segunda-feira, 5 de março de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #37



   Em matéria de cunhas, confesso já os meus pecadilhos. Durante algum tempo aproveitei borlas para assistir a concertos no Centro Cultural de Belém. A minha mulher é prima de um técnico que trabalhava por lá e nos oferecia bilhetes para as laterais. Houve um espectáculo que me ficou gravado na memória. Foi no dia 27 de Setembro de 1996, com o Wim Mertens Ensemble a interpretar na íntegra um dos meus álbuns preferidos: “Motives for Writing” (1989). Alguns anos antes, tinha assistido no Teatro São Luiz ao concerto que deu origem a “Epic That Never Was” (1994). Mas a actuação do CCB foi particularmente memorável por razões meramente egoístas. No final do concerto, subi ao palco e estive perto do piano a divagar sobre hierarquias e disposições numa sala de espectáculos entretanto vazia. Depois fui levado aos bastidores, onde o pianista belga ainda se encontrava. Só não meti conversa por ser mais forte a timidez do que o descaramento.
   Mertens (n. 1953) é um músico peculiar, que de algum modo intimida e baralha conceitos, fórmulas, teorias. Na sua vastíssima discografia destacam-se vários álbuns com características diversas. É comum ver o seu nome associado ao minimalismo, movimento, aliás, que lhe inspirou o livro “American Minimal Music” (1980). Obras tais como as de Steve Reich, Philip Glass, Terry Riley e La Monte Young são pensadas nesse livro à luz dos fundamentos deixados por John Cage, Arnold Schönberg ou Stockhausen. Mas Mertens, cuja formação académica inclui estudos na área das ciências sociais e políticas, vais mais longe, atribuindo ao movimento minimalista propósitos ideológicos e filosóficos que extravasam o domínio exclusivo da composição musical.
   Ainda que faça sentido perspectivar a sua música a partir de uma relação com os modelos minimalistas, especialmente no que tem de repetitivo e despojado, a verdade é que revela amiúde uma complexidade que a torna mais ecléctica do que a da maioria dos compositores supracitados (a excepção talvez seja Philip Glass). O álbum “Educes Me” (1988) pode servir de exemplo. Se uma peça como a que dá título ao álbum é de raiz claramente minimalista, constituída por melodia para arpa num movimento tão lento quanto o da extinção de um som no silêncio, já “The Fosse” aproxima-se da música popular com uma melodia para piano altamente acessível e um coro de vozes com ressonâncias barrocas.
   “A Visiting Card”, tema de abertura, pode também constituir excelente exemplo de uma música algures entalada entre os universos erudito e popular, fazendo justiça ao idioma singularíssimo adoptado por Wim Mertens. E o que dizer de “No Plans, No Projects”, com um sintetizador a impor-se perante piano e voz numa dinâmica tão típica da música pop? Como referi, “Motives for Writing” é um dos meus álbuns preferidos. Logo, entre os mais de sessenta de Mertens (e eu não devo conhecer nem metade), é provável que seja o meu álbum preferido deste compositor belga. Trago hoje à tona “Educes Me” por me ter recordado ontem de “Usura”, tema para vozes que me perseguiu ao longo de um dia que começou num shopping e acabou em casa a assistir à cerimónia dos Óscares.

2 comentários:

Luis Rodrigues disse...

Wim Mertens também é dos meus preferidos. Também estive no S. Luís, passaram muitos anos. E estive em Aveiro onde tive um momento com o compositor depois do concerto.

hmbf disse...

24 anos. Porra.