sexta-feira, 20 de abril de 2018

COCHE ARDENTE




Uma noite, no Verão, quando Konrád e a mãe do general tocavam uma peça para quatro mãos no palácio, algo aconteceu. Estavam sentados na sala grande, antes do jantar, e o oficial da guarda e o filho escutavam educadamente a música num canto, com aquela condescendência cortês e aquela paciência de alguém que diz: «A vida é um dever, também se deve suportar a música. Não é conveniente contrariar as senhoras.» A mãe tocava com paixão: interpretavam a Fantaisie polonaise de Chopin. Como se tudo tivesse começado a vibrar no quarto. Pai e filho sentiam, no canto da sala, na poltrona, enquanto esperavam educada e pacientemente, que nos dois corpos, no corpo da mãe e no de Konrád, alguma coisa se estava a passar. Como se a rebelião da música tivesse levantado a mobília, como se uma força atrás da janela agitasse as cortinas pesadas de seda, como se tudo o que os corações humanos haviam enterrado e que era gelatinoso e bafiento, começasse a viver, como se no coração de cada pessoa se ocultasse um ritmo mortal que num terminado momento da vida, começava a pulsar com uma força tremenda. Os ouvintes pacientes perceberam que a música era perigosa. Mas os dois ao piano, a mãe e Konrád, não se preocupavam com esse perigo. A Fantaisie polonaise era apenas um pretexto para que as forças irrompessem no mundo que moviam, fazendo explodir tudo o que a ordem humana escondia tão cuidadosamente. Estavam sentados rígidos diante do piano, direitos, com o tronco esticado e ligeiramente inclinado para trás, como se a música lançasse um coche ardente, puxado por cavalos míticos e invisíveis, e no meio da tempestade e da corrida no espaço fossem eles, de corpo hirto e mãos firmes, a segurar as rédeas das forças desencadeadas. Depois, com o toque de um único acorde, acabaram. Um raio de sol da tarde penetrava na janela grande, no feixe da luz girava a poeira dourada, como se atrás do coche divino da música que corria para longe, guiado por cavalos, se erguesse uma nuvem de pó ao longo do caminho celestial que conduzia à destruição e ao nada.

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim, trad. Mária Magdolna Demeter, Publicações Dom Quixote, 1.ª edição Outubro de 2001, 28.ª edição Janeiro de 2017, pp. 38-39.

3 comentários:

Gil António disse...

Visitando, vendo, lendo e elogiando as suas publicações. Voltarei....
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* Criança brincando ... em interno lamento. *
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Cumprimentos poéticos.

hmbf disse...

Caro Gil, obrigado.

panaceia disse...

Já li e reli este livro do Sándor Márai (para mim o melhor dele). Uma amizade entre dois homens que nem a paixão pela mesma mulher destrói. Abraço e lamento imenso pelo Basquiat ...