segunda-feira, 19 de março de 2018

UM CÃO


   O Basquiat está connosco praticamente desde que viemos viver para Caldas da Rainha. Foi-me oferecido por um bom homem que já não se encontra entre nós. Trouxe-o para casa depois de uma noite de copos, veio a ganir o tempo todo. Quando chegámos, coloquei-o na nossa cama, peguei na mão da minha mulher e deixei-a cair pausadamente sobre a bola de pêlo. Ela ficou delirante. 
   O Basquiat trouxe-nos alegria, foi um elo que ao longo de dezassete anos assistiu a tudo: ao nascimento das filhas, às crises, às discussões, ao amor, à paixão, à raiva, às frustrações, ao medo, à solidão, aos momentos de tristeza, aos momentos de alegria. Esteve sempre presente, como só um cão sabe estar. Jamais hei-de esquecer o contentamento com que nos recebia no regresso de um qualquer período de ausência, os pulos que dava da cama para o chão e do chão para a cama, o faro impecável com que superava todos os desafios, a agitação quando nos pressentia estados emocionais alterados. E a gulodice. Nunca vi cão tão guloso e tão persistente na afirmação dessa gulodice. 
   Os últimos anos têm sido desesperantes. Assistir à decadência do animal é, de certa forma, percepcionar a nossa decadência projectada num companheiro de há muito. Ficou surdo, cego, perdeu dentes, várias faculdades. Ontem teve o que parece ser um AVC, não consegue manter-se de pé. Deixámo-lo no hospital veterinário à espera do telefonema, aquele telefonema que clarifique se ele aguenta mais decadência ou se é preferível poupá-lo a esforços desnecessários. 
   Nos últimos tempos, pedi muitas vezes que morresse. Agora não suporto a ideia de ficar sem ele. Tento mentalizar-me de que é só um cão. Mas não é só um cão. Entre os muitos textos que lhe dediquei ou naqueles em que o referi, reparo que ele nunca aparece apenas como cão. E isso entristece-me. Um cão deve ser apenas um cão, um projecto da natureza, não um projecto nosso. Gosto deste texto (aqui), parece-me que pelo menos ali ele foi apenas um cão… Não o meu cão, um cão.

3 comentários:

MJLF disse...

O Basquiat! Uma abraço para toda a tribo bjs

Sandra Costa disse...

Um cão nunca é apenas um cão. Os dois textos são muito bonitos. Abraço. Que não sofra(m) muito. :(

panaceia disse...

Os animais, neste caso concreto os cães, são uma excelente companhia e de uma gratidão imensa O King, que está no Alentejo em casa dos meus pais, assim que chego corre para mim, põe as suas patas nas minhas pernas a pedir festas e passeios. Damos longas caminhadas e "conversamos". Espero que o Basquiat esteja melhor e, no caso de ser irreversível que não sofra Um abraço Henrique