terça-feira, 29 de maio de 2018

O SAL DA TERRA

   «Vós sois o sal da terra.» Quem é o sal da terra? Por mim, acho que são as pessoas mais ou menos (ou até completamente) marginais: as que protestam contra, contestam, põem dúvidas sobre, ignoram ou não levam a sério, riem de, gozam com - a sociedade onde (por acaso, dizia o outro) se encontram. Vê a gente uma cidade e repara logo que ela respira pelo lado da irregularidade. A irregularidade que cria, evidentemente. Os lugares estão cheios de bom comportamento, entradas e saídas nos escritórios, tanto de largura e altura para as intenções e os actos, os respeitosos cumprimentos a vossências - e a irremediável venda de cada um, a curto ou a longo prazo. Ele é tudo almas à comissão ou à consignação. Mas eis que aparecem os extravagantes, os originais, os bizarros, os exóticos, os despassarados, os que não, os que trazem uma lá deles no meio da cabeça esfuziante. Eles são o sal da terra.


Herberto Helder, in em minúsculas - crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola, Porto Editora, Abril de 2018, p. 112.

URBI ET ORBI

Parece haver qualquer coisa de infantil no fascínio que no mundo actual as máquinas exercem junto de um grande número de pessoas. No contexto do industrialismo virtual e do capitalismo internético, a associação da máquina a um brinquedo é quase inevitável. Quando no fim dos anos 90 se propagou urbi et orbi a deslumbrada excitação com um aparelhómetro digital chamado Tamagochi, fabricado por uma empresa japonesa de brinquedos e jogos electrónicos (a quarta mundial deste sector), esse comercial fenómeno de adesão não pôde deixar de surpreender quem o observasse de fora, ao ver a dependência que imediatamente criou entre os «adeptos», adultos e crianças. Este objecto (que em 2017 foi relançado pela mesma empresa, obviamente com belas inovações técnicas e de imaginário) consiste em criar uma ficção compulsiva: cuidar, a tempo e horas, de um «animalzinho», como se ele fosse real - dar-lhe «comida», «bebida», «banho», «carinhos», tudo virtual. Na nova versão, o Tamagochi é vendido «com uma opção de família»: comunicando com outro, pode ter filhos, os quais poderão depois casar, etc. E este novo produto já promoveu «aplicações» graças às quais o usuário (ou deveremos dizer utente?) pode cuidar de um alienígena, entrando assim em contacto com os tão apetecidos mundos extraterrestres para onde os humanos irão, um dia destes, morar e reproduzir-se, quando a Terra estiver finalmente inabitável...

Júlio Henriques, in Humano Aumentado, revista Flauta de Luz, n.º 5, Abril de 2018, pp. 10-11.

domingo, 27 de maio de 2018

PAISAGENS POSSÍVEIS PARA A CONSTRUÇÃO DA MINHA CASA


Falemos de Casas
texto para catálogo da exposição
Paisagens possíveis para a construção da minha casa
de Luís Rodrigues

24 de Maio da 28 de Junho de 2018
no Espaço António Borges Coelho
do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa

(mais informações: aqui)

(...)

   Há quem não se contente com a superfície e então escava, mete o braço de fora, força, sobe e desce, arromba, desbrava, à procura do que possa estar para lá da superfície. E então a superfície surge-nos com a textura do relevo. Para lá da superfície há sempre mais superfície. Esta tendência de andarmos para lá dos nossos passos, de imprimirmos o nosso corpo nas sombras, transformando-o numa espécie de fantasma carnívoro, é algo que se nos apresenta indecifrável. Por que razão não nos contentamos com a superfície das coisas? Não nos chega sabermos onde metemos o pé, temos sempre de saber o que se esconde por baixo do terreno onde assentamos o pé. Julgo haver melancolia nesta ansiedade, a mesma que nos reprime junto do outro. Os relevos, nestes trabalhos de Luís Rodrigues, oferecem à superfície um exterior que, paradoxalmente, parece vindo de dentro das casas como um som que atravessa as paredes pela fresta da intimidade. São a figuração do desejo, espécie de utopia da serenidade.

(...)

A LER

Eutanásia: o liberal no seu labirinto, por Vasco M. Barreto, aqui:


Uma boa lei da eutanásia, que previna as derrapagens que foram entretanto identificadas na Holanda e na Bélgica, que evite decisões tomadas em estado de depressão ou influenciadas por parentes perversos e atenda também às preocupações dos médicos e enfermeiros que praticarão o acto, parece-me uma medida sensata e inevitável a prazo numa sociedade em que haja verdadeira separação entre o Estado e a Religião e em que a liberdade individual seja um primado.


P.S.: entretanto, fui recordado do que escrevi sobre o filme Mar Adentro (aqui).

sábado, 26 de maio de 2018

O PROBLEMA DA EUTANÁSIA

   O debate acerca da eutanásia é dos mais difíceis de manter sob o jugo exclusivo da razão, na medida em que está sujeito a percepções íntimas, altamente subjectivas, e emocionais acerca do mais antigo dos problemas humanos: o sentido da vida. Não é possível pensar o sentido da vida humana sem o relacionar com a morte, a única certeza, afinal, que a natureza nos oferece sobre isto de estar vivo. Estar vivo é estar à morte, dizia o poeta. Deixemos de lado credos e convicções sobre aléns inverosímeis. Concentremo-nos na vida na Terra, a única de que estamos certos por ser aquela que experimentamos... em vida.
   Eutanásia significa morte serena, morte pacífica. Partimos do princípio de que nenhum ser humano deseje à hora da morte outra coisa senão paz e serenidade. Já que temos de abandonar este mundo, que o façamos em sossego. Medo da morte não tenho, tenho é do sofrimento, diz-se. Nos funerários, muitas vezes consolamos os vivos referindo-nos aos mortos nestes termos: coitadinho, estava a sofrer tanto, foi melhor assim. Até prova em contrário, devemos presumir que toda a gente no mundo ambicione uma morte serena e pacífica. A questão etimológica não é meramente académica, ela recoloca-nos no lugar certo do debate. Quando se discute a possibilidade da eutanásia não se discute outra coisa senão o direito que todos devem ter a uma morte serena, pacífica.
   “Desvalorizar a vida humana” não pode ser, portanto, pretender oferecer-lhe paz e serenidade num determinado momento, o mais importante de todos, o momento em que a vida humana se transforma noutra coisa (independentemente de qual seja). Por “desvalorizar a vida humana” entendeu eu, por exemplo, submetê-la à servidão, explorá-la economicamente, impedi-la de se afirmar, desenvolver, consolidar na pessoalidade, enquanto livre, singular, única. Por outro lado, para que a valorizemos também não é necessário adoptar uma doutrina da “santidade da vida humana”. Ao fazê-lo, estaremos a ceder a uma perspectiva única da vida humana, uma perspectiva aniquiladora da pluralidade de perspectivas que a nossa vida não só deve aceitar como promover.
   Facilmente se constata no comunicado do PCP acerca da “provocação da morte antecipada” esta necessidade de distinguir uma noção de “santidade da vida humana” de uma noção de “valor da vida humana”, a qual nos leva a admitir decisões que parecem entrar em contradição com uma recusa da eutanásia: «O PCP continuará a lutar para a concretização, no plano político e legislativo, de medidas que respondam às necessidades plenas dos utentes do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente (…) na garantia do direito de cada um à recusa de submeter-se a determinados tratamentos; na garantia de a prática médica não prolongar artificialmente a vida; (…)». Ou seja, admitimos que um doente recuse submeter-se a determinado tratamento e que um médico não prolongue artificialmente a vida. Porquê? Primeiro, porque julgamos que um doente tem o direito a não querer ser tratado, ou seja, tem o direito a decidir sobre as condições em que quer viver; segundo, porque a vida artificial já não é vida.
   Julgo não ser este o espaço para uma discussão exaustiva sobre os vários tipos de eutanásia questionáveis (voluntária, involuntária, não voluntária), mas não vejo como possamos não chamar “eutanásia voluntária” à recusa consciente de tratamentos que implicarão uma antecipação da morte, assim como não percebo a diferença entre “eutanásia não voluntária” e a decisão de um médico não prolongar uma vida artificial. No limite, estamos a falar exactamente das mesmas coisas. Poder-se-á argumentar que estando ambas previstas na lei, será escusado uma nova lei que regule a eutanásia de um modo mais abrangente. De certo modo, é isso que faz o PCP:

«A ciência já hoje dispõe de recursos que, se utilizados e acessíveis, permitem diminuir ou eliminar o sofrimento físico e psicológico. Em matérias que têm a ver com o destino da sua vida, cada cidadão dispõe já hoje de instrumentos jurídicos (de que o “testamento vital” é exemplo, sem prejuízo dos seus limites) e de soberania na sua decisão individual quanto à abstinência médica (ninguém pode ser forçado a submeter-se a determinados tratamentos contra a sua vontade). A prática médica garante o não prolongamento artificial da vida, respeitando a morte como processo natural recusando o seu protelamento através da obstinação terapêutica. Há uma diferença substancial entre manter artificialmente a vida ou antecipar deliberadamente a morte, entre diminuir ou eliminar o sofrimento na doença ou precipitar o fim da vida».

   De acordo, até à última frase. A redacção está correcta, mas leva-nos a questionar qual a diferença entre interromper uma vida artificial e antecipar a morte? Nenhuma. Qual a diferença entre recusar um tratamento vital e precipitar o fim da vida? Nenhuma. Logo, não me parece lógico estar contra a eutanásia admitindo-a em certas circunstâncias. «A oposição do PCP à eutanásia tem o seu alicerce na preservação da vida», excepto quando esta preservação implique um prolongamento artificial da mesma ou a coacção de um doente obrigando-o a tratamentos que ele não quer fazer. Dignificar a vida em vida, portanto, admite excepções ao próprio valor que damos à vida. Aceitamos que uma vida artificial não vale tanto como uma vida natural, aceitamos que o livre arbítrio de um ser humano vale mais que a sua própria vida (ou o prolongamento dela em circunstâncias de enfermidade). Não percebemos, deste modo, por que é que nestas duas circunstâncias concretas o «valor intrínseco da vida» não se sobrepõe. Ou percebemos. É porque, na realidade, sabemos que o valor intrínseco da vida tem os seus limites.
   O problema estará em definir os limites do valor intrínseco da vida. Para uns, o direito a viver sem sofrimento delimita esse valor. Por si só não é grande argumento. Há demasiada subjectividade no sofrimento (daí que cada projecto de lei o tabele de modo diferente). Para outros, não há limites ao valor intrínseco da vida (estão no seu direito, até podem condenar o suicídio). Por fim, há aqueles para quem o valor intrínseco da vida se submete à liberdade que cada um deve ter sobre a decisão do que é uma vida digna. Se alguém que não está no uso pleno das suas capacidades e faculdades julgar que a sua vida não é digna, que direito tenho eu de lhe impor o contrário? Não será muito mais indigna está imposição? O exemplo de Ramón Sampedro pode servir de paradigma. Com base em que direito poderia eu impor àquele homem uma noção de vida digna? Eu não estava a viver a vida dele, ele é que estava a viver a sua vida. Logo, só ele poderia julgar se era digna ou não a vida que estava a viver. Tendo Ramón escolhido a morte, não será nossa obrigação garantir que ela se realize da melhor forma possível?
   Penso igualmente em André Gorz, que perante o sofrimento da sua amada (cancro endométrio) resolveu pôr-lhe um fim, suicidando-se de seguida. Tinham ambos mais de 80 anos. Gorz deixou um testemunho tremendo desta vivência: “Carta a D.”. Poderá alguma coisa indignar-nos na sua decisão? Não vejo como o direito a matar ou a matar-se, mediante circunstâncias delimitadas pela lei, possa ser considerado um «retrocesso civilizacional». Parece-me muito mais discutível o direito à tortura, o direito a prolongar essa tortura que é viver quando se julga já não fazer qualquer sentido a vida. Parece-me muito mais humanista compreender e aceitar as decisões de Gorz e Ramón do que condená-los, parece-me muito mais solidário estar ao lado deles no sofrimento de uma decisão que em nenhum momento foi leviana. Quanto ao «princípio da igualdade», cabe-nos questionar: que igualdade pode haver entre alguém que em querendo se mata e alguém que em querendo matar-se o não consegue/pode fazer? Novamente o caso Ramón Sampedro é um bom exemplo de como não faz sentido advogar o princípio da igualdade em matéria onde tudo é desigual.
   Por fim, gostaria de referir um forte argumento das pessoas que estão contra a eutanásia. É também um forte argumento em matéria de pena de morte. As pessoas que estão contra a eutanásia, por vezes, argumentam que os médicos podem enganar-se, o veredicto médico pode estar errado, Stephen Hawking não tinha parcos meses de vida quando lhe diagnosticaram a doença, o que parece irreversível por vezes torna-se reversível, a ciência está sempre a progredir, etc… É, quanto a mim, um forte argumento, daqueles que reforçam a dimensão problemática do debate. Quanto a isto, não podemos senão apoiar-nos na fé, aqueles que a têm, ou na razão, partindo do princípio de que ninguém foi privado dela à nascença. Como matérias de fé não sustentam leis, devemos dar mais valor ao que a razão nos diz. E o que a razão nos diz parece-me bem explicitado na citação de Peter Singer com que terminarei este texto:

Ao número muito pequeno de mortes desnecessárias que podiam ocorrer no caso da legalização da eutanásia devemos contrapor a grande quantidade de dor e de aflição que sofrerão os pacientes que se encontram de facto em fase terminal de doenças se a eutanásia não for legalizada. (…) Talvez um dia seja possível tratar todos os doentes terminais e pacientes incuráveis de uma forma tal que ninguém requeira a eutanásia e a questão deixe de se pôr; mas de momento não passa de um ideal utópico e não constitui, de forma alguma, um motivo para recusar a eutanásia a todos aqueles que têm de viver e de morrer em condições muito menos confortáveis. Em todo o caso, é altamente paternalista dizer a pacientes às portas da morte que são agora tão bem tratados que não precisam da opção da eutanásia. Seria mais consentâneo com o respeito pela liberdade e pela autonomia individuais legalizar a eutanásia e deixar os pacientes decidir se a sua situação é insuportável ou não.

(In Ética Prática, trad. Álvaro Augusto Fernandes, Gradiva, 2.ª edição, Setembro de 2002, pp. 217-219)

quinta-feira, 24 de maio de 2018

"O EXEMPLO À MÃO:"

«Quando eu crescer, vou cortar as flores grandes, para não haver vento.» A história é esta: fazia muito vento, e por isso a mãe não deixara a filha ir brincar para a rua. Como o sinal do vento o via ela nas árvores a abanar («as flores grandes»), cortando-as desapareceria o sinal, quer dizer: a própria coisa (o vento). Então, já ela poderia ir brincar para a rua. Mas como o poder é dos adultos (a «quantidade milagrosa» - a idade), só quando ela «crescesse» poderia cortar as árvores. Modificaria a realidade segundo o princípio do desejo. E isto é não só o princípio mesmo da poesia, mas o das relações do homem com a realidade - o significado do trabalhador criador. Adaptar o mundo ao nosso desejo, através de um acto radical. E é quando o trabalho se faz jogo.

Herberto Helder, in em minúsculas - crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola, Porto Editora, Abril de 2018, p. 47.

POSIÇÃO POLÍTICA SOBRE EUTANÁSIA


Posição Política do PCP sobre a provocação da morte antecipada: ler aqui. Como será óbvio para quem me conheça, discordo desta posição. A seu tempo direi porquê. 

ROBERT INDIANA (1928-2018)


Setembro de 1997, Centro Cultural de Belém. No catálogo da exposição The Pop '60s - Travessia Transatlântica, organizado por Marco Livingstone:

Robert Indiana, americano, nasceu em 1928. Estudou no Art Institute of Chicago entre 1949 e 1953 e na University of Edinburgh (1953-54). O National Museum of American Art, Smithsonian Institute, Washington, D.C., dedicou-lhe uma importante exposição em 1984. Viveu e trabalhou em Nova Iorque durante a década de 60. Hoje, vive e trabalha na ilha de Vinalhaven, Maine. E aí morreu no passado dia 19 de Maio do ano corrente. As obras de Indiana que integraram a exposição no CCC:


Terre Haute, 1960



Black Diamond American Dream N.º 2, 1962


Love, 1966


USA 666, 1964-66

quarta-feira, 23 de maio de 2018

JÚLIO POMAR (1926-2018)


Entre os artistas figurativos mais valorizados nas Exposições Independentes (1943-1950) e nas Exposições Gerais (1946-1956), encontravam-se Júlio, Avelino Cunhal (1887-1966), Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957), Júlio Pomar, Lima de Freitas (1927-1998), João Abel Manta (n. 1928), Rolando Sá Nogueira (n. 1921), Mário Dionísio, Alice Jorge (n. 1924), Augusto Gomes (1910-1976), João Hogan (1914-1988), Nikias Skapinakis (n. 1931), Rui Filipe (n. 1928), Rogério Ribeiro (n. 1930), Lagoa Henriques (n. 1923), Bartolomeu Cid (n. 1931), António Charrua (n. 1925), António Domingues (n. 1921), Querubim Lapa (n. 1925), Arlindo Vicente (1906-1978) e, prolongando o naturalismo, Falcão Trigoso (1879-1956) e António Saúde (1875-1958).
   Júlio Pomar foi o que mais se distinguiu. O seu quadro O Gadanheiro (1945) revela o entendimento do americano Thomas Benton. A apresentação de O Almoço do Trolha, em 1947, constitui um triunfo do neo-realismo. O quadro revela a assimilação da lição do brasileiro Cândido Portinari, na matéria áspera, na acentuação anatómica das mãos e dos pés.
   Outro marco importante foi a experiência colectiva feita por Pomar, Cipriano Dourado, Rogério Ribeiro, António Alfredo, Lima de Freitas e o escritor Alves Redol. Em 1953 partiram em demanda da gente dos arrozais do Ribatejo, num inquérito que procurou registar histórias, tarefas e pessoas, reveladoras da vida camponesa. Esta experiência ficou conhecida por «Ciclo do Arroz» (1953).
   Seguiu-se o levantamento dos heróis populares, notável no quadro intitulado Maria da Fonte (Pomar, 1957), nome de uma mulher nortenha que, no século XIX, chefiou uma rebelião popular. Neste quadro, de tons escuros, alguns admiradores de Pomar viram a conjugação e a actualização de valores picturais de Columbano e Goya.
   Depois, a pintura de Pomar passou a procurar sugerir o movimento com pinceladas rápidas, numa figuração fragmentária e descontínua. As cores, inicialmente abafadas, adquiriram grande vivacidade, acabando por alastrar-se em grandes áreas, matissianamente, já nos anos sessenta


Rui Mário Gonçalves, in A Arte Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998, pp. 69-70

PHILIP ROTH (1933-2018)


Este também não levou o Nobel para casa. Peguem num qualquer livro dos muitos que escreveu e comparem com os livros de Kazuo Ishiguro ou Patrick Modiano. Ficarão logo a perceber o valor dos critérios da Academia Sueca. Em 2013, escrevi aqui sobre Engano. E em 2010, referi-me aqui a The Humbling (publicado entre nós com o título A Humilhação). 

terça-feira, 22 de maio de 2018

"UM GENEROSA E BELA UTOPIA"

O homem é um ser lúdico e erótico, mas necessita de sobreviver, e não se deve considerar um mal tudo o que a técnica lhe tem oferecido. Um dia a máquina produzirá em seu favor, e o homem, liberto da velha sujeição e da moral sobre ele instituída, poderá criar, em termos concretos, a nunca relegada aspiração — a Idade do Ouro. No jogo e no erotismo encontraria ele a sua legítima expressão vocacional.

Herberto Helder, in em minúsculas - crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola, Porto Editora, Abril de 2018, p. 14.

O LIVRO DOS ABRAÇOS


Mestre da narrativa breve, assim descrito na segunda badana de O Livro dos Abraços (Antígona, Março de 2018). Data de 1989 a primeira edição deste livro do uruguaio Eduardo Galeano (n. 1940 – m. 2015). Quem tenha lido as obras do “mestre” anteriormente publicadas pela Antígona, facilmente concordará com a descrição. Mas Galeano é mais que isso. Serve de prova, a título de exemplo, As Veias Abertas da América Latina (Antígona, Abril de 2017). Outras há que, a seu tempo, deixarão claro e evidente o grande escritor que foi, é, será sempre Eduardo Galeano. Não apenas “mestre da narrativa breve”, como tantas vezes também se diz a propósito de Jorge Luis Borges (n. 1899 – m. 1986), correndo-se o risco de reduzir à extensão do texto a incomensurabilidade da observação, no caso de Galeano, ou da imaginação, no caso de Borges.
   A colectânea com o título Mulheres (Antígona, Novembro de 2017) já tinha oferecido um cheirinho de O Livro dos Abraços. Algumas das histórias deste volume foram reintegradas naquele: A Paixão de Dizer 1, Profecias 1, Celebração da Realidade, A Fome 1, A Noite 1, A Noite 2, A Noite 3, Crónica da Cidade de Bogotá, A Cultura do Terror 3, A Cultura do Terror 5, A Televisão 4, Chorar, As Flores, A Avó, Celebração da Amizade 2. Mais coisa, menos coisa, a proveniência dos textos aparece creditada no final de Mulheres. Sucede que nas versões portuguesas, sendo diferentes os tradutores, parecem amiúde diferentes agora os textos. A Avó Bertha Jensen «morreu a amaldiçoar» e viveu «toda a sua vida com pezinhos de lã» na versão de José Colaço Barreiros, enquanto na versão de Helena Pitta a mesma avó «morreu blasfemando» e «viveu toda a vida em bicos de pés». Se de amaldiçoar para blasfemar pode ser pouca a diferença, não tão curta será de viver toda a vida «com pezinhos de lã» ou «em bicos de pés». Ficamos assim com duas Bertha Jensen, sendo que para Galeano eram exactamente a mesma.
   Pelos títulos supracitados podemos, desde já, mapear alguns traços gerais de O Livro dos Abraços. Primeiro, a existência de sequências temáticas. Têm especial relevância os conjuntos A Cultura do Terror (7 textos), A Televisão e Dizem as Paredes (ambos com 5 textos) ou Os Índios (4 textos). Neste caso, serão mais de 4 os textos dedicados ao tema. Os índios ocupam na obra de Galeano um papel relevantíssimo, são a prova viva da desgraça colonialista, são por vezes uma espécie de fantasmas de um mundo extinto, da raiz apodrecida de uma cultura sul-americana devastada pela colonização capitalista e pelas ditaduras militares. São parte integrante de um cenário de miséria contra a qual se ergue a pena do escritor, são a páginas 71:

OS ZÉS-NINGUÉM

   Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove nem ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou que comecem o ano trocando de vassoura.
   Os zés-ninguém: os filhos de ninguém, os donos de nada.
   Os zés-ninguém: os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
   Que não são, embora sejam.
   Que não falam línguas, mas dialectos.
   Que não professam religiões, mas superstições.
   Que não fazem arte, mas artesanato.
   Que não praticam cultura, mas folclore.
   Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
   Que não têm cara, mas braços.
   Que não têm nome, mas número.
   Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
   Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.

   Esta denúncia da miséria humana em defesa dos desfavorecidos faz-se acompanhar de uma celebração da vida e dos valores que mais a dignificam. Textos tais como Celebração da Voz Humana 1, 2, 3 e 4, Celebração da Fantasia, Celebração da Realidade, Celebração da Subjectividade, Celebração das Bodas da Razão com o Coração, Celebração das Contradições 1 e 2, Celebração da Desconfiança, Celebração do Silêncio 1 e 2, Celebração das Bodas da Palavra com o Acto, Celebração do Riso, Celebração do Nascer Incessante, Celebração da Amizade 1 e 2, Celebração da Coragem 1, 2, 3 e 4, testemunham pelo exemplo os alicerces éticos e morais de uma oficina literária que não renuncia ao seu papel mais social e político. Não se confunda papel social e político, porém, com militantismo engajado. Trata-se de uma dimensão filosófica em favor de uma cultura de liberdade, contra a opressão e a humilhação daqueles que por infortúnio não têm defesa:

CELEBRAÇÃO DAS CONTRADIÇÕES 2

   Soltar as vozes, desfantasiar a fantasia: escrevo, querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no centro exacto do real pavoroso da América.
   Nestas terras, a cabeça do deus Eleguá leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos, nasce a coragem; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão.
   No fim de contas, somos o que fazemos para mudar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrina, mas a sempre assombrosa síntese das nossas contradições do dia-a-dia.
   É nessa fé, fugitiva, que creio. Parece-me a única fé digna de confiança, pelo muito que se assemelha ao bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo. 

(p. 123)

   Advogado dos miseráveis, Eduardo Galeano é igualmente um impressionante arquivista de factos, de lendas, de mitos, de historietas resgatadas de uma invejável experiência de vida. O belo convive nos seus textos com o horroroso, no pântano das desgraças humanas ele colhe sementes de uma poesia cheia de vida. Neste livro, o exemplo mais eloquente dessa incursão pelas memórias do vivido são as crónicas dedicadas a cidades: Crónica da Cidade de Santiago, Crónica da Cidade de Havana, Crónica da Cidade de Quito, Crónica da Cidade de Caracas, Crónica da Cidade do Rio, Crónica da Cidade de Nova Iorque, Crónica da Cidade de Bogotá, Crónica da Cidade do México, Crónica da Cidade de Buenos Aires, Crónica da Cidade de Montevideu, Crónica da Cidade de Manágua. A preferência por cidades sul-americanas em O Livro dos Abraços não pode ser dissociada de uma perspectiva da América Latina que tem no horizonte tanto a experiência autobiográfica do exílio, marcada pela dor da distância e da injustiça, como a esperança de uma democratização constantemente ameaçada pela colonização capitalista, de que são elementos estruturais a burocracia, a cultura do terror, a cultura do espectáculo, a alienação, a civilização do consumo… E no fim fica como que a pairar sobre a elaboração de um sonho a confissão aforística de uma dor íntima:

A FOSSA

   As minhas certezas comem dúvidas ao pequeno-almoço. E há dias em que me sinto estrangeiro em Montevieu ou em qualquer outro lugar. Nesses dias, dias sem sol, noites sem lua, nenhum lugar é o meu lugar e não consigo reconhecer-me em nada nem em ninguém. As palavras não se assemelham ao que nomeiam e nem sequer se assemelham ao seu próprio som. Então, não estou onde estou. Deixo o meu corpo e parto para longe, para lugar nenhum, e não quero estar com ninguém, nem sequer comigo, e não tenho, nem quero ter, nome nenhum: então, perco a vontade de chamar-me ou de ser chamado.

Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços, trad. Helena Pitta, Antígona, Março de 2018, p. 169.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

ARTE URBANA

DIZEM AS PAREDES 1

No sector infantil da Feira do Livro, em Bogotá:
O locóptero é muito veloz, mas muito lento.
Na marginal de Montevideu, diante do rio-mar:
Um homem alado prefere a noite.
À saída de Santiago de Cuba:
Como gasto paredes recordando-te.
Nas alturas de Valparaíso:
Eu amo-nos.


Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços, trad. Helena Pitta, Antígona, Março de 2018, p. 83.


DIZEM AS PAREDES 2

Em Buenos Aires, na ponte de La Boca:
Todos prometem e ninguém cumpre. Vote em ninguém.
Em Caracas, em tempos de crise, à entrada de um dos bairros mais pobres:
Bem-vinda, classe média.
Em Bogotá, na esquina da Universidade Nacional:
Deus vive.
E em baixo, com outra letra:
Só por milagre.
Também em Bogotá:
Proletários de todos os países, uni-vos!
E em baixo, com outra letra:
(Último aviso.)

Idem, p. 99.


DIZEM AS PAREDES 3

Em Montevideu, no bairro Brazo Oriental:
Estamos aqui sentados, vendo como nos matam os sonhos.
E no molhe, diante do porto do Buceo, em Montevideu:
Safia velha: não se pode viver com medo toda a vida.
Em letras vermelhas, ao longo de todo um quarteirão da avenida Colón, em Quito:
E se entre todos dermos um pontapé a esta grande bolha cinzenta?

Idem, p. 163.


DIZEM AS PAREDES 4

Em pleno centro de Medellín:
A letra com sangue entra.
E em baixo assinava:
O sicário alfabetizador.
Na cidade uruguaia de Melo:
Ajude a polícia: torture-se.
Numa parede de Masatepe, na Nicarágua, pouco depois da queda do ditador Somoza:
Morrerão de saudades, mas não voltarão.

Idem, p. 209.


DIZEM AS PAREDES 5

Na Faculdade de Ciências Económicas, em Montevideu:
A droga provoca amnésia e outras coisas de que não me lembro.
Em Santiago do Chile, nas margens do rio Mapocho:
Bem-aventurados os bêbados, porque eles verão Deus duas vezes.
Em Buenos Aires, no bairro de Flores:
Uma namorada sem mamas, mais que namorada, é um amigo.

Idem, p. 218.

domingo, 20 de maio de 2018

DOENÇA DE BRUNO


   No próximo DSM iremos encontrar, por certo, uma referência à doença de Bruno. Trata-se de uma patologia que associa comportamentos egocêntricos a posturas de vitimação, distúrbios projectivos a tácticas de manipulação, acompanhada, porém, de uma enorme capacidade de se fazer valer das distorções hermenêuticas a que o enfermo está sujeito. Neste caso, lavo as minhas mãos sem qualquer peso na consciência. Como nunca simpatizei com Bruno, como nunca me ouviram apoiá-lo fosse no que fosse, como desde há muito disse que a postura dele não era aconselhável à presidência do que quer que fosse, custa-me agora ter de lhe dar razão num aspecto e só num: a comunicação social portuguesa é habilidosa, tem uma tendência para distorcer o que as pessoas dizem que a gente fica sem perceber se o faz em benefício próprio (achas para uma fogueira que dá audiências) ou em benefício de terceiros (investidores interessados nas fogueiras). São vários os exemplos que podemos dar e que vêm de longe, mas o mais recente talvez seja o mais fácil de compreender. 
   Ouvi atentamente a fastidiosa conferência de ontem e em nenhum momento Bruno de Carvalho atribuiu aos jogadores a responsabilidade pelas agressões de que foram vítimas. Está errado fazer-se essa interpretação, até por mais uma vez se estar a reforçar a postura de um populista face a uma imprensa que o detesta tanto quanto adora (dá assunto). Estão criadas as condições para que o populista se faça novamente de vítima e assim reforce o apoio de quem sempre esteve com ele. O que Bruno de Carvalho disse, e de uma forma muito clara, foi que há uma história por detrás dos acontecimentos na Academia que tem de ser contada para que se perceba o que ali aconteceu. E essa história começa na Madeira com trocas de insultos entre sócios e jogadores, os quais regressaram a Lisboa já sob ameaça. Isto é substancialmente diferente de se dizer que os jogadores são responsáveis por terem sido agredidos, como os media agora veiculam. 
   O que foi dito, e tem lógica, é que perante as ameaças dos cães na Madeira, os felinos da Academia deviam ter permanecido calados, não deviam ter encrespado o pêlo. Isto é uma tentativa de contextualização das coisas que pretende: 1.º ilibar o presidente de quaisquer responsabilidades no sucedido; 2.º demover jogadores de pedidos de rescisão com justa causa. A dimensão projectiva da coisa está em que o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao problema da relação do presidente com a equipa de futebol. Ou seja, também Bruno não devia ter reagido como reagiu quando lhe passou pela cabeça anunciar através do Facebook a suspensão de toda a equipa. Em suma, o bom senso não é definitivamente a coisa mais bem distribuída do mundo. 
   Dito isto, continuo a julgar que Bruno de Carvalho devia demitir-se. Mas já o julgo há muito tempo. Não estar hoje presente no Jamor é uma boa decisão, das poucas boas decisões que terá tomado nos últimos tempos.

sábado, 19 de maio de 2018

HOMEM DE CIÊNCIA

   Discussão mais séria foi a que teve com o filósofo alemão Gottfried Leibniz. Tanto este como Newton tinham desenvolvido independentemente o ramo da matemática chamado cálculo, que está na base da maior parte da física moderna. Embora agora saibamos que Newton descobriu o cálculo antes de Leibniz, publicou o seu trabalho muito mais tarde. Começou assim uma enorme discussão sobre quem tinha sido o primeiro, com cientistas a defenderem vigorosamente os dois oponentes. É notável, porém, que a maioria dos artigos que aparecem a defender Newton tivessem sido escritos por ele mesmo e apenas publicados em nome dos amigos! No calor da discussão, Leibniz cometeu o erro de apelar à Royal Society para decidir a disputa. Newton, como presidente, nomeou uma comissão «imparcial» para investigar, formada, por coincidência, apenas por amigos seus! Mas isso não foi tudo: Newton escreveu depois o relatório da comissão e fez com que a Royal Society o publicasse, acusando oficialmente Leibniz de plágio. Como ainda não estava satisfeito, escreveu uma crítica anónima do relatório na publicação provada da Royal Society. Após a morte de Leibniz, diz-se que Newton declarou que tinha ficado radiante «por ter desfeito o coração de Leibniz».

Stephen Hawking, in Breve História do Tempo, trad. Maria Alice Gomes da Costa, Gradiva,  8.ª edição, Maio de 2011, pp. 220.

PALHAÇADA REAL

Casamento real britânico transmitido em directo na televisão pública portuguesa. Eu não pago impostos para esta merda

sexta-feira, 18 de maio de 2018

DEUS É DO TAMANHO DAS MINHAS DÚVIDAS


Primeiro a desconfiança. Um livro científico onde Deus seja tantas vezes chamado à colação deve deixar-nos desconfiados. Bastou-nos o racionalismo cartesiano a tentar abrir mato para chegarmos a uma ideia clara dessa ideia. Depois, a dúvida antiga sobre o princípio do universo, sobre a necessidade de um princípio. Nunca entendi tal necessidade, continuo sem entender. A espaços, pareceu-me não estar isolado no mundo. A hipótese da inexistência de um princípio parece-me tão forte, pelo menos filosoficamente, como a da sua inutilidade. Portanto, mais do que pretender saber se houve um princípio, mais do que teorizá-lo, postulá-lo com teses como a do big bang, fica sempre no ar a dúvida acerca da utilidade. Quanto vale uma teoria na ausência da observação do objecto? Hawking diz-nos, no entanto, coisas que nos parecem tão prováveis como a nossa insignificância na complexa vastidão universal. Sobre os tempo absoluto, tempo relativo e tempo imaginário, diz-nos que cada um deles será válido conforme a sua utilidade na cadeia de um raciocínio. Desse modo, supera o determinismo com o princípio da incerteza. Em termos literários, parece-me bem que sejamos determinados pelo princípio da incerteza, por uma rede caótica e incognoscível na sua totalidade, efeito respeitável de um acaso que procuramos entender, explicar, sabendo que em última instância nenhuma explicação que encontremos será definitiva. Em termos físicos, não chego lá. É muita areia para a minha cabeça. Parece-me, à distância que se impõe a um leigo, que o cúmulo do relativismo será considerar mais básico o chamado tempo imaginário do que o chamado tempo real, ambos inventados, não necessariamente descobertos, para nos ajudarem a descrever o universo. Porque o tempo será sempre aquela invenção do pensamento que a carne não desmente. Ele passa por nós, como se costuma dizer, e tanto deixa marcas como as apaga, o tempo tem uma dimensão biológica, observável na decomposição de um corpo. Que ganhamos nós, então, com a teorização de uma origem? Comprovada a vastidão do espaço, podemos até conviver bem com a ideia de que somos um partícula minúscula. Qual o nosso lugar? Podemos imaginar que é subterrâneo, que a própria terra é como que subterrânea, que todo este complexo galáctico afinal está no interior de um corpo como células cancerígenas. O sentido da nossa actividade seria, então, ir degustando a matéria à nossa volta até chegarmos às fronteiras do corpo consumível, até darmos cabo dele, até que chegados à pele do corpo a rasguemos e com isso outra coisa surja da extinção desta que é nossa coisa. Outro bicho nasça. Outro verme germine. Tem piada, o nosso destino: «serão precisos 1000 milhões de milhões de milhões de milhões de anos para a Terra colidir com o Sol, pelo que não há motivo imediato para preocupação!» (p. 110) Eis o tempo, Via Crucis da humanidade que um dia julgou ser possível determinar todas as leis da Natureza, que um dia, iludida pela repetição de certos fenómenos, pensou que em tudo havia a mesma estabilidade, o mesmo equilíbrio, a mesma previsibilidade. Ordem, regra, até o imprevisível dar cabo da lei e deixar-nos desamparados com uma única palavra onde apoiar a mente: Deus. Só que Deus não existe, segundo a regra das probabilidades. Pelo que o melhor será aceitarmos de uma vez por todas o desamparo enquanto condição última de estar por aqui, pelo que preferível será abraçarmos de uma vez por todas a nossa insignificância observando-lhe o fim último de um sentido profundo: somos só mais uma pequeníssima partícula na engrenagem de uma bela aventura. Se estivermos enganados, paciência. Haverá sempre um buraco negro onde nos enfiarmos na hora do juízo final. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

UM LIVRO FELLINIANO



A cada conto há parágrafos finais a selarem o fim com um olhar de assumido e lúcido desencantado presente. Um livro felliniano, a fazer-nos lembrar o filme Amarcord do realizador italiano Federico Fellini. O passado a ser filtrado por uma memória que atua sobre o que ficou para trás e não foi esquecido, nada garantindo que realmente assim tenha sido. No cineasta e no escritor encontramos humor, mas menos conformado nos textos do Henrique.

Manuel Silva, aqui.


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ANTIEU

Pode haver antimundos e antipessoas feitos de antipartículas. Contudo, se encontrar o seu antieu, não lhe aperte a mão! Desapareceriam ambos num grande clarão de luz

Stephen Hawking, in Breve História do Tempo, trad. Maria Alice Gomes da Costa, Gradiva,  8.ª edição, Maio de 2011, pp. 85-86

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A TERÇA DE MAIO

Ontem, com um cinturão negro da poesia portuguesa, o único que conheço, e um indefectível fã dos The Smiths. 






Fotografias do Ricardo Aurélio.

terça-feira, 15 de maio de 2018

QUANTOS PALESTINIANOS VALE UM EX-ESPIÃO?

Dezenas de mortos em Gaza. 50? 60? 70? Que importa o número certo? Há coisa de dias, enorme agitação diplomática por causa de um ex-espião russo alegadamente envenenado pelos antigos patrões. Gaza não interessa. EUA e Israel inauguram a embaixada, pousam para a fotografia, mimam-se, enquanto ao largo israelitas atiram a matar sobre palestinianos armados até aos dentes com fisgas e pedras e paus. Nenhum diplomata nesses países será chamado para casa, dezenas de mortos em Gaza não valem tanto quanto um ex-espião russo envenenado

UM POEMA DE MIGUEL-MANSO

RUA DA ARRÁBIDA

estão a demolir pedra
a pedra o prédio ao lado

quem passa agora na rua
parece lamber com o olhar
a falta de um dente


Miguel-Manso, in Tojo - Poemas Escolhidos, Relógio D'Água, Abril de 2013, p. 24.

GLENN BRANCA (1948-2018)


segunda-feira, 14 de maio de 2018

DIÁLOGOS MARADOS / UM MALUCO VEM POUSAR-ME NA MÃO



Durante largos anos braço direito de Vítor Silva Tavares na editora &etc, Rui Caeiro (Vila Viçosa, 1943) é autor de vários livros onde a poesia e o aforismo convivem sem que se dê conta de grandes males para qualquer uma das formas. Disso são exemplo livros tais como Olhar o Nada, Ver a Deus (Averno, Abril de 2003), o bestiário O Carnaval dos Animais (Letra Livre, Outubro de 2008) ou mesmo a colectânea erótica O Quarto Azul e Outros Poemas (Letra Livre, Março de 2011). Mais recentemente, a Livraria Snob publicou do mesmo autor o díptico Diálogos Marados/Um Maluco Vem Pousar-me na Mão (Livraria Snob, Março de 2018) e um desdobrável em acordeão com três inéditos. São textos basicamente biográficos, memórias, recordações, evocações onde à experiência vivida se acrescentam discretíssimas sentenças pessoais:

Aos poetas categoria particular de malucos olho-os. Olho-os demoradamente.
Conheço-os a todos ou quase (enfim, na medida em que), e olho-os de A a Z, do solar António Barahona ao nocturno Zetho Gonçalves. Olho-os enlevado.
E um pouco desencantado também, devo dizer, com o estranho conjunto.
Olho o triste rebanho dos poetas e dou-me conta. Todos eles estão rezando crentes, ateus, agnósticos, ou coisa nenhuma todos eles rezando. Pedindo a Deus a sua gota de água.
Todos e cada um a um Deus qualquer implorando que não lhes falte nunca a sua gota de inspiração e loucura, água para a sua sede. (Um Maluco Vem Pousar-me Na Mão, p. 59)

   Esta manifestação de desencanto, refira-se, é uma raridade no conjunto dos textos, muito mais empenhados na fixação de historietas onde perpassam o convívio amistoso e o anedótico, encontros inesperados e instantes perdidos algures entre o incómodo e a ternura, numa jornada pelas memórias familiares que inclui momentos de cavaqueira com amigos, recordações de infância, aventuras, desventuras, até flashes televisionados. Nos diálogos, encontramos como interlocutores gente anónima e gente com nome próprio, facilmente identificável, familiares e companheiros inomináveis, tendo como panos de fundo essencialmente Lisboa, mas também Madrid, Paris, Macau... O tom geral é o de uma nostalgia encantadora, sendo que a espaços notamos uma espécie de contabilidade a ajustar com a vida surgindo à superfície do texto como a comoção surge na pele:

   Não sei se algum dos presentes à cena teve consciência de que aquela era a última vez que o meu pai saía à rua.
   Caminha devagar, pesadamente e olha o chão com ar ausente. Não me aproximo e ele também não me vê. Apercebe-se, porém, da presença de alguém que vem a descer a rua em passo rápido: uma rapariga de mini-saia, busto espetado e sorriso de vencedora. Durante meio segundo, não mais, ela olha-o com atenção. Com uma curiosidade distraída (mais um velhinho a morrer: o que é que isso tem?). Ele olha longamente a miúda, durante uns longos poucos segundos. Como quem se despede da vida, nos olhos talvez o brilho de uma curiosidade, de uma avidez antiga.
   Ninguém ali diz palavra. E a força do que não se disse fica a doer no peito de um filho. (Diálogos Marados, p. 113)

   Já na casa dos 70, Rui Caeiro dirige-se deste modo aos seus contemporâneos, contando histórias de vida, a sua, com o descomprometimento de quem, por pouco dever, nada teme. Ateu declarado, mantém uma relação complexa com o tema Deus: «Filhos de Deus também? / Porventura mais enteados que outra coisa» (Um Maluco Vem Pousar-me Na Mão, p. 58). À ideia do sagrado enquanto princípio a partir do qual podemos empreender um sentido da vida, sobrepõe-se nestes textos um elogio do profano na figura da loucura. Em última instância, é na aceitação da anomalia que vislumbramos um sentido para a existência. Impressiona a serenidade do discurso, a tranquilidade que transparece no modo de dizer, como que se no termo da viagem empreendida ficasse por declarar a fatuidade dos grandes empreendimentos filosóficos. Afinal, a vida vive-se de uma forma simples quando se tem por horizonte, desde cedo, a inevitabilidade do fim. À memória caberá registar o passo lento, mas seguro, do caminhante. E daqueles que a seu lado empreenderam a jornada.

SOCIALISMO EM PORTUGAL

Acabo de ouvir nas notícias que um gestor ganha em média mais 45 vezes do que um trabalhador na mesma empresa. É isto o socialismo em Portugal. Vergonha na cara, já sabemos que não têm; o inferno não lhes desejamos, porque somos descrentes; mas sonhamos com o dia em que ficarão com os dedos entalados na gaveta ou intoxicados de marisco ou sós, completamente sós, como o cidadão Kane no termo da vida. Citando o outro, puta que os pariu!

domingo, 13 de maio de 2018

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA


Jorge de Sena olhou para a cadeira de Van Gogh
E escreveu o que viu.
E viu, coisa mais estranha, uma cadeira,
um cachimbo pousado, uns restos de
tabaco e, ao fundo, o caixote com a assinatura Vincent.
Viu a pequenez do quarto, a porta, confirmou a indigência
do ocupante, lembrou-se da loucura já sabida e lida, e da
(mais impressionante do que qualquer pintura) orelha, real, cortada.
É estranho, mas foi isto o que ele viu: uma cadeira, um cachimbo, um quarto, uma
porta, um caixote.
Não viu, não leu a coisa em frente dos olhos: a cadeira bêbeda
a levantar voo no quarto bêbedo, as coisas a palpitar, a dançar
num mundo sem firmeza, não viu a alma esvair-se sob o ácido,
não viu o que Huxley viu sob o efeito do mescal, não viu o que se
vê desvairando um tanto que seja.
E, contudo, coisa mais que estranha, olhou para o quadro e escreveu o poema.


João Paulo Esteves da Silva, in Tâmaras, Douda Correria, Outubro de 2016, s/p

sexta-feira, 11 de maio de 2018

CLARA MENÉRES (1943-2018)


Clara Menéres (n. 1943 - m. 2018) cultiva o sentido do sagrado. A sua escultura intitulada Lapis cognitionis (1988), realizada em mármore e néon branco, é eficaz pela sua singeleza. O impacte da forma elementar tem o seu brutalismo alterado pela «osmose óptica» entre a pedra branca e a luz branca. A pedra maciça simboliza a matéria bruta; e a luz simboliza a energia espiritual. O sentido do sagrado manifesta-se na simplicidade do signo vertical. A relação pedra-luz deixa de ser uma oposição. A pedra «desmaterializa-se» nesta imagem, onde a luz parece «consubstanciar-se» com a rocha.

Rui Mário Gonçalves, in A Arte Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998, p. 118

SHORT STORY DE HAROLD PINTER

PROBLEMA

   O telefone toca. Ignoro. Persiste. Não sou parvo. O estratagema a que recorro ocorre-me facilmente. Levanto o auscultador. Não digo nada. Silêncio igual, na outra ponta. Ele troca de auscultador. O tom é extraordinariamente estridente.
   Após dar conta de alguns trabalhos decidi fazer um telefonema. Levantei o auscultador. Silêncio morto. Sem precedentes. O sistema telefónico da minha área é normalmente sans pareil. À comunicação da mais pequena falha vêm os técnicos a correr ao local para corrigir. Mas neste caso há um problema palpável. Não posso telefonar para comunicar a falha. A falha é tão vasta, tão impregnante, tão consumada, tão definitiva que impede, sem um resquício de esperança, a ajuda.
   Telefone calado. Noite morta.
   A linha? O telefone fora do descanso? A linha telefónica fora do descanso? Investigo. Linha segura, com uma certa indolência, no descanso. Estou desorientado. Não só isso. Pego numa cadeira e sento-me desorientado. 
   Desorientado. Ausência de sinal. Noite morta.
   Toca.

*

   Saio da biblioteca, vou a uma cabine telefónica e disco o número da minha casa. Linha ocupada.

*

   Alguém anda a tentar lixar-me.

1976

Harold Pinter, in Várias Vozes, Quasi Edições, trad. Miguel Castro Caldas, Maio de 2006, pp. 106-107.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

PALAVRA DE EDITOR

Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, 14 Abril

   A tarde abriu enorme e coube ainda assim aconchegada pela conversa no edifício, primeiro pensado de raiz entre nós para ser museu, não-lugar do novo sagrado destinado a acolher paisagens e figuras de um espaço e um tempo que parecem já só existir aqui. Ainda nos arredores de Imaginário, quase a desmentir esta ideia de ruralidade que se dissipa, ou, pelo contrário, a confirmar fantasmas e dores, trouxemos «A Festa dos Caçadores», do Henrique [Manuel Bento Fialho]. As razões para o meu entusiasmo são múltiplas, mas devo conter-me, contê-lo, ao entusiasmo, lê-lo e relê-lo, afastar-me dele, procurar gralhas e melhor desenho de página, capa ou contracapa, e continuo a falar do entusiasmo. Este livro apresenta-se-nos carregado de livros nas entrelinhas, ou melhor: pejado de leituras. Cheguei ao Henrique por via das suas excelentes leituras, a conferir em Antologia do Esquecimento (http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/). O livro como objecto e entidade aparece aqui e ali, a evocar a sua condição de bom livreiro e portanto observador, olhando de esguelha certas relações com o bicho, e não tanto enchendo a prosa de citações, que também as há, embora na justa medida do bom tempero. Folheando, a Festa é uma colectânea de contos, uns morais, outros de prosa poética, parábolas aqui, anedotas além, relâmpagos luminosos de pensamento, frase ora despojada ora barroca, rica e variada, bem-humorada q.b., com música e várias infâncias a servir de fundo, além da omnipresente pitada de amargor, como agora se aplica à cerveja que abre caminhos. Será tudo isso, sem deixar de ser «retrato fragmentário da primeira geração de portugueses criada em democracia», diz o autor, que continua. «De um mundo rural em vias de extinção à deslocação urbana, acompanhada de sensações de exílio, solidão e desenraizamento, as personagens destes contos acabam por se fixar num lugar sem espaço nem tempo, nos “desastres de uma vida perdida algures pelo caminho como farrapos de roupa comidos pelo tempo”». Será a voz do narrador? Outro jogo, que aproveita com habilidade os farrapos narrativos que podem ou não agregar estes fragmentos, assenta nos saltos de lugar entre autor e narrador, entre a reflexão e o episódio, entre o íntimo e o disperso. Tanto estou na pele de Henrique como me vejo assistir à dissociação na mente das personagens, que duvidam em permanência do que lhes acontece. Além do amargor, a prosa perfuma-se muito de absurdo: talvez existamos apenas na cabeça de alguém, sonho de uma sombra. Parece-me, portanto, único este volume de 320 páginas de contos a acreditar que poderão ser outra coisa. E também por causa do tempo e outros detalhes maneiros: a areia, seu maior sinal. Ou o silêncio. Assim a própria, há por aqui torto e a direito grãos, suavizando ou incomodando, assinalando que mesmo a rocha maior se pode desfazer, que as mãos não conseguem segurar, que os rastros se apagam de um sopro, que o deserto cresce. Lá para o fim, reza assim o riso escondido nas vértebras das pedras: «Pedi desculpa por me estar a meter na conversa e reforcei que sabia do que ele precisava. Ele olhou-me com reprovação, as devotas olharam-me com desconfiança, olham-me sempre com desconfiança, e eu, agora metido num fosso do qual não teria saída, rematei: o senhor precisa de começar a beber e a fumar. E, já agora, precisa de uma mulher. Precisa de se divertir, O senhor precisa de esquecer que o mundo existe, precisa de esquecer-se de si próprio, precisa de criar na sua vida momentos de interrupção, precisa de ler e de escrever como se não houvesse nada mais importante sobre a terra, precisa de alimentar os seus medos e as suas frustrações com o veneno da indiferença, precisa de dizer adeus ao passado e, se lhe não for doloroso, ao próprio futuro. Precisa, desculpe-me a expressão, de cagar para o futuro e procurar no presente o riso escondido nas vértebras das pedras. Desculpe-me estar a fazer poesia, é defeito meu. Não dura muito. Já a seguir vem o silêncio, voltamos as costas uns aos outros e caminharemos, cada qual para a sua vida, como se arrastássemos o deserto inteiro atrás de nós. O senhor não precisa de mim, mas precisa ainda menos de si.»
   O Henrique só conheceu agora, neste fim-de-semana prenhe de intensidades, anedotas e contos de moralidade difusa, o Sal [Nunkachov] que lhe encontrou o rosto exacto para o livro (algures nesta página), além de interstícios, galhos quebrados, rasgões, sinais que exigem atenção total ao objecto-livro. Quando ma mandou era contracapa tímida, mas a colagem dizia de tal modo caminho e corpo, natureza e espelho que me pareceu o lugar certo para dizer festa e silêncio. O tom sépia agrava a nostalgia.




João Paulo Cotrim, aqui.

terça-feira, 8 de maio de 2018

SEGUNDO REZA A CRÓNICA

   Segundo reza a crónica, que pode ser verdadeira ou fantasista, a escritora Sophia de Mello Breyner e a escritora Agustina Bessa-Luís tiveram o seguinte diálogo:
   — Agustina, o sexo é para si uma coisa porca?
   A resposta terá sido pronta e elíptica:
   — Sim, se for bem feito.

Rui Caeiro, in Diálogos Marados, Livraria Snob, Março de 2018, p. 26.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O SENHOR TESTE


Dentre o caos de excitação e depressão, uma das boas notícias dos últimos dias, a contribuir para o equilíbrio possível de um país cada vez mais bipolar, é a reedição de O Senhor Teste (Relógio D’Água, Março de 2018), obra imortal de um tal Paul Valéry (n. 1871 – m. 1945), celebrado a seu tempo como o maior dos poetas franceses. As opiniões dividem-se. Por cá, a título de exemplo, Jorge de Sena chamou-lhe escritor «público a metro e finança». Aníbal Fernandes, o tradutor, lembra na introdução os 261 Cahiers vindos a lume. A desconfiança de Jorge de Sena contrasta com a admiração de Jorge Luis Borges, ainda que acautelada: «A sua poesia talvez está menos organizada para a imortalidade da sua prosa». Desta, destaca-se La Soirée avec monsieur Teste (1896), acerca da qual Borges sentencia: «Esse personagem (…) é talvez a invenção mais extraordinária das letras actuais». A personagem é o Senhor Teste, «herói tranquilo» segundo Borges, alter-ego segundo o tradutor Aníbal Fernandes, «personagem de fantasia» de acordo com o próprio Valéry, que no prefácio revela ter a criatura surgido numa era de «estranhos excessos de consciência de si». Também podemos especular sobre O Senhor Teste como o produto de um homem sem biografia, a partir de certa altura embrenhado em si mesmo, exclusivamente dedicado ao pensamento e à escrita, à relação possível entre ambas, porventura à impossibilidade de a segunda exprimir o primeiro. 
   O Senhor Teste, tal como a poesia de Valéry, é forma, jogo de espelhos, linguagem velada na sua aparente nudez. Enquanto tal, dispensa carne, ossos, veias, emoções, paixões, dispensa até a vontade, é coisa mental reflectindo-se a si mesma. Num belíssimo ensaio intitulado De Poe a Valéry, T. S. Eliot colocou bem a questão, ainda que centrando-a no contexto de uma análise acerca do interesse de alguns poetas franceses pela poesia de Poe. Diz-nos o autor de Four Quartets que mais do que o homem ou a poesia ela mesma, enquanto expressão das emoções experimentadas pelo homem, é a teoria da poesia aquilo que mais prende Valéry. E acrescenta: «À extrema autoconsciência de Valéry deve somar-se outro traço: o seu extremo cepticismo». Autoconsciência e cepticismo parecem ser as palavras-chave para um enquadramento de O Senhor Teste
   Do conjunto de textos que hoje compõem o enigma Teste, é no texto principal que damos com um encontro entre o narrador e o tal Sr., homem de «maneiras singulares», leitor de jornais, frequentador de teatros e bordéis, talvez pelos quarenta anos, casado, embora solitário, sem riso no rosto ou ar de infortúnio, com ódio à melancolia… vazio. Tudo o que nos é dito acerca deste homem é vago e incerto, por vezes até incoerente, porque nada é possível saber acerca dos homens. O movimento é introspectivo, o narrador volta-se para si mesmo e encontra o Senhor Teste. É no interior da sua condição de narrador que se processa a consciência de uma impossibilidade, a do contacto com o outro. O outro que está dentro de si é incognoscível, tal como incognoscíveis são todos os demais além de mim. 
   Vejamos como se lhe refere a mulher com quem está casado, na Carta da Senhora Émile Teste: «Vivemos muito à vontade, cada qual no seu absurdo, como peixes na água, e só por acidente a notarmos quanta estupidez a existência de uma pessoa razoável contém. Nunca pensamos que o que pensamos nos esconde o que somos» (p. 40). O Senhor Teste ensaia uma consciência da impossibilidade do conhecimento, tendendo para o tal cepticismo declarado por Eliot a propósito de Valéry. Personagem interior, como que põe em xeque a rainha da razão, a reflexão, arrastando para o vazio das impossibilidades o próprio pensamento, a metafísica, a lógica, a filosofia, enquanto capazes de conhecimento. Porque o pensamento é essencialmente linguagem, e esta a todo o momento trai os objectos da representação. Enquanto fruto do pensamento, O Senhor Teste surge para anular a possibilidade do próprio pensamento. Esta é a sua dimensão mais radicalmente paradoxal e labiríntica. Não admira o entusiasmo de Borges. 
   Num dos Extractos do Log-Book do Senhor Teste podemos ler, em resumo, a ironia desta personagem: «Não sei o que é a consciência de um tolo, mas a de um homem de espírito está cheia de tolices» (p. 56). Diria o Senhor Teste acerca de Paul Valéry? Diria Paul Valéry acerca de o Senhor Teste? Não importa sabê-lo. O exercício que nos propõe o texto é de outra ordem, não é um exercício de compreensão ou de percepção, é um exercício de aceitação do nada, da nulidade última à qual tudo se reduz quando ousamos transpor as fronteiras que garantem a lógica da coerência a um pensamento. Restam as dúvidas: «Quem sabe se a verdadeira «filosofia» de alguém é… comunicável?» / «Por que razão, no teatro mental, tu és Tu? Tu e não eu» (p. 101)? Perguntas às quais Ludwig Wittgenstein (n. 1889 - m. 1951), contemporâneo de Valéry, procurou responder. Filosoficamente.