quinta-feira, 12 de abril de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #40



   Regresso amiúde a esta porta. Não preciso bater, abre-se instantaneamente à minha chegada. Teria a idade da minha filha Beatriz quando ouvi pela primeira vez Break on Through. Como pode uma criança de 10, 11, 12 anos apaixonar-se pelos blues de Willie Dixon e Howlin’ Wolf? Como pode ela perceber uma canção de Kurt Weill com poema de Brecht? Learn to forget, learn to forget, learn to forget…
   Ainda antes de ter sido poeta, antes de ter sido estrela do rock & roll, James Douglas Morrison foi estudante de teatro e de cinema, leitor de Rimbaud e de Nietzsche. Alguma coisa há-de ter ficado desses tempos, algo posteriormente repercutido em palco, nas performances, na colocação da voz e nos movimentos do corpo, na inclinação para a spoken word em contextos que lhe eram estranhos. The Unknown Soldier é teatro, The Celebration of the Lizard é poesia, Riders on the Storm a banda sonora por excelência de uma grande aventura.
   O primeiro álbum dos The Doors surgiu em 1967. Nesse mesmo ano publicariam o segundo. Se no álbum homónimo as influências eram evidentes, com as devidas citações e caminho desbravado para o espanto, em Strange Days a singularidade impôs-se sem discussões. Que disco! Hoje talvez seja difícil abstrair os acordes iniciais de The End da mise en scène que Francis Ford Coppola lhes ofereceu em Apocalypse Now, talvez o solo de Ray Manzarek em Light My Fire se tenha tornado redundante, mas quem poderá resistir à letra de Strange Days, ao riff de People Are Strange, à voz de Morrison em You’re Lost Little Girl, à estranheza surrealista de Horse Latitudes a preceder um sereno convite na direcção lunar?
   A questão mantém-se, não foi esquecida. Como pode uma criança apaixonar-se por blues? E pela poesia de Brecht? The Doors. Tantas foram as portas que abriram, tantas foram as janelas que escancararam, mostrando-nos panorâmicas para as quais talvez não estivéssemos preparados. Recordamos com nostalgia esse tempo em que uma canção nos despertava para o diverso e vamos à procura, tentamos reencontrar a porta atrás da qual se esconde um som nunca ouvido, ou talvez apenas esquecido, adormecido. De vez em quando, regressamos em busca desse som e nunca deixamos de nos espantar com a fertilidade do viveiro. Tanta coisa a acontecer por detrás dessa porta que a percepção descerra permitindo-nos ir além dos preconceitos, das ideias feitas, dos lugares comuns com que organizamos diariamente as agendas do tédio e da repetição e da rotina.
   A rapariga infeliz, reclusa numa prisão da sua própria imaginação, está agora mesmo a bater à porta. Perguntamos-lhe em que podemos ajudar, ela responde-nos com uma voz suave que entre o canto e a dança há música inaudível. Música no espaço ocupado pelas sombras. A música ainda não morreu, ainda não morreu, mesmo que os traços do teu rosto tenham esmaecido num recôndito lugar da mente.  

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