quarta-feira, 18 de abril de 2018

MAIS UMA TERÇA-FEIRA SE PASSOU


Um texto habitado por fantasmas. Reconhece-se pelo óxido de ferro. 


Longe, junto a um rio, há uma casa feita de palavras. Um castor velho ocupa-se a suprimir-lhe as excrescências.


Desço a calçada do general. Poupo palavras. Regresso. Confirmo a morada. A casa de passar as tardes. O meu guardião consome oxigénio. Saúdo-o. Na calçada começa a rolar uma esfera de cinza. A náusea vem depois.


O concon é um peixe-crustáceo. A sua captura é um jogo de sedução. Devolve-nos o passado e fere o sabor. Não deveria ter nome.


Uma vontade de chorar quando o corpo se excede. A morada torna-se habitável. Perto do júbilo.


A chuva desagrega a cidade. É preciso olhar de novo. Passado o engano, abrigo-me no escuro.


Ao meu guardião, no seu elemento, entrego as palavras. Todas as palavras. Próximas do limite.


Falamos sobre limites. Sobre elementos. Sobre repetições.


Amanhã, o meu guardião cumprirá, renovando, o seu elemento. Partirei em busca de outras águas. E a eterna dúvida será a nossa comum perturbação. Agora, na noite, pode esboçar-se o risco infinito da morte. À superfície das águas.


Um dia, eu e o meu guardião tornar-nos-emos sábios. De olhos baços, abandonaremos de vez a ilusão de poder ver. 

(...)


Fotografias de Ricardo Aurélio. Texto de Carlos Alberto Machado, de Na Casa de Passar as Tardes (2003-2004), in Registo Civil, poesia reunida, 2000-2006, Assírio & Alvim, Novembro de 2009, pp. 239-240.

Nota: Devo um agradecimento público ao Fernando Mora Ramos por me ter desafiado a organizar estas sessões. Desconfiado no início, à quarta estou convencido do quanto me têm sido gratificantes as terças no teatro. Ontem, com a ajuda preciosa do José Ricardo Nunes, na companhia do Carlos Alberto Machado. Sala cheia, emoções, conversa, leituras, boa onda. Em Maio, dia 15, teremos connosco o Miguel-Manso e o Pedro Mexia. 

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