Há 44 anos, era eu semente a germinar no ventre de uma
mulher, tal a democracia que hoje celebramos então a desabrochar no ventre da
pátria. Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde,
educação, cantava Sérgio Godinho por esses dias. E continua a cantar, com a
mesma pertinência de outrora, em ritmo funk sem tempo nem situação. Nesses idos
de 1974, Godinho vivia em Vancouver, onde se fixara em 1973, depois de ter
fugido ao serviço militar com paragens na Suíça, Holanda, França… Aqui viveu de
perto o Maio de 68. Numa passagem pelo Brasil, ao serviço de companhia de
teatro internacionalmente reconhecida, experimentou a prisão. Tinha já
publicado dois álbuns com os títulos Os Sobreviventes (1971) e Pré-Histórias
(1972).
Sérgio Godinho, actor, escritor de canções, de poemas, de
contos, de romances, mantém-se no activo. Já este ano da (des)graça de 2018 presenteou-nos
com um belíssimo conjunto de canções a que deu o título Nação Valente. Enquanto
se discursa na AR com costumeira pomposidade, é dele que me lembro, do cão raivoso cantado
À Queima Roupa (1974): Mais vale ser um cão raivoso / do que um carneiro / a
dizer que sim ao pastor / o dia inteiro… E vem-me à memória uma imagem batida,
reencontrada há dias não consigo agora explicitar onde (arquivos da RTP?), um
concerto como então se fazia, ali para os lados de Torres Novas (Torres
Vedras?), muito ao estilo do registo folk que na década de 1960 disseminava
palavras de ordem contra a exploração do homem pelo homem.
À Queima Roupa surgiu em Dezembro de 1974, com a urgência
que os tempos impunham, gravado algures entre Vancouver e Lisboa. Algumas
canções de índole revolucionária, porventura instaladas no seu tempo, tais como
Independência, pela libertação das colónias, e O Grande Capital, pela
libertação da pátria, rivalizam com grandes temas sem tempo nem espaço. As que
melhor resistiram, pela insistência em colectâneas e alinhamentos de concertos,
terão sido Liberdade, Os Pontos nos Iis, Etelvina. Mas temas como Cão Raivoso,
A Minha Cachopa, a belíssima balada Assim Como Um Postal Para o Canadá, O Meu
Compadre mantêm o sentido inicial intacto. A espaços, para mal dos nossos pecados. Com uma secção rítmica forte, À
Queima Roupa tem momentos inesperadamente simples e eficazes:
Foi. Da racha ficámos a ver o futuro inalcançável das
promessas, educados para o que se perdeu, perdidos para a educação,
comprometidos com a derrota e o fracasso. Estamos melhor, sem dúvida. Mas era
isto que se pretendia? 44 anos de democracia ofereceram-nos a liberdade de
mandar à merda o sistema, de dizer cobras e lagartos de um país mais velho que
as coisas velhas, onde tudo parece ainda andar aconchegado num xaile negro com
cheiro a mofo. Políticos na cama com empresários corruptos e corruptores, uma
sociedade civil de mirones a masturbar-se com o espectáculo degradante desta
orgia. Tanto por fazer, tanto por fazer, por faltar à indignação espúria dos
desalojados e dos lesados e dos explorados uma vontade enérgica de mudar. Acomodados
na servidão e no servilismo, cá vamos andando… com a cabeça entre as orelhas e
o rabo entre as pernas. Somente cães domesticados, muito pouco de raiva, justificando
a nova canção:

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