quarta-feira, 28 de março de 2018

DIA MUNDIAL DO TEATRO



Não sei se há razões para celebrar este Dia Mundial do Teatro. Nem se haverá razões para celebrar um dia nacional do teatro. (…)O facto de não haver razões globais nem razões nacionais — o estado do mundo é mau, o estado do nosso teatro miserável — tornam a celebração mais significativa como luta: festa e luta coincidem. / Haverá razões para celebrar o teatro, a sua vida? Sim, na perspectiva de sempre: vou ao teatro ver a vida para melhor a entender e poder observar-me a mim e aos outros, em cena, movendo-me entre as “muitas maneiras de enganos” de que se compõe. O teatro é um antídoto esclarecido para a vida imposta pelo mercado, uma escola acerca do todo e do tudo, para todos. E de nível superior universal, sendo teatro. Isso pressupõe que a democracia seja avançada como projecto de governação, culta, que nela o debate acerca dos seus destinos e os modos da sua governação sejam qualificados, não o caos entrópico em que submergimos — podíamos e podemos ajudar a isso. Nem com um periscópio com uma lupa Hubble, iluminada, racional, nos safamos pelo modo como o mundo e o país caminham, a quantidade de lixo informativo, publicitário, “cultural”, a negatividade dos acontecimentos reais, sufoca todos e preenche os canais de comunicação. / (…)Isso implica conceber uma democracia cultural. O que não temos. O teatro, sendo um serviço público geral e universal, merecia hoje estar a celebrar o seu dia com outra liberdade de perspectivas e existência real. Para isso teria de estar entrosado com uma democracia culta e adulta como se diz aí num ecrã. Mas não, somos de facto, à excepção das grandes estruturas — deveriam existir muitas mais, médias e grandes, outras, cobrindo o território e as suas demografias assimétricas —, favelizados, marginalizados e a nossa arte é esmagada nas suas potencialidades. O teatro é grego, o espectáculo é romano.
Fernando Mora Ramos, aqui.

Nota: na imagem ao alto, Miguel Rovisco. “Foi premiado em 1987 como o melhor dramaturgo português. Recusou o dinheiro, protestou de corda ao pescoço e suicidou-se aos 27 anos.” A história toda: aqui.

terça-feira, 27 de março de 2018

AUSENTES-PRESENTES


Apercebo-me da composição numa peça de Carlos Alberto Machado (n. 1954) intitulada 5 Cervejas Para Virgílio (& etc, Junho de 2009), diálogo a 5 tempos com a obra e a pessoa de Virgílio Martinho (n. 1928 – m. 1994). Apresentado como pertencente «ao agrupamento surrealista-abjeccionista», Martinho surge na História da Literatura Portuguesa enquanto autor de «peças de alegoria concentracionária». Na obra de Machado ele mesmo pode ser entendido como um ausente-presente, condição dúplice para quem mantenha inscrita na memória certa forma de estar e ser. A voz do narrador alterna com a sua própria voz (imaginária? reproduzida?), enquanto outras figuras desfilam no diálogo como peças de um puzzle narrativo onde várias identidades se justapõem. Talvez não seja exacto considerar dúplice a condição do ausente-presente. A agregação dos opostos apaga essa duplicidade, torna uno o que era duplo. O estar presente estando ausente será antes a condição misteriosa da voz que ecoa pela memória, nos textos, num espaço/tempo próprio e singular. Talvez por isso Carlos Alberto Machado dê o nome de tempos ao que poderíamos dar o nome de actos. Num primeiro tempo, as memórias de infância, o pai, a mãe, a experiência de uma paixão exorcismada e a sentença marcante do escritor: «E quando as palavras enfraquecerem dentro de nós haveremos de morrer de morte definitiva» (p. 11). Será errado antever aqui uma declarada confiança na força vitalizante das palavras? A palavra é o corpo do ausente-presente, a palavra feita imagem, resquício de voz no imo da memória, pensamento que resiste ao estômago do tempo, o esquecimento. Sofia, a prostituta, pela ironia do nome poderá também ser entendida como uma alegoria do saber:
SOFIA Olhas-me como se eu fosse morrer!
VIRGÍLIO E não vais?
Esta consciência irredimível da morte é o campo de batalha de todo pensamento, terreno a partir do qual surdem e no qual tombam crenças, máximas, teses, teorias, teoremas. Não é assim desde sempre? Já noutra peça do autor o problema de colocava. Em Restos. Interiores. (Edição do autor, Dezembro de 2002) três mulheres enlutadas recordam os amantes desaparecidos. «Agora é preciso esquecer, esquecer-te» (p. 8), diz a primeira. «Vou cortar os meus cabelos. Uma parte deles irá com o teu corpo em busca da eternidade» (p. 12), diz a segunda. «Dar um nome às coisas é criá-las. Preciso de dar-lhes um nome para sentir que aconteceu alguma coisa. Uma verdade» (p. 14), diz a terceira. Debatendo-se com a memória, desesperando de eternidade, protegendo o ser num nome, o luto destas mulheres presentifica a ausência, recupera para um estado porventura fantasmagórico, mas vivo, o ser daqueles a quem a morte provocou separação sem determinar ausência. Os mortos permanecem no interior dos vivos. Alguém se ausenta porque morre ou se distancia, de certo modo nós próprios nos ausentamos de nós com o passar dos anos. O que é a memória da infância perdida senão uma prova dessa ausência, desse processo de ausentar-se de si mesmo? Mas a morte, a distância, o passado, não delimitam o corpo do ser. Os presos de 5 Cervejas Para o Virgílio indicam outra forma de ausência: «Da rua vem silêncio. Como se a cidade dormisse ou se tivesse ausentado» (p. 29). Há uma diferença entre a aparência (como se) e a realidade, uma diferença ténue para quem, como os presos, esteja separado pela força dessa cidade que se imagina na clausura de uma cela. Caso apreciássemos metafísica, podíamos estabelecer aqui um paralelo entre a cela e o corpo. O corpo é a cela que nos separa do outro, que torna o outro ausente. Mas a palavra recoloca-nos em presença de, a palavra tem esse poder de tornar ausente-presente o que, de outro modo, seria tão-somente perda. Como não apreciamos metafísica, sentimo-nos mais tentados a estabelecer uma relação entre palavra e corpo. O próprio corpo é uma palavra que, para todos os efeitos, se forma no interior do corpo. É também esta a condição do militante resistente, escondido, exilado, isolado, como a palavra corpo no interior do corpo.
No prefácio a Aquitanta (Edição do autor, Fevereiro de 2003), Manuel de Freitas (n. 1972) sublinhou com pertinência esta relação: «Aquitanta, breve “monólogo teatral” de Carlos Alberto Machado, confronta-nos implacavelmente com esse estranho limite em que corpo(s) e palavra(s) se indistinguem no luto provisório de um palco» (p. 5). Nesse drama-poema (poema dramático?) a mulher que fala/pensa/recorda mantém uma relação de proximidade com o seu interlocutor ausente-presente. E diz: «O esquecimento é a verdadeira morte» (p. 10). Tal como nas outras peças agora convocadas, esta ideia da memória como elemento que dá vida pode ser pensada por oposição ao esquecimento como princípio da «morte definitiva». A determinada altura, a mulher que fala em Aquitanta recorda a mãe: «Só sentias a sua presença invisível. Mesmo distante esteve sempre entre nós» (p. 15). Novamente a ausência-presença é uma marca que fortalece nas personagens situações de desamparo e de solidão. Porque, apesar de serem vivas as palavras incorporadas na memória, ou, talvez, a memória de palavras, faltam-lhes membros. O corpo imaterial de que são feitas está incompleto. O toque não é corpo a corpo, o cheiro deixa de ser um estímulo para passar a ser um esforço da imaginação, a matéria como que se dissolve numa substância que o tempo se encarregará de deformar. «A verdade? Talvez os mortos a saibam…», diz Virgílio. Ao mesmo tempo que insiste numa condição última que, afinal, é a daquele que escreve: «inventar a porra da vida». Que outra coisa será o teatro senão tornar ausente-presente a vida num palco onde possa esta ser representada?  

segunda-feira, 26 de março de 2018

“PORTUGAL É DOS PORTUGUESES”


Não pense que sou xenófobo ou racista, não há nas minhas palavras um mínimo sequer de nacionalismo. Puta que pariu essa gente. Só que Portugal tornou-se insuportável para um português. Há dez anos que não me mexem no salário. De ano para ano, às vezes de mês para mês, tudo aumenta. Menos o salário. Um tipo enche o depósito do carro e fica a tremer. As rendas das casas atiram-nos para a rua ou para a periferia ou para a periferia da periferia, com os custos que isso acarreta em transportes. Expulsam-nos do centro das nossas cidades. Isto faz sentido? Você quer ir com a família a um restaurante e fica com dores no estômago só de pensar no estrago que vai fazer. Não sei se hipotecámos o país ou se o vendemos, sei que isto já não é nosso. Não é para nós. Percebo o turismo, compreendo o investimento nessa indústria dos mares, flutuante e provisória, mas nada disso justifica que estejamos a dar cabo da vida dos nossos, roubando-lhes o que é deles, tudo em nome de uns gananciosos que acham que daqui a uns anos os estrangeiros vão adorar ver-se a si próprios nas esplanadas. Qual é o português que pode sentar-se hoje numa esplanada num qualquer centro histórico a beber um café e uma água? Só se for maluco ou ladrão. Você não acha isto um pesadelo? Qualquer dia, vai ver, começam a cobrar-nos entrada nas praças públicas. Nas praças públicas…

UM POEMA DE CARLOS ALBERTO MACHADO

[tomei a decisão de não morrer]

Tomei a decisão de não morrer
pelo menos até ao final do ano
não quero aumentar as dívidas
que deixarei aos meus herdeiros
por desembolsarem mais dinheiro
com o meu funeral tudo incluído
causado pelo imprevisto aumento
imposto pela concorrência americana
muito ao contrário do expectável
portanto decidi não morrer por agora
e esperar por outras consequências
do funcionamento invisível do mercado
que morte em conta agora só no alto mar
coisa que por aqui no meu bairro não há.


Carlos Alberto Machado (n. 1954), in Uma Viagem Românica a Moscovo, 3.ª edição revista com uma sequência inédita, Setembro de 2017, p. 41.

domingo, 25 de março de 2018

DIZ-ME QUEM COMES, DIR-TE-EI QUEM ÉS


A ver se encontro hoje para almoço um peixinho muito cool e groovy e cheio de swing. 

ÁGORA, A RUA, AGRURA, A GRUA




   Antes de me dirigir à Malaposta para mais uma leitura integral de A Grua, passei pelo Jardim da Parada, em Campo de Ourique, onde decorre uma Feira do Livro de Poesia. Trouxe livros da Averno, da Douda Correria, da não (edições), da Livraria Snob, da Pianola, da Mariposa Azual. Hoje, pelas 17h, a Margarida Vale de Gato estará por perto a apresentar Mulher ao Mar e Grinalda (Mariposa Azual, Março de 2018). É na Casa Fernando Pessoa. 
   Lido A Grua, depois de meia dúzia de palavras trocadas com amigos, durante o jantar olhava para as minhas filhas e pensava no futuro. Será que quando elas tiverem 20, 30, 40 anos ainda haverá malucos a publicar poesia? São indispensáveis grandes doses de obstinação, resistência, perseverança, “amadorismo”, para publicar poesia onde há tanto quem a escreva e tão poucos que a leiam. Os eventos sucedem-se, as comemorações, os lançamentos fazem-se, mas os livros circulam ao ritmo do caracol. A indiferença e o descaso genéricos só não derrotam definitivamente os poemas por haver neste mundo excepções com crostas impermeáveis ao ferrão venenoso da regra. 
   Mas depois lembrei-me desta história que aconteceu com Thoreau e das palavras de Gualter Cunha na introdução a A Terra Devastada, de T. S. Eliot: «Prufrock and Other Observations, em 1917, numa edição de quinhentos exemplares que demoraria cinco anos a esgotar». Foi há um século. 
   Portanto, sobrando ainda umas dezenas de exemplares de A Grua não me resta senão persistir no convite a um e-mail para voltadmar@gmail.com. É simples, basta dizerem ao que vão e o maluco do editor encarregar-se-á de dar resposta às vossas solicitações. Seria interessante ver o livro esgotado em menos de cinco anos. Seria mesmo muito deveras assaz interessante.

sábado, 24 de março de 2018

MORRER DEVAGAR


No ano de 1979, José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) já havia publicado o ensaio Linguagem e Criação (Assírio & Alvim, 1973), com que se estreou, o livro de poesia Feldegato Cantabile (Paisagem, 1973), as narrativas de Katafaraum É Uma Nação (Assírio & Alvim, 1974). Para trás tinha também ficado a colaboração com Fernando Ribeiro de Mello nas Edições Afrodite, onde publicou os romances Lugar de Massacre (1975) e A Fome (1977), assim como os contos de Alecrim, Alecrim aos Molhos (1974) e Revolucionários e Querubins (1977). Morrer Devagar (Arcáfia, 1979) surgiu numa fase de plena maturidade criativa, no ano em que partiu para os EUA na categoria de professor visitante da Brown University (Providence). Um visiting scholarship, como agora se diz até de quem nunca o foi.
Os contos de Morrer Devagar (Companhia das Ilhas, Dezembro de 2017) abarcam um largo período, facilmente identificável na biografia do autor: raízes açorianas, experiência militar na Guiné, emigração. Talvez seja esta a marca mais forte destes contos, por neles sobressair a condição de exilado que terá tanto que ver com certa condição de isolamento geográfico e pessoal como com a relação de desconforto mantida com o seu tempo no seu mundo. A maior parte destes 22 contos (o conto intitulado Justiça, da página 139, escapou ao índice) remete para a paisagem insular açoriana. Nascido no Pico, Martins Garcia jamais prescindiu desse legado biográfico que tanta matéria vivida ofereceu à matéria literária. Mesmo quando resvala para um surrealismo aparentemente sem território (leia-se O Vómito), ele deixa vir à tona as componentes de uma mitologia localizável na tradição de um Portugal rural entregue a si mesmo, isto é, aos costumes, às lendas, aos hábitos, às crenças, aos estereótipos, aos preconceitos que dão forma e deformam a vida comunitária.
No centro dessa amálgama social, o poder determinante da Igreja e o poder subserviente do Estado. Subserviente, claro está, à Igreja: «Deus fizera o homem à sua imagem e semelhança, mas isso fora no começo do mundo. Com o andar dos tempos, a degradação acentuara-se tanto que, da primitiva semelhança, nada restava ao macaco moderno» (p. 178). É, portanto, um Portugal atrasado e miserável aquele que se nos apresenta, retrógrado nos valores e, por natural consequência, nos hábitos. O peso da tradição sufoca a liberdade, os doutores manifestam um saudosismo que a ralé desconhece, por nela não haver saudades senão de um futuro capaz de ser sonhado quando o destino não o barra fatalmente: «Éramos cruéis e pobres, duma pobreza cruel, e mentirosos» (p. 27). Nas memórias da infância confundem-se o abjecto e o picaresco, «homens paralisados de medo» e outros desafiadores da ordem, conflitos violentos, cenas de pancadaria, mexericos, maledicência, o diabo à solta em machos assaltados pelos feitiços de fêmeas infernizadas, o sexo, a bebedeira, a tirania da opinião pública «nesse mundo pouco alfabetizado», o medievalismo das relações institucionais e a sua subsequente projecção na vida das famílias. E, sobretudo, uma enorme e crescente vontade de ir dali para fora, emigrar.
Mas o que mais impressiona nestes relatos é a voluptuosidade da linguagem, o equilíbrio que estabelece entre pensamento e emoção, a riqueza das metáforas, o entusiasmo na descrição: «As pernas das mulheres, vistas à luz submarina, desenhavam deformações carnais, carnívoras, carnifluentes e fluorpenetradas, assim rendilhadas de cor e som, como só a linguagem violada se exprimirrompe na deflagrejaculação da mordaça» (p. 104). O exemplo, respigado do conto A Piscina, é talvez o mais radical possível de uma escrita onde as palavras fluem livremente como uma espécie de anomalia, pois, afinal, reflectem justamente uma enorme vontade de dizer obstruída pela força de calar. Disto resulta uma moral, talvez a única que possamos admitir como certa em toda a obra de José Martins Garcia: «Meço o mundo em função dum só desejo: o de que não me perturbem o sonambulismo» (p. 167).

HOJE



CAFÉ-TEATRO

19h00 – Leitura de “12 histórias para Inês”, Não Edições, com texto de Carlos Alberto Machado e ilustrações de João Concha (com projecção das ilustrações) vocacionado para público infantil;

19h20 – O autor Luís Ochoa vai falar da obra “Inversões”, ed. Omega – uma obra poética, focando as várias temáticas desenvolvidas ao longo da obra. Seguidamente abordará a estrutura tripartida da obra, justificando a simbologia dessa divisão, bem como se irá reportar à justificação do título da mesma;

19h40 – Leitura pelo autor de “Nova Asmática Portuguesa” de Nuno Moura, ed. Mariposa Azual;

20h00 – Leitura pelo autor de “A Grua” de Henrique Manuel Bento Fialho, ed. Volta d’ mar;

20h20 – Leitura encenada pelo colectivo “A Morte da Artista” (Carina Bernardo, Firmino Bernardo, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern, Paulo Romão Brás).

sexta-feira, 23 de março de 2018

UM CONTO DE JOSÉ MARTINS GARCIA

O VÓMITO

   Da primeira vez, vomitou um rolo de cabelo, tão negro e tão enrodilhado que de uma ponta à outra do povoado se conheceram detestáveis efeitos. Nas casas cimeiras, lá para as bandas onde Mariela embruxava os homens, foram vistos cabelos rodopiando ao pôrdosol, por cima das chaminés. Nas casas da parte baixa, onde Francisco definhava a olhos vistos, alguns pêlos lograram introduzir-se no ânus do sacristão. Julgaram os parentes que, depois de tão fantásticas demonstrações, o moço Francisco se curaria daquela infernal paixão. Erradamente. Magro de amor e revolta, Francisco tornou a rondar Mariela, a qual, cada vez mais saudável, mais risonha, desafiava os vivos e os mortos com a oscilação das tetas e das ancas.
   Da segunda vez, vomitou um animal de feio cariz, uma pequena rã sem olhos nem patas. O coaxar dessa imundície perturbou quem tivesse ouvidos para ouvir. Era inverno e a nortada lembrava um charco podre quando, alta noite, se punha a sacudir os tectos e as almas. E afirmam ainda que a dita rã, armada de poderes superdivinos, proliferou em minúsculos diabos, capazes de resistir à água benta, pois foram achados dois desses exemplares no fundo da pia baptismal. Desta vez, era a sagrada pessoa do abade que se via a contas com o poder satânico. Mandou sepultar os demónios na parte não benzida do cemitério, a ver se a vizinhança das cruzes lhes abortava a ressurreição. O que parece ter acontecido.
   Da terceira vez, vomitou uma lagartixa, cuja cauda ultrapassava os dois metros. As mulheres honradas e as beatas passaram a sofrer perseguições nocturnas, tão atrozes como as de virgens lançadas aos leões. Ao meterem-se em suas honestas camas, sentiam o visco da lagartixa a procurar-lhes as partes recônditas, e a cauda de dois metros, forjando e multiplicando nós infinitos, deixava-lhes nas carnes profundas marcas de flagelação, além de penetrar selvaticamente todas as bocas do corpo. Reuniram-se em penitência, confessaram-se, comungaram, jejuaram e choraram. Mas de quando em quando, em noite fria, em leito casto, uma malvada lagartixa troçava da moral, maculava os lençóis e ia-se embora antes do alvorecer.
   Da quarta vez, vomitou uma negra moreia, peixe repelente parecido com a cobra; parente, por conseguinte, do bem conhecido tentador de Adão e Eva. Perante a progressão dos fenómenos apontados, a mãe Elvira, que paria oito vezes sem conhecer as delícias conjugais, resolveu guardar segredo. Estava a morei negra no pátio da pobre casa, num abandono tão evidente que o coração de Elvira se enterneceu. Enroscadinha, com a tristonha cabeça sob a cauda, doméstica. Elvira foi à cozinha buscar a faca maior. Esticou o animal adormecido e ia cortar-lhe a cabeça, quando a fera, abrindo uns olhos descomunais, a mordeu no pulso fazendo cair a faca. Elvira levantou a comprida saia para se pôr em fuga. Mas o gelo dos membros paralisou-a. A morei espreguiçou-se e, brusca, entrou inteira na vulva de Elvira, começando logo a roer cavidades e vísceras. Era uma fábula ao invés da de Jonas no ventre da baleia.
   Enquanto Elvira garantia a infinita dor das suas entranhas, Francisco comportava-se com filial ingratidão. Seguia Mariela com obsessão canina, até à transparência. Cuspia nas admoestações. Mariela descia, Mariela subia, Mariela enchia as ruas, Mariela sorria, Mariela gargalhava, Mariela era uma estátua reincarnada em dezasseis primaveras, sem sofisticação nem bafo de cidade, carne cheirando a terra antiga, Vénus sem Milo, braços roliços, umas ancas de louvar a Deus e uns seios nunca vistos. As mulheres honradas e as beatas odiavam-lhe principalmente os seios, duas montanhas, dois orgulhos acima duma cintura fina. E puseram a circular que Mariela não usava soutien. O que Francisco desmentiu, por lho ter visto, túmido e irritado pela calúnia.
   — Diz a essa puta que os amarre com uma toalha! — gritou Elvira, sentindo uns dentes de moreia cravados no coração de mãe.
   Francisco sumiu-se, transparente e febril. Elvira tornou à bruxa, solicitando um contra-bruxedo mais forte, uma beberagem absolutamente eficaz. A bruxa pôs os olhos em alvo e deixou correr as chispas de adivinhação.
   — No café! — disse.
   E entregou a Elvira a mais da desembruxante das bebidas, vagamente doirada, numa garrafa de litro.
   Da quinta vez, Francisco vomitou um elefante. Nunca ninguém avistara monstruosidade comparável. Tinha três metros de altura e cinco de comprimento. As orelhas terminavam em gume e a cauda exibia uma flecha. Os dentes eram de prata e os olhos rodeados por pestanas de fogo. A tromba mediria uns cinquenta metros, de modo que tanto a bruxa como o abade sentiram estranhas comichões nos sexos. Quanto às partes vergonhosas do monstro, eram de fêmea: vagina transcendental e tão albergue que meio povoado macho por ela entrou sem nunca mais ter sido detectado.
   Rezam crónicas fidedignas que Mariela e Francisco se casaram e tiveram muitíssimos filhos. Por isso a terra se repovoou, compensando amplamente os estragos causados pelo elefante. Quanto a outras consequências desse matrimónio, registou-se ainda o seguinte: Francisco, saciado o amor, começou a engordar; Mariela, começando a parir, deixou pender os seios.
   Um ano após a noite de núpcias, já eram pessoas normais.


José Martins Garcia (n. 1941 - m. 2002), in Morrer Devagar, 1.ª edição, Arcádia, 1979, 2.ª edição, Companhia das Ilhas, Dezembro de 2017, pp,. 113-117. José Martins Garcia é um escritor extraordinário que não faz sentido manter esquecido. A Companhia das Ilhas tem vindo a reeditar toda a sua obra, em volumes que podem ser adquiridos: aqui. Leituras de algumas dessas obras foram partilhadas neste weblog: O Medo, A Fome, Lugar de Massacre. Encontrei uma entrevista ao autor nos arquivos da RTP: aqui

quinta-feira, 22 de março de 2018

(…) 72, 73, 74 (…)


Morto e enterrado o dia mundial da poesia, vamos a ela. Três vozes femininas, portuguesas, publicadas por uma mesma editora no espaço de dois meses. Na verdade, Sarah Adamopoulos (n. 1964), de origem grega, nasceu em Roterdão. Por cá, foi jornalista, tradutora, autora de livros com características e propósitos dissemelhantes.
Auguste Comte (n. 1789 – m. 1957), pai do positivismo, surge como interlocutor no poema A Única Palavra (Douda Correria, Outubro de 2017). Comte, convém recordar, foi um anti-individualista interessado na reflexão da sociedade de um ponto de vista científico. No entanto, a fase final do seu percurso gerou polémica na sequência de algumas opções críticas. A divisão dos entusiastas do positivismo teve como origem uma ideia de Humanidade mais devedora da metafísica do que da sociologia. A noção de Grand-Être, a Humanidade entendida enquanto todo, levou Comte a enveredar por uma espécie de religião da Humanidade com seus dogmas respectivos, decalcados amiúde do catolicismo. É verdade que nada disto é indispensável à leitura de A Única Palavra, embora tenda a tornar mais claro «o saber metafísico / do mistério» introduzido pelo poema. O seu objecto é poético, e ainda que possamos entendê-lo como aposto à ciência e até a uma concepção religiosa da ciência, ele não deixa de manifestar fé na razão que sustenta a palavra poética: o mistério. Em poesia, os conceitos (con)fundem-se, as fronteiras transpõem-se, os termos adquirem uma plasticidade e um extensão inconveniente ao discurso científico. Deixa de ter lógica a separação dicotómica do religioso (que liga, unifica, reaproxima) e do científico (que separa, distingue, individualiza). Sarah Adamopoulos recupera, deste modo, o estatuto epifânico do poema numa época em que a poesia parece ter abdicado da sua raiz filosófica: «já não sei o que é mais triste: / se os teus herdeiros, Auguste, / se eu ali a afundar-me / no lodo centrípeto, / se o muro / (casulo, cegueira, vertigem, doença / hesito) / que nos separa». Das companhias declaradas no final, a mais óbvia é o poema-sequência A Terceira Miséria (Relógio D’Água, Fevereiro de 2012), de Hélia Correia (n. 1949), por também aí se vislumbrar uma acutilante crítica da actualidade face à degenerescência de certo sentido poético do mundo. Observado de perto, no seu habitat sociológico natural, as ruas, o Outro surge esvaziado da sua ligação ao Grand-Être: «É preciso descriar essa tropa / que vive entrincheirada na palavra / eu». Comte é não apenas um interlocutor passivo, tipo confessor, mas também princípio a partir do qual o poema se desenrola reflexivamente, assumindo o mistério, a magia, a dúvida, o mundo de possibilidades que determina «a natureza da palavra». Ponham os olhos neste poema. Seria tremendamente injusto que passasse despercebido.
O mais extenso dos três livros agora convocados é de Catarina Costa (n. 1985), que já havia publicado Chiaroscuro (Julho de 2016) na Douda Correria. Analema (Novembro de 2017) reúne três conjuntos de poemas: Primeiras Travessias (14 poemas), Cristalização: A Casa (16 poemas), Dos Despojos (20 poemas). Embora autónomos, os poemas de Analema mantêm entre si uma unidade temática e de tom por vezes desdobrada em breves sequências. No conjunto inicial, que me parece o mais irregular dos três, percebemos a necessidade de um afastamento materializado na dissimulação do sujeito poético em vários pronomes pessoais. O eu e o tu, mais raramente um nós, um eles, intercalam-se em fragmentos intimistas que remetem para um passado revisitado «com um toque / de melancolia à superfície». Encontra-se nesse passado a origem do pathos que os conjuntos subsequentes radicalizam. No segundo, a aventura adiada surge traída pela domesticação do impulso. A esta domesticação corresponde a cristalização do ser. A partida (fuga? libertação?) não chega a consumar-se, a solidão apodera-se daquele que permanece entre os quais já não se revê. Poemas como A Sala de Jantar, Uma Casa que Não é Tua, A Incompreensão do Desastre, fazem da família o núcleo celular de um sentimento de desterritorialização. A casa é «território estrangeiro», o sujeito poético metamorfoseia-se em coisa anómala, solitária, isolada, incompreendida, afastada dos outros por nele crescer um aglutinador sentimento de desagregação. Não por acaso, Kafka é citado a determinada altura num poema em que o fantasma do suicídio, colocado como possibilidade, é ultrapassado pela força reveladora do acidente. Se a morte não se teme, «o que temes é a perda do que não é da sua natureza / perfazer-se». Pergunto-me se tal perda não ocultará um derradeiro sinal de esperança, se nela a fragilidade do sujeito não engendra forças que o mantêm de pé. O problema do doméstico na poesia de Catarina Costa não se esgota no tédio da vida quotidiana, é colocado nas fundações de uma dor silenciosa que lança o sujeito em estados de desamparo e de absoluta solidão. A observação dedicada ao outro, aos adereços, à quotidianiedade, remete invariavelmente para esse si mesmo ferido de melancolia, colocando-o numa desconfortável situação de reconhecimento: «vi a velha na fila do supermercado» (…) «e então senti-me como ela, uma figura patética».
Por fim, Catarina Santiago Costa. Dela saíram na Douda Correria, em 2016, os livros Estufa e Tártaro. Como não há duas sem três, aí temos Filha Febril (Novembro de 2017). Podemos falar em três partes informais neste livro, sendo que em todas elas assistimos, de uma forma mais ou menos evidente, ao diálogo da morte com a vida. De índole narrativa, a primeira parte situa-nos num tempo definido pela perda. Neste caso, da mãe. Ao contrário do que sucede em muitos outros livros dedicados ao tema, neste não é a memória o que mais se impõe, nem a morte enquanto questão ontológica. A perda da mãe inaugura no início do livro um momento alucinatório com repercussões demenciais. Opera-se um processo de transmutação que faz da filha o corpo onde se aloja agora o espólio materno: «O lobo comeu o colibri. / Agora, quando abre as mandíbulas, / o canto da avezinha escapa-se-lhe / o colibri é o lobo / e o lobo o colibri. // Também o colibri pode comer o lobo / porém, ao abrir o bico, / morrerá com o uivo». Em diálogo com a “peça” Pierrot e Arlequim, de José de Almada Negreiros, surge sob a forma de interlúdio um tríptico que liga a primeira à terceira partes deste livro. É na mais extensa das duas que vem à tona uma fúria característica da poesia de Catarina Santiago Costa. Outrora filha aquela que se encontra agora no papel de mãe. O envio é pungente: «Filha querida, / urge que percebas que / só fujo de mim / deste eu esfacelado e químico / deste eu desfigurado, delirante moderado / deste eu trágico / ossos pneumáticos esvaziados / olhos queimados / sexo a um tempo sobrepovoado e deserto / fome e sede cretáceos». O movimento é o das coisas vivas, erguidas da morte como herdeiras de uma perda a que cabe dar continuidade. Esse o absurdo da existência a que geralmente se atribui o nome de descendência, mesmo quando se nega à família «leviatã áspero e mesquinho» o valor conferido aos amigos: «A minha linhagem é a dos amigos, / espécie marsupial atípica com cronologia aleatória / solitários com encontros marcados / gestei-os e eles a mim. / Temos sangue dourado e isso / nem os deuses». Ao questionar o conceito atávico de família, fundador de modelos sociais mais preocupados em assegurar a manutenção dos seus alicerces do que em garantir a liberdade e a felicidade dos indivíduos, Filha Febril traz para a poesia portuguesa uma nova abordagem do problema da maternidade, expurgado da sentimentalidade e das emoções que geralmente o configuram. Desassossegado, inquieto, eventualmente cruel: «Nada a fazer: / somos omnívoros / somos necrófagos /  mas não temos de ser / sacanas nem mesquinhos / diz-te este fantasma voraz / que já foi filha».

quarta-feira, 21 de março de 2018

DIA MUNDIAL DA POESIA


   Julgo que foi Hazlitt quem disse que, superior a esta cidade de água, só mesmo uma cidade construída no ar. Era uma ideia calviniana, e quem sabe se, na esteira das viagens espaciais, não virá ainda a ser posta em prática. Enquanto isso não acontece, talvez o melhor testemunho deste século, a par do desembarque na Lua, seja o ter deixado intacta esta cidade, o tê-la deixado em paz. Eu, pessoalmente, desaconselharia até mesmo as intervenções mais benignas. É certo que os festivais de cinema e as feiras do livro condizem com o tremular da superfície dos canais, com os seus rabiscos floreados, atentamente lidos pelo sirocco. E é certo que converter este lugar numa capital da investigação científica seria uma opção agradável, especialmente se levarmos em conta as prováveis vantagens da dieta local, rica em fósforo, para qualquer tipo de esforço mental. Poderia usar-se o mesmo isco para transferir de Bruxelas para aqui o quartel-general da CEE, e de Estrasburgo o Parlamento Europeu. E é certo que seria melhor solução ainda atribuir a esta cidade e a uma parte dos seus arredores o estatuto de reserva nacional. Eu diria, porém, que a ideia de converter Veneza num museu é tão absurda como a ânsia de a revitalizar com sangue novo. Para começar, aquilo a que se chama sangue novo não passa nunca, no fundo, de velha urina. E, em segundo lugar, esta cidade não se presta a ser um museu, sendo ela própria uma obra de arte, a maior obra-prima que a nossa espécie criou. Não se renova um quadro, e menos ainda uma estátua. Há que deixá-los em paz, guardá-los dos vândalos — de cujas hordas talvez nós próprios façamos parte.

Joseph Brodsky, in Marca de Água — Sobre Veneza, trad. Ana Luísa Faria, Relógio D'Água, Janeiro de 2018, pp. 90-91.

EM MARÇO FOI ASSIM




Venha Abril, com o Carlos Alberto Machado.


Fotografias do Ricardo Aurélio.

"Seis poetas escolhem seis poemas para quem não gosta de poesia (mas também para quem a ama)"

A ESCOLHA DE RAQUEL NOBRE GUERRA

Rui Costa, “Clássico nada original” (retirado de “Mike Tyson para Principiantes”, Assírio & Alvim, 2017)

 

A voz dos Joy Division no carro
que por azar é novo
saber que o mundo é a continuação
de Vila Nova de Gaia
há mulheres com pólvora entre os dentes
para lá das montanhas e montanhas
para lá das montanhas.
o sofá era atanómico.
o gato comi-o. foi a melhor maneira
que encontrei para o levar comigo.
alguma roupa, dois ou três objectos.
as recordações pões numa caixa de
madeira com desenhos de cavalos. Depois,
vais ao café por volta das onze horas
e contas o dia no escritório as
pernas da nova secretária. Ris muito e pensas
que quem ama a luz não pode ter medo
da escuridão

A JUSTIFICAÇÃO DE RAQUEL NOBRE GUERRA PARA A SUA ESCOLHA

Estas poucas linhas conservam a medida encantatória do que se quer de um poema: legitimar a intimidade entre autor e leitor, dizer no lugar de querer dizer. Rui Costa não presta contas à impossibilidade colocada diante da linguagem, maçando o leitor com oscilações de temperatura e febres maneiristas, antes atribui significado às coisas e ao quotidiano pelo modo como estes o afectam, elevando-os a uma respiração colectiva de sentido — “(…) saber que o mundo é a continuação de Vila Nova de Gaia”. O trabalho da linguagem não se fica pelo relato e representação de uma interioridade estetizada, mas pela mediação de um segredo partilhado no património comum dos afectos: subjugar a escuridão e suas assembleias de culto - “quem ama a luz não pode ter medo”. O canto do homem lúcido às sereias.


Jornal Expresso: aqui.

terça-feira, 20 de março de 2018

HOJE


Sobre manuel a. domingos, neste weblog: leitura de Mapa, leitura de Teorias, um texto sobre panfletos, com cinco anos, aqui, leitura de Vala Comum, um poema seguido de apontamento biobibliográfico: aqui. E um micróbio de minha autoria que lhe foi dedicado: aqui.

O ÚLTIMO


Um dia morrerá o último homem. Escreverá alguém o seu obituário? 

MARCA DE ÁGUA


Na segunda badana de Marca de Água — Sobre Veneza (Relógio D’Água, Janeiro de 2018) diz-se que Joseph Brodsky (n. 1940 – m. 1996) foi o escritor mais novo a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1987. Se não me falham as contas, Albert Camus (n. 1913 – m. 1960) ainda não contava 44 primaveras quando o recebeu, em 1957. Brodsky tinha 47 anos. Não é que seja relevante, mas o seu a seu dono. 
   Natural de Leninegrado, actual São Petersburgo, Iosif Aleksandrovich Brodsky nasceu no seio de uma família judaica quando os judeus eram marginalizados na ex-URSS.  A pobreza marcou a infância, assim como uma sensação de desenraizamento que irá acompanhá-lo para a vida. Aluno problemático, largou a escola para ingressar no mundo do trabalho como operador de máquinas, primeiro, e assistente de autópsias, depois. Ao mesmo tempo, nunca perdeu interesse pela educação. Aprendeu polaco e inglês, estudou filosofia, mitologia, poesia. Começou a escrever poemas com 15 anos, fazendo-os circular em publicações marginais. Cinco anos depois conheceu Anna Akhmatova (n. 1889 – m. 1966), cuja influência na sua afirmação é inquestionável. Em 1964, depois de haver sido denunciado como autor de poemas pornográficos e anti-soviéticos, foi acusado de parasitismo social: “pseudo-poeta com calças de veludo”. Condenado a cinco anos de trabalhos forçados, viu a sentença reduzida após protestos de Akhmatova, Sartre, Yevgeny Yevtushenko. Acabou por se tornar num símbolo da resistência contra o totalitarismo soviético. Em 1972, foi finalmente forçado a sair do país. Nunca mais regressou. Viveu na Áustria, onde conheceu W. H. Auden (n. 1907 – m. 1973), outra figura determinante no seu percurso. A mudança para os EUA deu-se rapidamente, com trabalho garantido na Universidade do Michigan. Aí deu início a uma proeminente carreira académica. Aquando da aceitação do Nobel, questionado sobre a sua nacionalidade, respondeu: “Sou judeu, poeta russo, ensaísta inglês e, claro, cidadão americano”. 
   Veneziano nunca chegou a ser, mas podia. Frequentou a cidade de Veneza durante 17 anos, colhendo da experiência o ensaio que agora integra a colecção Viagens da editora Relógio D’Água. Datado de 1989, Marca de Água veio a lume em 1992. O interesse de Brodsky pela cidade não é o que comummente motiva um viajante. O trabalho, revela, foi em regra o que o levou a Veneza. Nem “intuitos românticos”, nem uma “lua-de-mel” ou “um divórcio”. Trabalho. E é com este distanciamento, mas confessada admiração, que se dirige à cidade: «Sendo as coisas o que são, esta cidade é a menina dos nossos olhos. Depois dela, tudo nos desilude» (p. 87). A prosa de Brodsky está, no entanto, repleta de armadilhas. Aqui irónica, acolá sarcástica, rejeita a superficialidade da mera descrição, preferindo incursões reflexivas orientadas por experiências pessoais e sensações intimistas. Logo a abrir, «o cheiro a algas geladas» (p. 10) é sinónimo de felicidade por nele se reconhecer um sinal de identificação. Não com uma infância infeliz nas margens do Báltico, mas com o «ichthus que originou esta civilização» (p. 11). 
   Não conseguimos encontrar na prosa de Brodsky um lugar-comum, uma sentença previsível, tudo nela surge de algum modo inesperadamente, com a leveza de quem conta uma história repleta de emoções aqui e acolá pontuadas pelo riso. Politicamente céptico, desconfiado da humanidade em geral e dos artistas em particular, frio na exposição das relações humanas, observa a cidade não como um dos seus habitantes, muito menos como um turista esporádico, observa-a para lá do presente imediato, reflectindo-a como nas águas se reflecte um rosto. Na verdade, este livro pode ser lido como um pequeno ensaio acerca da reflexão. «Há algo de primevo nas viagens sobre a água», diz-nos. E acrescenta: «A água perturba o princípio da horizontalidade, em especial à noite, quando a sua superfície se assemelha à da calçada» (p. 17). 
   Elemento essencial, a água é neste caso a terra sobre a qual o pensamento firma a caminhada. Metáfora do tempo «a água é a imagem do tempo» (p. 38) , ela é igualmente uma metonímia do reflexo: «esta água reflectiu todos quantos viveram, para já não falar dos que apenas estiveram de passagem, nesta cidade, todos quantos alguma vez caminharam ou patinharam nas suas ruas como agora fazemos» (p. 77). Este elemento próprio de Veneza, a sua característica principal, sobressai entre os demais como uma espécie de assinatura identitária, carimbo que o olho do observador identifica enquanto centro do mundo: «Se o mundo fosse considerado como um género literário, o seu principal recurso estilístico seria sem dúvida a água» (p. 97). O amor a este lugar é, pois, aquele que se deve às reflexões que nos transportam à origem, reconfortando-nos com uma ideia de beleza e pureza que talvez seja meramente ideal, mas sem dúvida alumia o futuro. Não necessariamente o da cidade. 

segunda-feira, 19 de março de 2018

UM POEMA DE E.E. CUMMINGS


[ix]

nada é mais exactamente terrível do que
estar sozinho em casa,com alguém e
com alguma coisa)
                               Partiste.    há  risos

e o desespero imita uma rua

eu inclino-me à janela,contemplo espectros,
                                                                     um homem
estreitando uma mulher num parque.   Perfeito.

e ao de leve(porquê?ou para não compreendermos)
ao de leve eu estou ouvindo alguém
a vir para cima,cautelosamente
(cautelosamente subindo atapetado lanço após
atapetado lanço.   serenamente,subindo
os atapetados degraus do terror)

e continuamente eu estou vendo alguma coisa

inalando suavemente um cigarro(num espelho


e.e. cummings (n. 14 de Outubro de 1894, Cambridge, Massachusetts, EUA - m. 3 de Setembro de 1962, North Conway, New Hampshire, EUA), in xix poemas, trad. Jorge Fazenda Lourenço, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 1998, p. 45. Mais sobre cummings: aqui.

UM CÃO


   O Basquiat está connosco praticamente desde que viemos viver para Caldas da Rainha. Foi-me oferecido por um bom homem que já não se encontra entre nós. Trouxe-o para casa depois de uma noite de copos, veio a ganir o tempo todo. Quando chegámos, coloquei-o na nossa cama, peguei na mão da minha mulher e deixei-a cair pausadamente sobre a bola de pêlo. Ela ficou delirante. 
   O Basquiat trouxe-nos alegria, foi um elo que ao longo de dezassete anos assistiu a tudo: ao nascimento das filhas, às crises, às discussões, ao amor, à paixão, à raiva, às frustrações, ao medo, à solidão, aos momentos de tristeza, aos momentos de alegria. Esteve sempre presente, como só um cão sabe estar. Jamais hei-de esquecer o contentamento com que nos recebia no regresso de um qualquer período de ausência, os pulos que dava da cama para o chão e do chão para a cama, o faro impecável com que superava todos os desafios, a agitação quando nos pressentia estados emocionais alterados. E a gulodice. Nunca vi cão tão guloso e tão persistente na afirmação dessa gulodice. 
   Os últimos anos têm sido desesperantes. Assistir à decadência do animal é, de certa forma, percepcionar a nossa decadência projectada num companheiro de há muito. Ficou surdo, cego, perdeu dentes, várias faculdades. Ontem teve o que parece ser um AVC, não consegue manter-se de pé. Deixámo-lo no hospital veterinário à espera do telefonema, aquele telefonema que clarifique se ele aguenta mais decadência ou se é preferível poupá-lo a esforços desnecessários. 
   Nos últimos tempos, pedi muitas vezes que morresse. Agora não suporto a ideia de ficar sem ele. Tento mentalizar-me de que é só um cão. Mas não é só um cão. Entre os muitos textos que lhe dediquei ou naqueles em que o referi, reparo que ele nunca aparece apenas como cão. E isso entristece-me. Um cão deve ser apenas um cão, um projecto da natureza, não um projecto nosso. Gosto deste texto (aqui), parece-me que pelo menos ali ele foi apenas um cão… Não o meu cão, um cão.

domingo, 18 de março de 2018

UM POEMA DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS


ESTAS

são as semanas desoladas, sombrias
em que na sua aridez a natureza
rivaliza com a estupidez humana.

O ano despenha-se na noite
e o coração é um abismo
mais fundo que a noite

nesse vazio varrido pelo vento
sem sol, sem lua nem estrelas
apenas uma estranha luz do pensamento

que lança um tenebroso fogo —
rodando sobre si mesma até
no frio incendiar-se

e revelar ao homem algo que ele
desconhece, não a solidão
em si — não um espectro

ainda que o pudesse abraçar — vazio,
desespero — (gemendo
soluçando) entre

as chamas e os estrondos da guerra;
casas em cujos aposentos
o frio ultrapassa o imaginável,

aqueles que se foram e que amávamos
vazias as camas, húmidos os
sofás, as cadeiras sem uso —

Oculta-o algures
longe do pensamento, deixa-o criar
raízes e crescer, salvo de olhos e ouvidos

ciosos — por si somente.
A esta mina chegam para escavar — todos.
Será isto o contraponto da música mais

suave? A fonte da poesia que
ao ver o relógio parado, diz:
Parou o relógio

que ontem trabalhava tão bem?
e ouve o som das águas do lago
salpicando — agora petrificadas.


William Carlos Williams (n. 17 de Setembro de 1883, Rutheford, New Jersey, USA - m. 4 de Março de 1963, Rutheford), in Antologia Breve, trad. José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, Abril de 1995, pp. 67-69.

DO OLHAR E DA PERCEPÇÃO



Artist and graphic designer Émir Shiro has created a series of highly suggestive collages that make their point about social media’s double standards in an amusing and eye-catching way. (...) Shiro’s mash-up images subvert social media’s overly censorious approach to the right to bare flesh...

Respigado no Provas de Contacto: aqui.

(PAUSA)

(...)
Os grandes génios são, por natureza, solitários e pouco dados a constituir família e ter uma casa cheia de gente. Mas ninguém os pode censurar, vivendo como vivem no espaço exíguo de uma lamparina de azeite.
(...)

António Godinho e manuel a. domingos, in Eu queria encontrar aqui ainda a terra, Culturguarda e Centro de Estudos Ibéricos, Janeiro de 2009, p. 35.

sábado, 17 de março de 2018

NÃO É UMA SELFIE


FORA DO MUNDO


O caso mais conhecido talvez seja o de Henry David Thoreau (n. 1817 – m. 1862), dois anos e dois meses a mais de quilómetro e meio de qualquer vizinhança, a ganhar a vida, como o próprio dizia, apenas com o trabalho das suas mãos. Depois, regressou à civilização. Os pormenores vêm descritos em “Walden ou a Vida nos Bosques”, publicado pela primeira vez em 1854. Da experiência, Thoreau concluiu que a simplificação da vida descomplica as leis do universo. Assim sendo, «a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza». Não foram anos de completo isolamento, chegou a dar festas na cabana, falava com quem por ali passasse, mantinha-se sociável. Até escreveu um livro sobre o assunto. A influência de Ralph Waldo Emerson (n. 1803 – m. 1882) é notória, sobretudo para quem tenha lido o ensaio “A Natureza”. Começa logo assim: «Para encontrar a solidão, um homem tem de deixar tanto o seu quarto como a sociedade». Mas por que há-de um homem pretender encontrar a solidão? Não andamos todos a fugir da solidão? Parece paradoxal, mas não é. No meio de multidões, um homem pode sentir-se só. As cidades materializam uma ideia de civilização, assente em grandes aglomerados populacionais pautados pelo frenesi, pela agitação, permanentemente expostos ao ruído (noise) e, por consequência, à náusea. O livro de Sartre também é sobre isto, sobre esta sujeição permanente ao ruído que faz dos outros um inferno. Os outros são o ruído.
   A busca da solidão será uma tentativa do homem reencontrar-se consigo mesmo, o ideal de uma origem pura, simples, livre, autónoma e independente das leis e das regras que configuram a normalidade no seio de uma sociedade. Um tipo começa a trair-se quando aprende uma língua. A norma pode ser altamente agressiva e torturante em certas almas. Cristo afastou-se, Siddharta afastou-se, os anacoretas do deserto afastavam-se…  Lao Zi, ou Lao Tse, lançou as bases com o “Tao Te Ching”, ou o “Tao Te King”. Uns, afastam-se geograficamente. Outros, afastam-se pelo silêncio. Não é por acaso que Matsuo Bashô ficou para a história como “O Eremita Viajante”. Os exemplos são múltiplos, diversos, mas convergem todos para uma ideia de isolamento enquanto encontro. Sozinho consigo mesmo um homem jamais estará só. Não é assim, Thoreau? Isolado nos bosques, no seio da Natureza, ele regressa à terra que o pariu, concretiza uma espécie de retorno ao ventre, empreende, de certo modo, um retorno às origens, à fonte mais pura, que é silenciosa e protectora e auto-suficiente. De regresso ao ventre, o homem volta a sentir-se protegido, a salvo dessa tortura que é o ruído das multidões, a náusea, a salvo do excesso, do desperdício, das tormentas de um mundo em convulsão continuada. É o máximo de liberdade que podemos ambicionar. 
   Christopher McCandles, o rapaz imortalizado por Sean Penn com a adaptação para cinema do livro “O Lado selvagem”, de Jon Krakauer, não era anti-social, não era misantropo, não se pode sequer dizer que revelasse traços esquizóides ou uma qualquer forma subtil de autismo. Inspirado pela experiência de Thoreau, quis embrenhar-se nos bosques. Partiu à aventura rumo ao Alasca, por lá ficou, no ventre da terra, traído pelo veneno da Natureza, por nele não haver a sabedoria indígena que talvez o safasse do fracasso. É outro caso bastante conhecido de uma busca radical do silêncio, do sossego, da paz, fazendo do isolamento e da solidão, do auto-exílio, o meio para atingir esse estado de distanciamento que parece indispensável à consumação de uma ideia de felicidade. Longe dos outros, que oprimem e humilham, distante de tudo quanto torture, desassossegue, inquiete, o homem tem pela menos a hipótese de poder achar-se livre. Não é esse o fim último, o nirvana? Não será isso a ausência de desejo, de ambição, de vontade? Mas para aí chegar, este homem tem de querer. 
   Christopher Knight quis. Tinha vinte anos quando desapareceu, até passarem 27 anos para que fosse novamente capturado pelas armadilhas do social. O jornalista Michael Finkel escreveu a sua história em “Fora do Mundo”, chamando-lhe, como lhe chamavam, eremita. Ele não enjeita o conceito nem o assume, é-lhe indiferente. O nosso mundo parece ser-lhe indiferente. Não me interessa minimamente especular sobre o heroísmo ou anti-heroísmo de Christopher Knight, não quero saber das patologias eventualmente configuradoras da sua personalidade, se era uma fraude, um criminoso, um maluquinho… Não consigo posicionar-me face a um ser humano com tamanha facilidade. Interessa-me a conclusão de Finkel, que dele consegui aproximar-se para procurar entendê-lo: «o mundo não foi feito para pessoas como ele. Nunca fora feliz durante a juventude nem no liceu, nem num emprego, nem na companhia das outras pessoas. Sentia-se constantemente nervoso. Não havia lugar para ele na sociedade e, em vez de continuar a sofrer, decidiu partir. Tratou-se não tanto de um protesto, mas mais de uma busca» (p. 183). 
   Finkel, como é óbvio, representa aqui o papel do invasor. É persistente, obstinado, insistente, até inconveniente nas tentativas de estabelecer uma relação com Christopher Knight, um homem que apenas queria estar só. Não tivesse sido apanhado num dos imensos pequenos furtos que praticou, Knight transformar-se-ia num mito urbano: o eremita que assaltava casas de férias para roubar o que outros deixam para trás, e disso subsistir no meio da floresta, numa espécie de casulo que lhe garantia aquilo de que mais precisava: solidão. Quando em sociedade um homem se sente só, ele isola-se para que deixe de se sentir só. Vai ao encontro de si mesmo. Isto é mesmo assim, nada tem de contraditório. É assim desde sempre. O exílio, o isolamento, são meios para atingir um fim. No caso de Thoreau, como de outros transcendentalistas, a plenitude que advém de um diálogo entre quietude e tranquilidade. No caso de Knight, a solidão que se forma de uma conversa entre o vazio e o desassossego. Só no primeiro vislumbramos a via do ascetismo que caracteriza o eremita. O segundo é um dos nossos, mas mais capaz. O que nele pode haver de anómalo é o ter partido, o ter colocado alicerces para os castelos que construímos no ar.

INTERVALO DOLOROSO


Gazeta das Caldas, n.º 5217, sexta-feira, 16 de Março de 2018.

(também aqui)

sexta-feira, 16 de março de 2018

EREMITAS ORNAMENTAIS

   Na Inglaterra do século XVIII, houve uma moda disseminada no seio da classe mais alta. Várias famílias julgaram que, de acordo com a sua condição, lhes fazia falta um eremita, e começaram a surgir nos jornais anúncios para «eremitas ornamentais» que não fossem exigentes em termos de cuidados e alimentação e estivessem dispostos a dormir numa caverna. O emprego era bem remunerado e foram recrutados centenas de eremitas, tendo normalmente por base um contrato de sete anos que contemplava uma refeição diária. Alguns apareciam nos jantares festivos e cumprimentavam os convidados. A aristocracia inglesa dessa época acreditava que os eremitas irradiavam bondade e ponderação, sendo considerado bastante recompensador, durante algumas décadas, manter um por perto.

Michael Finkel, in Fora do Mundo: A Extraordinária História do Último Verdadeiro Eremita, trad. Paulo Tavares, Elsinore, Maio de 2017, p. 97.

quinta-feira, 15 de março de 2018

NINGUÉM MATA ESTE SORRISO


Os jovens norte-americanos andam nas ruas, a protestar contra os interesses de uma máquina de matar chamada The National Rifle Association. Merecem toda a nossa solidariedade e consideração. Força. Enquanto isso, no Brasil, outra América, a vereadora Marielle Franco foi brutalmente executada. Era feminista e defensora dos direitos humanos e da igualdade social, qualidades perigosas em Terra de Santa Cruz. O horror, o terror, tem muitas fontes e rostos e rastos. Não vencerá. 

quarta-feira, 14 de março de 2018

SE AO MENOS A CHUVA


Andava às voltas
no topo de si mesmo
e do monte.
Trepara a encosta
como em pequeno
trepava às árvores:
para ver melhor.

Vivia tão longe da água
que tinha a boca seca.

Agora andava às voltas
cheio de sede
a esgotar-se, a suar.

Porque não paras?,
perguntar-lhe-ia, se pudesse
entrar neste poema.

Não havia nada no cimo de si
nem do monte
— apenas o azul e algumas aves
que respiram mais alto.

A cidade ficava a meio caminho
entre o céu e a terra
(o céu lá para cima, ainda depois do monte,
a terra cá para baixo, um pouco antes da sede).

Ele andava às voltas com a vida:
atirava-lhe pedras, gritava
(se ao menos a chuva! se ao menos a chuva!)
como quem não encontra.

Só mais tarde entendi o que procurava:
um mar.



Filipa Leal (n. 1979), in A Cidade Líquida«Se tivermos em conta aquilo que aparece com a poesia portuguesa mais perto de nós (onde predominam as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade), podemos afirmar sem hesitações que Filipa Leal tem uma personalidade fortemente demarcada. (…) Do ponto de vista do estilo, Filipa Leal utiliza os mais variados procedimentos: há uma sugestão insistente de oralidade (…), um jogo muito sóbrio de usos da metáfora (nenhuma dimensão decorativa ou expressiva, nenhum lirismo derramado), uma distorção permanente da forma habitual das frases (…), um sentido da redundância por vezes semântica (…). Inesperadas enumerações, uso dos parênteses. Ou ainda: castigos, tonturas, despedidas. E ainda frases que se autocorrigem, frases que se desmentem. A insistência no "não"» (Eduardo Prado Coelho, Público, 1 de Dezembro de 2006).