terça-feira, 22 de maio de 2018

22 DE MAIO DE 2018


   Dou por mim a pensar em murros no estômago, expressão que aplicada à literatura faz pouco sentido - como, aliás, tive oportunidade de dizer em tempos a uma jornalista do Público, a propósito de um depoimento que me foi pedido acerca de Malcolm Lowry. O pensamento foi invadido por murros no estômago na ressaca de mais um livro de Eduardo Galeano, autor que comecei a ler graças à generosidade do V. 
   Murro no estômago é para mim imaginar o V. de machado ao ombro, ou a serrar madeiras algures entre o Ribatejo e a floresta nórdica. Os livros relegados para o seu devido plano, aguardando o termo dos trabalhos braçais. Murro no estômago é a companhia que fiz ao L. em esporádicas incursões piscatórias, comigo de atalaia a ler em voz alta fragmentos de Moby DickPara mim, murro no estômago é constatar que devia ter armado mais vezes a cana de pesca, que por cada livro lido devia ter plantado pelo menos uma árvore. Murro no estômago é ter de constatar quase 44 anos de vida raramente para lá de fronteiras domésticas num raio de 92000 km2. 
   Há um único equilíbrio na minha vida entre intelecto e corpo, tenho maltratado o primeiro tanto quanto negligenciado o segundo. Constato-o enquanto regresso mentalmente aos lugares onde fui verdadeiramente feliz, lugares secretos como há tempos quis o F.A. para uma rubrica na TSF. Falei-lhe na Quebrada de São Romeu, reparando apenas a posteriori que escolhi o caminho mais difícil para lá chegar. Podia ter-lhe falado na Lagoa do Fogo, onde só estive uma vez (e mal), na Praia da Carriagem (ou será Carreagem?), na Fundação de Serralves, onde sempre me senti confortável, na Lagoa de Óbidos e no Paul de Tornada, aqui para estas bandas, na Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, onde há muitos anos disse à Ana que talvez pudéssemos um dia ali casar, no Carrascalinho, em Freixo de Espada à Cinta, que visitei sob influência de um livro do José Rentes de Carvalho… 
   Há vários lugares onde me senti verdadeiramente bem, onde sei que fui feliz. O que os torna secretos não é serem desconhecidos, inacessíveis, raros, o que os torna secretos é ser para mim um segredo a felicidade que neles senti.

*


Regresso do frio, anunciam desatentamente os jornalistas. Não percebem que há muito o frio é a constante. A variável é o calor.

2 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Um texto muito bonito. Há textos em que, lendo-os, se sente a emoção e a inspiração fluida de quem os escreve. Este é um deles.

hmbf disse...

Obrigado, Um Jeito Manso. Saúde,