Abdiquemos do nome por detrás do rosto. As rugas, os
sinais, os cabelos brancos, as olheiras, os olhos embaciados, perscrutadores,
indiciam a passagem do tempo. O rosto de um homem por quem o tempo passou
deixando marcas inevitáveis. De certo modo, é como se nos víssemos ao espelho
com algumas décadas de atraso. Que esperar deste homem? Que nos conte
histórias, que partilhe experiências, até exortações, sem que ceda à tentação
de fechar-se no passado como se aí tivesse ficado o que de melhor há no mundo.
Então esperamos também que mostre a sabedoria dos melhores escultores,
percebendo o que há no hoje que se diferencia do ontem. Não para que se adapte
cinicamente às circunstâncias, ou se acomode, mas para que possamos continuar a
acreditar nas vantagens de haver amanhã. Sérgio Godinho é entre os nossos escritores
de canções aquele que melhor soube acompanhar a mudança dos tempos, rodeando-se
de músicos mais novos sem colocar no prego a sua identidade. Nação Valente
(2018) repercute tal saber. Mesmo quando resvala para o "clássico", oferece algo
de refrescante. Nota-se isso em duas excelentes canções deste álbum: Mariana
Pais, 21 Anos, com música de José Mário Branco e um belíssimo arranjo para
cordas de Filipe Melo, e Tipo Contrafacção, desta feita com Filipe Melo a
assinar o arranjo para sopros, divertimento jazzy, e Nuno Rafael rubricando a
composição. E desta apetece citar a última estrofe: «Disse: o nosso amor / Era de
paixão / Prazer e razão / Era sempre agora / E agora é contrafacção / Tipo Tipo
/ Tipo contrafacção». Também noutras canções o amor já era… Artesanato, contrito,
azedado. E talvez essa seja uma das marcas mais fortes de Nação Valente, o amor
traído pela banalidade dos dias, pelo quotidiano torturador de Noite e Dia
(filha da puta de canção). Mas entre Grão da mesma mó e Até já, até já não se intromete
nenhuma espécie de fatalismo, os lamentos não são determinações. São dez
canções que incitam, logo à abrir, a decidir por uma das opções: «Fazes que
fazes / Ou pões sementes a crescer?» Há um optimismo nas canções de Godinho que
me agrada, solução final para dores e frustrações, boa companhia com olhos postos
no horizonte, sem fatalismos nem destino pré-determinado, um optimismo que estimula,
exorta, impele à construção de algo positivo, afirmativo, vivo, num mundo estreito com a
consciência de ser única a vida que se tem. Valeu:

1 comentário:
ouvi, quase nada, mas esta é uma boa onda, sim.
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