terça-feira, 24 de abril de 2018

OCORRÊNCIA


De que nos vale o amor quando é distância,
duas margens separadas pelo leito da morte
onde correm palavras mudas, gestos sem tacto,
a memória de um cheiro a desvanecer,
de que vale o vazio aberto entre duas sombras,
alçapão sem fundo albergando dolorosa nostalgia,
a tristeza adocicada dos melancólicos
que lambem feridas com retratos,
de que vale esperar sem fim pelo fim,
o horizonte utópico de um segredo mal contado,
uivo perdido na atmosfera, som sem rosto?
De que nos vale a memória de um amor
quando a ausência ascende a substância,
tudo o que sobrava se desmaterializa e transforma
em nada, apenas vazio, termo, ocorrência, desfecho.



(inédito)

2 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

Vale-nos um poema como este que há de salvar o dia de alguém. E já é tanto.

Ana Alexandre disse...

Há que não deixar o vazio tomar conta das memórias. Bonito poema, tão sentido também em mim.