próprias teorias acerca da vida. Você até se parece um pouco com ele, juro! Ele também escrevia muito boa poesia. Pelo menos parecia razoável até uma pessoa lhe dedicar algum tempo e de repente perguntar a si mesma o que significava ela.
   — Eu não sou um poeta. — A voz dele foi azeda, mas sorriu-lhe.
   Ela continuou, inacessível.
   — E eu aposto que as suas histórias de vida têm muito em comum. Alguma vez aderiu ao Partido Comunista? Ele fê-lo; costumava vestir uma roupa especial e ir postar-se às esquinas a vender o Daily Worker. Mais tarde dedicou-se ao ioga, e na última vez que eu soube dele tinha-se tornado católico romano. Isso não o impediu, porém, de passar a ser um alcoólico.

Paul Bowles, in A Casa da Aranha, trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Julho de 2014, pp. 303-304.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

UM POEMA DE W. H. AUDEN


Sob um abjecto salgueiro

Sob um abjecto salgueiro,
   Ó amante, não amues mais:
Aos pensamentos devem seguir-se os actos.
   Para que serve pensar?
A situação invulgar e triste em que estás
   Prova a tua frialdade.
   Ergue-te a dobra
O teu mapa de desolação.

Os sinos que ressoam pelos prados
   A partir da sombria torre
Dobram por estas sombras sem amor
   Que ele não reclama.
Tudo aquilo que vive deve amar; para quê
   Curvar-se ainda perante a derrota
   Com os braços cruzados?
Ataca e conquistarás.

Os gansos em bandos que sobre ti voam
   Conhecem o seu caminho,
Os arroios gelados que sob ti correm
   Vão para o seu oceano.
Sombria e triste é a tua loucura:
   Caminha então, vem,
   Não mais entorpecido
Ao encontro do teu próprio prazer.

Março, 1936


W. H. Auden (n. 21 de Fevereiro de 1907, York, Reino Unido - m. 29 de Setembro de 1973, Viena, Áustria), in Diz-me a Verdade Acerca do Amor - dez poemas, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D'Água, 1994, p. 15. Mais sobre Auden: aqui.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

CAMPEÕES EUROPEUS DE FUTSAL


Venham daí mais comendadores. 

CAFÉ BERKANE

Soube exatamente qual a mesa que queria. Estava atrás da porta, ao lado da janela, isolada. Muitas vezes ele viera até aqui quando não estava a trabalhar e ficara sentado uma tarde inteira, embalado pelo estridor e a música vindos das outras salas num estádio de vago êxtase, enquanto contemplava o pequeno lençol de água do lado de fora da janela. Era aquele feliz estado de espírito em que o povo dele se conseguia projetar tão facilmente — a mera ausência de preocupações desagradáveis e imediatas poderia iniciá-lo, e uma paisagem que incluísse o mar, um rio, uma fonte, ou qualquer coisa que ocupasse o olho sem envolver o espírito, dava azo a sustentá-lo. Era o mundo por detrás do mundo, onde a reflexão evita a necessidade de ação, e a calma que todas as coisas procuram na morte aparece brevemente na forma de contentamento, o espírito por fim persuadido de que as águas calmas da perfeição são alcançáveis. Os pormenores da vida mercantil e as considerações financeiras pessoais que são disparadas como foguetes através dos escuros céus deste cosmos interior servem apenas para lhe dar escala e para lhe enfatizar a vastidão, sem de modo algum perturbarem a sua suprema tranquilidade.


Paul Bowles, in A Casa da Aranha, trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Julho de 2014, pp. 178-179.