quinta-feira, 17 de maio de 2018

17 DE MAIO DE 2018


Sobre a mesa-de-cabeceira repousa a folha dactilografada por M-M, palavras em tom violeta que me transportam para os primeiros escritos, também dactilografados numa máquina algures abandonada em casa de meus pais. Tenho em mim essa doença do apego. Por dentro, acredito, o sangue bate contra os ossos pejados de lapas. São raízes de pessoas, objectos, amigos, família, que por vezes se quebram hiperbolizando a dor da separação. Nada do que abandonei me é esquecido. Antes pelo contrário. Penso nestas coisas enquanto caminho à margem da baía e respiro fundo o vento, a maresia, grãos de areia contra as mãos abertas na direcção do sol. Começo por dizê-lo para dentro como quem respira, expirando depois na forma de palavras o pensamento trémulo: aceita-me, entrego-me às tuas mãos, natureza, universo, ideia de deus, faz comigo o que entenderes. Não há-de ser grave, as palavras de Stephen Hawking dão-me descanso: «entretanto, a não ser que tenhamos colonizado outros sóis, a humanidade ter-se-á extinguido há muito conjuntamente com o Sol!» Manda o pessimismo da razão que o aproveitemos enquanto é tempo.  

1 comentário:

CCF disse...

Muito bonito este texto, compreendo muito bem a doença do "apego".
~CC~