terça-feira, 8 de maio de 2018

08 DE MAIO DE 2018


Noite mal dormida, a pensar em aviões e depósitos esquecidos. Delírios recorrentes que me fazem hesitar entre a noite e a manhã, instalado por força das circunstâncias num crepúsculo descontínuo, numa aurora constante. O dia cresce gerundiamente por detrás dos estores. Volto a dividir-me entre solarengo e soalheiro, piso o soalho do solar em pés descalços e feridos. Queria um pouco de terra onde enterrar as mãos, mas afinal é tudo nevoeiro. Divido-me nas leituras entre Harold Pinter e Rui Caeiro, olho para os livros de arte recentemente adquiridos: Above, Vhils, Hopper. Não vou ter tempo para nada disto, temo não chegar à idade da reforma. Meço a tensão, valores regulares, colesterol alto, convenço-me de que os vegetais farão milagres. Pela certa tornar-me-ão vegetal. Angustia-me a perspectiva dos livros apodrecendo, encafuados em caixas, comidos pelo bolor que cresce nas paredes. Deixarei de herança às filhas todo este bolor. Lembro-me de um título em 2003, “Bolor na Sola dos Sapatos”, e do poema que dizia assim em quadra final:



arrumo-te no fundo do pensamento
e envelheces húmida
como o bolor que se agarra às paredes
em profundo descanso

Bolor nas paredes do pensamento, fragrância de mofo a percorrer o sangue. A caminho dos 44, com tão pouco tempo disponível para pensar, mato-me a escrever. Acabado de ler “O Senhor Teste” questiono-me sobre o sentido, consciente de quão inútil é a questão. Pudesse respirar debaixo de água, por certo não estaria à tona deste nevoeiro.

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