segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

#106



Abdiquemos do nome por detrás do rosto. As rugas, os sinais, os cabelos brancos, as olheiras, os olhos embaciados, perscrutadores, indiciam a passagem do tempo. O rosto de um homem por quem o tempo passou deixando marcas inevitáveis. De certo modo, é como se nos víssemos ao espelho com algumas décadas de atraso. Que esperar deste homem? Que nos conte histórias, que partilhe experiências, até exortações, sem que ceda à tentação de fechar-se no passado como se aí tivesse ficado o que de melhor há no mundo. Então esperamos também que mostre a sabedoria dos melhores escultores, percebendo o que há no hoje que se diferencia do ontem. Não para que se adapte cinicamente às circunstâncias, ou se acomode, mas para que possamos continuar a acreditar nas vantagens de haver amanhã. Sérgio Godinho é entre os nossos escritores de canções aquele que melhor soube acompanhar a mudança dos tempos, rodeando-se de músicos mais novos sem colocar no prego a sua identidade. Nação Valente (2018) repercute tal saber. Mesmo quando resvala para o "clássico", oferece algo de refrescante. Nota-se isso em duas excelentes canções deste álbum: Mariana Pais, 21 Anos, com música de José Mário Branco e um belíssimo arranjo para cordas de Filipe Melo, e Tipo Contrafacção, desta feita com Filipe Melo a assinar o arranjo para sopros, divertimento jazzy, e Nuno Rafael rubricando a composição. E desta apetece citar a última estrofe: «Disse: o nosso amor / Era de paixão / Prazer e razão / Era sempre agora / E agora é contrafacção / Tipo Tipo / Tipo contrafacção». Também noutras canções o amor já era… Artesanato, contrito, azedado. E talvez essa seja uma das marcas mais fortes de Nação Valente, o amor traído pela banalidade dos dias, pelo quotidiano torturador de Noite e Dia (filha da puta de canção). Mas entre Grão da mesma mó e Até já, até já não se intromete nenhuma espécie de fatalismo, os lamentos não são determinações. São dez canções que incitam, logo à abrir, a decidir por uma das opções: «Fazes que fazes / Ou pões sementes a crescer?» Há um optimismo nas canções de Godinho que me agrada, solução final para dores e frustrações, boa companhia com olhos postos no horizonte, sem fatalismos nem destino pré-determinado, um optimismo que estimula, exorta, impele à construção de algo positivo, afirmativo, vivo, num mundo estreito com a consciência de ser única a vida que se tem. Valeu:


1 comentário:

maria disse...

ouvi, quase nada, mas esta é uma boa onda, sim.