Em memória do Basquiat.
Os anos 90, esses saudosos anos em que três malucos de
Aberdeen fizeram ressuscitar o rock de guitarras. Bem sei, os Pixies estavam no
activo desde 1988 e os Sonic Youth desde 1982. Porém, o sucesso obtido pelos
Nirvana com Nevermind (1991) veio redistribuir as cartas sobre a mesa. Nada
voltaria a ser como era. Começou a falar-se de grunge, coisa que ainda hoje
ninguém sabe bem o que significa. A raiz punk está lá, mas também o heavy metal
da década de 1970, o chamado rock alternativo onde podemos incluir tudo aquilo
que escape aos velhos rótulos.
Fuga aos velhos rótulos. 1992 será um ano
marcante em termos de fugas. O horizonte tem agora a defini-lo uma linha de
fumo, os sonos ficam trocados, há prédios à nossa volta, em vez de árvores,
cimento em vez de areeiros. Recordar-se-ão dos Rage Against the Machine e dos Faith
No More, cozinhando um som pesadão mas atractivo que apelava tanto a movimentos
hip hop como a posturas heavy metal. Certo. Mas 1992 foi também o ano em que do
nada apareceu uma banda de rock, isso mesmo, sem guitarras, isso mesmo. E a
isso sim, demos o nome de inovação.
Em 1992, oriundos de Cambridge, os Morphine publicaram o
álbum de estreia: Good. Eram um trio, tal como os Nirvana, mas não eram um trio
convencional. Em vez de guitarra, bateria e baixo, eram um trio composto por
bateria, saxofone e baixo. Porra, ainda por cima por um baixo com apenas duas
cordas. Que provocação! À primeira audição era natural a estranheza, o espanto,
o desconforto. Chegava-se a um tema como You Look Like Rain e dizia-se: jazz. Escutava-se
I Know You e apontava-se o dedo: Tom Waits. Mas a voz e o baixo de Mark Sandman
enviavam-nos para regiões mais próximas da pop. E os saxofones de Dana Colley
por vezes sopravam com mais intensidade e raiva que duas ou três guitarras em desgoverno
punk.
Os Morphine trouxeram estranheza ao ano de 1992, não
encaixavam naquela coisa do grunge. E no entanto… As prestações ao vivo eram
igualmente enérgicas, os temas das canções claros, directos, viscerais, pese
embora a melancolia distribuída a espaços por versos altamente terapêuticos.
Morphine, o nome do trio. Talvez só tenhamos começado a perceber bem ao que
vinham estes Morphine ao segundo álbum, quando muita gente dizia que o formato
facilmente se esgotaria.
Cure For Pain (1993) é pura medicina alternativa. É certo
que muito a espaços acrescentaram um órgão e uma guitarra acústica discretíssimos,
como em Buena — tema de inspiração funk, tal como All Wrong —,
que não fosse o que é podia ser uma coisa assim tipo Rage Against the Machine. Mas
logo a seguir deparamos com o refrão pop de I’m Free Now, as melodias sedutoras
de Candy e In Spite of Me, os apontamentos de saxofone ao melhor estilo hard
bop em A Head with Wings, o rock’n roll de Thursday, a inspiração folk de Mary
Won’t You Call My Name, o ambiente soturno de Let’s Take a Trip Together, uma
canção-medicamento, a única que por ora nos apetece ouvir, em repeat:

1 comentário:
Nunca tinha ouvido esta banda, gostei logo à primeira. Excelente recomendação.
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