Se começam a escassear exemplos de alguém que se sinta
impelido a adquirir um álbum, muito mais raro será sentir-se necessidade de ter
toda a discografia de uma banda. Ao interesse por compilações sobrepôs-se o
gozo do tema isolado, fácil de descarregar e de converter em banda sonora momentânea.
Interessei-me pelos dEUS desde o início, isto é, desde que deram nas vistas com
Worst Case Scenario (1994). Na biografia disponível refere-se que foram a
primeira banda belga a assinar por uma multinacional. Conheci-os por mero
acaso, no decorrer de uma insónia em casa de amigo com MTV quando a MTV passava
música. O concerto, a entrevista, as referências, tudo me atraiu e cativou como
se tivesse descoberto o elixir da eterna juventude.
Tal como os conheci, duraram pouco. O baixista Stef Kamil
Carlens e o guitarrista Rudy Trouvé ainda aparecem no segundo longa duração In
a Bar, Under the Sea (1996), embora já andassem entretidos com outros
projectos. Carlens, que vinha de uma banda chamada A Beatband, seguiu caminho
pelos Moondog Jr. e pelos Zita Swoon até ao álbum a solo de 2017. Rudy Trouvé
dedicou-se aos experimentais Kiss My Jazz, acabando por assinar um álbum a meias
com Lou Barlow, dos Sebadoh. Desde então, os dEUS ficaram entregues ao ímpeto criativo
de Tom Barman e de Klaas Janzoons, sendo o primeiro responsável pela composição
de quase todas as canções do grupo.
É verdade que o tom ecléctico dos dois primeiros álbuns
deu lugar a composições mais convencionais, embora seja inegável que tanto The
Ideal Crash (1999) como Pocket Revolution (2006) contêm das melhores
canções dos dEUS. Tom Barman emprestou algumas delas a filmes de origem
diversa. Include me out, por exemplo, belíssima canção do álbum Pocket
Revolution, aparece no filme Ben X (2007), de Nic Balthazar. Esta relação com o
cinema não é de desprezar numa banda que alimentou desde o início um diálogo de
proximidade com as artes visuais, fruto da ligação de Tom Barman ao cinema. Exemplo
disso é o filme Para Onde o Vento Sopra (2003), escrito e realizado pelo
próprio Barman.
A música dos dEUS não é fácil de caracterizar. Falar de
eclectismo, neste caso, é falar de toda uma tradição da música popular que tem
na folk e nos blues raízes profundas. Mas se no primeiro álbum são evidentes as
influências grunge que então dominavam a cena rock internacional, elas começam
a dar lugar a outras linguagens logo no estranho EP de 1995 intitulado My
Sister = My Clock. Jazz, soul, funk, revestidos de uma apurada sensibilidade melódica
proveniente da música pop, impuseram-se no terceiro registo. Ora explosivos,
ora groovy, os dEUS encontram na elegância do violino de Klaas Janzoons a expressão ideal de
uma singularidade musical que faz da assimilação de géneros diversos a imagem
de marca de um arrebatamento criativo sem preocupações de género. São, sem dúvida, dos mais felizes herdeiros do legado deixado por David Bowie.

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