sexta-feira, 6 de abril de 2018

UMA FOTOGRAFIA


«Fotografar é um acto, reflectir é uma meditação crítica, anterior e posterior ao acto. Fotografar é um acto essencialmente emotivo, reflectir é cosa mentale. Escrever é reduzir a papel o resultado da reflexão», explicava Gérard Castello-Lopes. Entre o acto emotivo de fotografar e o exercício delimitador de escrever, a reflexão surge em diversos momentos. Antes da fixação de um fragmento da realidade, depois da imagem revelada, desbravando caminho para a escrita, após a escrita. E são tantos os olhares cruzados neste processo. No olhar do fotógrafo estará a origem da reflexão, a qual provocará ao longo do tempo, sob a forma de imagem revelada, encontros mais ou menos acidentais com outros olhares e com novos modos de reflectir.
   Organizadas por temas, as fotografias surgem-me a salvo do caos característico de qualquer espólio. Noto que num dos envelopes foi escrita a palavra “ruína”, conceito poético por excelência. Naquele que é ainda hoje considerado o grande poema do pós-Guerra, vindo a lume em 1922, escrevia T. S. Eliot: «Vou mostrar-te o medo num punhado de poeira». A poeira eram os cenários de destruição e de devastação projectados pela I Grande Guerra, experiência limite de um momento de crise na putativa harmonia do mundo. A poeira era uma civilização em ruínas. E o medo era o de ir vivendo entre destroços: «Nós que éramos vivos agora vamos morrendo / Com alguma paciência».
   Ali, um soldado procura orientar-se na encruzilhada do território desfigurado; acolá, a fachada de um edifício tal corpo mutilado nas trincheiras; além, homens fardados, uns a pé, outros montando cavalos, circulam numa avenida ornada de entulho e de escombros. Num dos edifícios em ruínas percebe-se a palavra “menuiserie”, que em francês significa carpintaria. Apontamento de uma ironia desconcertante. Mas entre todos estes fragmentos de um tempo ruinoso, há uma imagem que me cativa em particular. Disposta na vertical, mostra-nos o ângulo parcialmente desfeito que liga a fachada de um edifício a uma das suas laterais. No topo da fachada, resiste a palavra “gare” de um letreiro que se supõe mais extenso. A meio da lateral, observamos à lupa um anúncio às Clément Cycles. Encostados a essa parede, sentados, em posição descontraída, uma fila de seis militares a ler.
   Podemos imaginar o que liam, jornais, revistas, livros, correspondência, instruções. Manuais de sobrevivência. Observamos ainda um outro militar, ligeiramente afastado, de pé. Não conseguimos perceber exactamente a sua postura, supomos que observe o horizonte com as mãos em pala sobre a testa. Por que me cativa esta imagem? Por haver nela uma poética do instante. Por detrás da objectiva que fixou o instante, havia o olhar inteligente de um homem capaz de perceber a poesia do momento. Um momento de suspensão, de interrupção, um momento em que o tempo escoroado na paisagem de ruína surge descontinuado por homens com os olhos postos num horizonte de esperança. Um livro, uma carta, um jornal, transportá-los-á dali para outro lugar como uma espécie de Clément Cycles do pensamento. Que mais se pode pedir à arte?



Nota: originalmente publicado na Gazeta das Caldas, n.º 5219, de 30 de Março de 2018. Também aqui. Um agradecimento a Isabel Xavier, dedicada investigadora do Património Histórico-Grupo de Estudos, em Caldas da Rainha, pelo convite. Mais informações sobre Fernando da Silva Correia podem ser obtidas: aqui.

Sem comentários: