sábado, 21 de abril de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #41



Em memória do Basquiat.

   Os anos 90, esses saudosos anos em que três malucos de Aberdeen fizeram ressuscitar o rock de guitarras. Bem sei, os Pixies estavam no activo desde 1988 e os Sonic Youth desde 1982. Porém, o sucesso obtido pelos Nirvana com Nevermind (1991) veio redistribuir as cartas sobre a mesa. Nada voltaria a ser como era. Começou a falar-se de grunge, coisa que ainda hoje ninguém sabe bem o que significa. A raiz punk está lá, mas também o heavy metal da década de 1970, o chamado rock alternativo onde podemos incluir tudo aquilo que escape aos velhos rótulos.
   Fuga aos velhos rótulos. 1992 será um ano marcante em termos de fugas. O horizonte tem agora a defini-lo uma linha de fumo, os sonos ficam trocados, há prédios à nossa volta, em vez de árvores, cimento em vez de areeiros. Recordar-se-ão dos Rage Against the Machine e dos Faith No More, cozinhando um som pesadão mas atractivo que apelava tanto a movimentos hip hop como a posturas heavy metal. Certo. Mas 1992 foi também o ano em que do nada apareceu uma banda de rock, isso mesmo, sem guitarras, isso mesmo. E a isso sim, demos o nome de inovação.
   Em 1992, oriundos de Cambridge, os Morphine publicaram o álbum de estreia: Good. Eram um trio, tal como os Nirvana, mas não eram um trio convencional. Em vez de guitarra, bateria e baixo, eram um trio composto por bateria, saxofone e baixo. Porra, ainda por cima por um baixo com apenas duas cordas. Que provocação! À primeira audição era natural a estranheza, o espanto, o desconforto. Chegava-se a um tema como You Look Like Rain e dizia-se: jazz. Escutava-se I Know You e apontava-se o dedo: Tom Waits. Mas a voz e o baixo de Mark Sandman enviavam-nos para regiões mais próximas da pop. E os saxofones de Dana Colley por vezes sopravam com mais intensidade e raiva que duas ou três guitarras em desgoverno punk.
   Os Morphine trouxeram estranheza ao ano de 1992, não encaixavam naquela coisa do grunge. E no entanto… As prestações ao vivo eram igualmente enérgicas, os temas das canções claros, directos, viscerais, pese embora a melancolia distribuída a espaços por versos altamente terapêuticos. Morphine, o nome do trio. Talvez só tenhamos começado a perceber bem ao que vinham estes Morphine ao segundo álbum, quando muita gente dizia que o formato facilmente se esgotaria.
   Cure For Pain (1993) é pura medicina alternativa. É certo que muito a espaços acrescentaram um órgão e uma guitarra acústica discretíssimos, como em Buena tema de inspiração funk, tal como All Wrong , que não fosse o que é podia ser uma coisa assim tipo Rage Against the Machine. Mas logo a seguir deparamos com o refrão pop de I’m Free Now, as melodias sedutoras de Candy e In Spite of Me, os apontamentos de saxofone ao melhor estilo hard bop em A Head with Wings, o rock’n roll de Thursday, a inspiração folk de Mary Won’t You Call My Name, o ambiente soturno de Let’s Take a Trip Together, uma canção-medicamento, a única que por ora nos apetece ouvir, em repeat:


1 comentário:

Rui disse...

Nunca tinha ouvido esta banda, gostei logo à primeira. Excelente recomendação.