sexta-feira, 9 de março de 2018

MENTIRA


Viver uma mentira não é exactamente o mesmo que viver na mentira. Toda a gente percebe a diferença, excepto quem viva na mentira. Porque quem vive na mentira acaba por julgar que vive a verdade. Então o que pela lógica distingue falso e verdadeiro deixa de fazer sentido, o teorema é outro, a fórmula é outra, a percepção é outra. O silogismo perde-se numa zona cinzenta, dúbia, crepuscular, o princípio de não contradição é: esta mentira é a minha verdade. Logo, tudo quanto assimile do mundo será filtrado pela minha verdade. O outro poderá acusar-me de ilusão, de preconceito, mas o outro não vive na minha mentira. Eu é que vivo. Como poderei eu sair da minha mentira? Estarei disposto a aventurar-me fora da minha mentira? Não. É como passar a vida inteira, inteira é completa, completa é total, total é absoluta, é como passar a vida passando pela vida. Há momentos de lucidez, chamemos-lhe assim. Momentos em que a pessoa se questiona, duvida. Mas acaba sempre por regressar à sua mentira, não porque lhe seja mais confortável, nem sempre será, nem por mero comodismo, poderá até ser por sacrifício. Por que regressa? Por nada ser mais difícil na vida do que admitir que se passa pela vida, ou seja, por nada ser mais difícil do que reconhecer o tempo perdido. O tempo perdido é uma tortura, a mais dolorosa, eficaz e silenciosa das torturas. A tomada de consciência do tempo perdido é aquela morte para quem ninguém deseja uma vida, uma vida depois dessa morte será sempre uma vida de sofrimento, um verdadeiro inferno.

6 comentários:

Take Direto disse...

Tão bom!
Obrigado!

hmbf disse...

De nada.

Ivo disse...

100%... Verdade

Ivo disse...

Perdoa-me a intrusão, mas já sabes" "... Se questione, duvida." & "Porque regressa?"
:)

Ivo disse...

"... Se questiona, duvida." Porra dos corretores automáticos!

hmbf disse...

:-)

Agradecido.