terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

UM POEMA DE AUTOR ANÓNIMO


Vivo muito assediado pelos «prováveis
do acontecimento» mas tenho os hábitos
todos: apetece-me sempre fumar, beber também,
não faço estafetas e, apesar do ginásio,
bem se podem virar que a confessionalidade
não é o que parece. Assusto-me se falam
de coisas banais. Tenho tensão alta, colestrol
em desequilíbrio, ansiedade e suores frios
se me falta o Ar, por distracção. Eu, só,
constituo um grupo de risco. Morrer
não quero. Morrer espreita-me nas letras
dos livros que Ele começava ao contrário,
rindo tanto dos outros e mais de mim,
que O leio, de vez em quando, por respeito.
Não sei, pois, se hei-de ler: Dá azar
amealhar páginas e discursos, metáforas
e traços, truques para nos enganar.
Não sei, pois, se hei-de escrever: Dá azar
que se planifique a obra, se antecipe
o livro. E há-de ficar a meio? Claro que receio
a morte e fico mais sossegado
se o digo. Dead can dance.

Anónimo, in Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas, frenesi, Março de 1998, p. 58.

3 comentários:

manuel a. domingos disse...

Esse livro é muito bom.

hmbf disse...

Então talvez aprecies estes: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2017/11/tres-livros-tres-autores.html . ;-)

manuel a. domingos disse...

:-D ;-)