sexta-feira, 2 de março de 2018

VÓMITO


   Há coisa de vinte anos, visitei no Palácio das Galveias uma exposição de pintura austríaca contemporânea. Da Colecção Schömer retive várias referências, entre as quais duas que então muito me impressionaram: Günter Brus e Hermann Nitsch. Deste, exibia-se uma tela de 2 por 3 metros com uma t-shirt branca a cair sobre fundo verde irregular. A t-hirt estava manchada de vermelho, atravessada do pescoço à cintura por um largo traço de vermelho vivo a escorrer pela tela como sangue. Depois de investigar, fiquei a saber da associação de Nitsch a um movimento performativo conhecido por Viennese Actionism. Numa das suas performances, era costume degolar-se um cordeiro seguido de respectiva crucificação. Os esguichos de sangue eram aproveitados como tinta. Evocando liturgias ancestrais, este artista de Viena fascinado por arte sacra teve de enfrentar a justiça em diversas ocasiões. Em algumas delas acabou mesmo preso.


   Günter Brus é outro vienense associado ao accionismo. Produziu diversos trabalhos convertendo a arte de pintar em happening, metamorfoseando a figura do pintor num actor com palco e público. Performances altamente provocatórias fizeram dele o alvo predilecto da censura e dos moralistas. Numa ocasião, passeia-se pelas ruas de Viena tingido de branco, encosta um machado à cabeça, pinta um traço da testa aos pés como se estivesse estilhaçado. Noutra, mutila-se, bebe a própria urina, espalha as suas fezes pelo corpo, masturba-se enquanto canta o hino nacional… Detido, julgado, condenado por afronta aos símbolos nacionais e atentado ao pudor, Brus fugiu para fundar um tal de “governo estético no exílio”. Publicou um romance, poemas visuais, tornou-se com o tempo num dos mais relevantes e radicais artistas europeus do século XX.


   Radical entre os radicais, Otto Muehl ocupa neste movimento um lugar especial. Animais abatidos, sangue, excrementos, sémen, urina, foram os materiais de Muehl em performances escandalosas com o propósito explícito de transgredir. A transgressão estava em trazer à arte a influência de uma violência que o artista bem conheceu: serviu no exército alemão durante a II Grande Guerra. Já na década de 1970, fundou uma comuna com o princípio essencial da partilha. De tudo! O projecto falhou, tendo o grupo sido dissolvido em 1990. Em 1998, depois de julgado e condenado por manipulação psicológica, mudou-se para Faro, no Algarve. Otto Muehl é ainda hoje um paradoxo artístico, não sabemos quanto da sua produção tem de catarse terapêutica ou criação artística.


    Alheio ao movimento vienense, o ucraniano Oleg Kulik tornou-se famoso no domínio da performance por uma peça que podia integrar o legado “accionista”. Interessado no tema da animalidade, colocou-se a si mesmo no papel de cão quando, em Novembro de 1994, concebeu “Mad Dog, or Last Taboo Guarded by alone Cerberus”. Inspirado, por assim dizer, pela brutalidade social, acusando o status quo político da Rússia pós-soviética de tratar os cidadãos como animais, Kulik apresentou-se ao público completamente nu, preso por uma coleira, atacando literalmente as pessoas com mordidelas. Deste “cão danado” são ainda outras e variadas as obras tendo por princípio a interacção com animais.


   Revejo estas obras depois de assistir a mais um telejornal. O alinhamento das notícias, dos factos, relega-as para a absoluta banalidade. Outrora transgressoras, são hoje inofensivas, até patéticas. Quem veja os russos aplaudir Putin depois de aguentar as imagens que chegam da Síria, quem assiste a tudo isto rematado por alienantes leituras da “Vénus de Willendorf”, não deixará de considerar o mundo um teatro da crueldade que relega para planos decorativos quaisquer gestos, por mais violentos que sejam, em contexto artístico. O escândalo vulgarizou-se, deixou de ser escândalo, é o motor de arranque do dia-a-dia noticioso. As aberrações do mundo são quotidianamente assimiladas sem desespero nem inquietação, apenas indiferença, indolência, impotência, acomodação. Se outrora procuravam responder à barbárie com violência, estas performances de índole abjecta são hoje parte integrante de uma fantochada que resume o real a algoritmos. O que pode a arte face à realidade? Nada. Esta ganha sempre, supera o inimaginável, deixa-nos invariavelmente aquém do alívio proporcionado pelo vómito. Hoje, o maior sucesso do indivíduo é envelhecer sóbrio e mentalmente saudável, sem ter sido capturado pela alienação reinante. Nada mais podemos almejar quando entre normal e anormal deixou de haver qualquer definição, tudo se confunde, tudo se mistura, tudo se auto-destrói. 

4 comentários:

maria disse...

Hoje, o maior sucesso do indivíduo é envelhecer sóbrio e mentalmente saudável, sem ter sido capturado pela alienação reinante.

true!

hmbf disse...

Variante "isto anda tudo doido".

maria disse...

por isso me sabe tão bem a minha vida de eremita. se amalucar prego para as árvores e grito ao vento. :) (ilusão, doce ilusão)

MJLF disse...

os action vianenses foram os expressionistas dos anos 60 e 70, período em que as produções artísticas ainda abanavam o que estava instituído. saúde ;)