segunda-feira, 19 de março de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #38



Se começam a escassear exemplos de alguém que se sinta impelido a adquirir um álbum, muito mais raro será sentir-se necessidade de ter toda a discografia de uma banda. Ao interesse por compilações sobrepôs-se o gozo do tema isolado, fácil de descarregar e de converter em banda sonora momentânea. Interessei-me pelos dEUS desde o início, isto é, desde que deram nas vistas com Worst Case Scenario (1994). Na biografia disponível refere-se que foram a primeira banda belga a assinar por uma multinacional. Conheci-os por mero acaso, no decorrer de uma insónia em casa de amigo com MTV quando a MTV passava música. O concerto, a entrevista, as referências, tudo me atraiu e cativou como se tivesse descoberto o elixir da eterna juventude.


Tal como os conheci, duraram pouco. O baixista Stef Kamil Carlens e o guitarrista Rudy Trouvé ainda aparecem no segundo longa duração In a Bar, Under the Sea (1996), embora já andassem entretidos com outros projectos. Carlens, que vinha de uma banda chamada A Beatband, seguiu caminho pelos Moondog Jr. e pelos Zita Swoon até ao álbum a solo de 2017. Rudy Trouvé dedicou-se aos experimentais Kiss My Jazz, acabando por assinar um álbum a meias com Lou Barlow, dos Sebadoh. Desde então, os dEUS ficaram entregues ao ímpeto criativo de Tom Barman e de Klaas Janzoons, sendo o primeiro responsável pela composição de quase todas as canções do grupo.


É verdade que o tom ecléctico dos dois primeiros álbuns deu lugar a composições mais convencionais, embora seja inegável que tanto The Ideal Crash (1999) como Pocket Revolution (2006) contêm das melhores canções dos dEUS. Tom Barman emprestou algumas delas a filmes de origem diversa. Include me out, por exemplo, belíssima canção do álbum Pocket Revolution, aparece no filme Ben X (2007), de Nic Balthazar. Esta relação com o cinema não é de desprezar numa banda que alimentou desde o início um diálogo de proximidade com as artes visuais, fruto da ligação de Tom Barman ao cinema. Exemplo disso é o filme Para Onde o Vento Sopra (2003), escrito e realizado pelo próprio Barman.


A música dos dEUS não é fácil de caracterizar. Falar de eclectismo, neste caso, é falar de toda uma tradição da música popular que tem na folk e nos blues raízes profundas. Mas se no primeiro álbum são evidentes as influências grunge que então dominavam a cena rock internacional, elas começam a dar lugar a outras linguagens logo no estranho EP de 1995 intitulado My Sister = My Clock. Jazz, soul, funk, revestidos de uma apurada sensibilidade melódica proveniente da música pop, impuseram-se no terceiro registo. Ora explosivos, ora groovy, os dEUS encontram na elegância do violino de Klaas Janzoons a expressão ideal de uma singularidade musical que faz da assimilação de géneros diversos a imagem de marca de um arrebatamento criativo sem preocupações de género. São, sem dúvida, dos mais felizes herdeiros do legado deixado por David Bowie.

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