Regresso amiúde
a esta porta. Não preciso bater, abre-se instantaneamente à minha chegada.
Teria a idade da minha filha Beatriz quando ouvi pela primeira vez Break on
Through. Como pode uma criança de 10, 11, 12 anos apaixonar-se pelos blues de
Willie Dixon e Howlin’ Wolf? Como pode ela perceber uma canção de Kurt Weill
com poema de Brecht? Learn to forget,
learn to forget, learn to forget…
Ainda antes de
ter sido poeta, antes de ter sido estrela do rock & roll, James Douglas
Morrison foi estudante de teatro e de cinema, leitor de Rimbaud e de Nietzsche.
Alguma coisa há-de ter ficado desses tempos, algo posteriormente repercutido em
palco, nas performances, na colocação da voz e nos movimentos do corpo, na
inclinação para a spoken word em contextos que lhe eram estranhos. The Unknown
Soldier é teatro, The Celebration of the Lizard é poesia, Riders on the Storm a
banda sonora por excelência de uma grande aventura.
O primeiro álbum
dos The Doors surgiu em 1967. Nesse mesmo ano publicariam o segundo. Se no
álbum homónimo as influências eram evidentes, com as devidas citações e caminho
desbravado para o espanto, em Strange Days a singularidade impôs-se sem
discussões. Que disco! Hoje talvez seja difícil abstrair os acordes iniciais de
The End da mise en scène que Francis Ford Coppola lhes ofereceu em Apocalypse
Now, talvez o solo de Ray Manzarek em Light My Fire se tenha tornado
redundante, mas quem poderá resistir à letra de Strange Days, ao riff de People
Are Strange, à voz de Morrison em You’re Lost Little Girl, à estranheza
surrealista de Horse Latitudes a preceder um sereno convite na direcção lunar?
A questão
mantém-se, não foi esquecida. Como pode uma criança apaixonar-se por blues? E
pela poesia de Brecht? The Doors. Tantas foram as portas que abriram, tantas
foram as janelas que escancararam, mostrando-nos panorâmicas para as quais
talvez não estivéssemos preparados. Recordamos com nostalgia esse tempo em que
uma canção nos despertava para o diverso e vamos à procura, tentamos reencontrar
a porta atrás da qual se esconde um som nunca ouvido, ou talvez apenas
esquecido, adormecido. De vez em quando, regressamos em busca desse som e nunca
deixamos de nos espantar com a fertilidade do viveiro. Tanta coisa a acontecer
por detrás dessa porta que a percepção descerra permitindo-nos ir além dos
preconceitos, das ideias feitas, dos lugares comuns com que organizamos
diariamente as agendas do tédio e da repetição e da rotina.
A rapariga
infeliz, reclusa numa prisão da sua própria imaginação, está agora mesmo a
bater à porta. Perguntamos-lhe em que podemos ajudar, ela responde-nos com uma
voz suave que entre o canto e a dança há música inaudível. Música no espaço ocupado
pelas sombras. A música ainda não morreu, ainda não morreu, mesmo que os traços
do teu rosto tenham esmaecido num recôndito lugar da mente.

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