quarta-feira, 4 de abril de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #39



   A primeira vez que vi Benjamin Clementine (n. 1988) ao vivo foi no Coliseu dos Recreios. Apresentou-se a público sentado ao piano e raramente se levantou. Trazia por companhia um baterista. Piano e percussão chegaram para encher a sala, abarrotada e rendida às canções de At Least For Now (2014). A imprensa referira-se ao álbum e às actuações do jovem compositor enfatizando dados biográficos que não terão sido alheios ao público, gerando por detrás de cada palavra uma intensidade emocional de espanto e comoção.
   I Tell a Fly (2017), o segundo álbum, veio complicar as contas. As baladas despojadas, românticas, deram lugar a composições complexas, a estruturas dramáticas que aproximaram da ópera música e poema.
   Na Praça de Touros do Campo Pequeno, Clementine apresentou-se recentemente acompanhado de bateria e baixo, um guitarrista revezando-se nas programações, uma secção rítmica chamada a espaços. No palco, constavam diversos manequins: crianças, homens, mulheres grávidas. Quando o xamã ficava a solo, os restantes músicos passeavam-se como se fossem transeuntes. Havia toda uma encenação que nos transportava para diversas camadas das canções de Benjamin Clementine. Comunicativo, interventivo, este transformou-se num magnífico performer. A meio de um tema como Condolence, salta do piano para dirigir o público no papel de maestro. Quer ouvir-nos cantar versos que percebe serem determinantes em qualquer parca existência humana: I’m sending my condolence to fear / I’m sending my condolence to insecurities. Ele é o maestro, nós os meninos de coro. Aceitamos o lugar como uma evidência.
   By The Ports of Europe, do segundo álbum, dá lugar a momentos delirantes. À capela, Benjamin junta-se ao baterista, ao guitarrista, ao baixista e imiscuem-se no meio do público. Dão uma volta à Praça cantando repetidamente Porto Bello! / Porto Bello!, pseudo-refrão de uma canção com refugiados em pano de fundo. Tudo isto faz parte do espectáculo, mas é mais do que mero espectáculo. É um momento de comunhão, de catarse, de expurgação, dirigido por um xamã que nos caiu do céu como anjo negro.
   Nascido em Londres, descendente de ganeses, este jovem que, diz-se, há cinco anos andava a viver na rua, enche agora salas rendidas a uma impressionante plasticidade vocal, a voz de um poeta que em canções como London, Nemesis, Adios, God Save the Jungle, Jupiter, Phantom of Aleppovile, percorre cenários, penetra almas, atravessa tempos assimilando formas, géneros, figuras. Quando o ouvimos é como se nos tivesse sido oferecida uma rara oportunidade de sair da caverna, de presenciar a luz por detrás dos objectos. Assistir à verdade para lá das sombras, numa paradoxal relação que a arte, toda ela encenação, logra quando se expõe enquanto oferenda. Benjamin Clementine oferece-se-nos em cada uma das suas interpretações, temos de lhe ficar agradecidos pelo que já nos proporcionou.


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