quinta-feira, 24 de maio de 2018

24 DE MAIO DE 2018


Ontem:
Estreia de A Paz, comédia de Aristófanes, pelo Teatro da Rainha. A Matilde no pequeno papel de uma das filhas de Trigeu, lavrador ateniense que sobe ao Olimpo, montado num escaravelho, para questionar os deuses sobre as guerras que dividam os helenos. Hermes responde-lhe, tentado pelas ofertas que lhe testam a gula. Aprisionada no fundo de uma caverna, a Paz é finalmente libertada pelos camponeses. Trigeu casa com a Abundância, companheira da Paz. Esta, quase esquecida no final, é a maior inimiga dos fabricantes de armas, os únicos que ganham com a guerra. Ontem como hoje, a comédia ática enquanto representação do tempo histórico (digo do, não digo de um). Do passado, ressoa o eco do riso essencial, humano, demasiado humano, tragicamente humano. A comédia de Aristófanes é tragicamente humana, a despeito dos figurinos dionisíacos, das vestes fálicas, do olhar dirigido aos espectadores, da paródia orgíaca, da dança licenciosa do “córdax”. Emergindo da galhofa, a crítica pública do Estado, a censura dos modos e dos indivíduos, o espírito da populaça a chegar-lhe como o reflexo num espelho. Daí que Werner Jaeger tenha pressentido na comédia de Aristófanes um papel censório que era central na educação ateniense. «Em Atenas, a função censora pertencia à comédia». Ela colocava em jogo os modelos, «as forças opostas da comunidade e do indivíduo, da multidão e da inteligência, dos pobres e dos ricos, da liberdade e da opressão». Recuperada para o nosso tempo histórico, é trágico que não perca a urgência inicial. Como se nada tivesse mudado, ao fundo do cenário os muros da nossa vergonha podem ser os que separam a Europa dos refugiados, Israel da Palestina ou a América de Trump do México. Montados num escaravelho, os trigeus actuais vão a Fátima engordar os representantes de Deus na Terra e lamentar os infortúnios enquanto se esquecem da paz à mesa farta de um Carnaval que alterna a rotina da servidão com o fausto de festas sazonais. Ontem como hoje, hoje como ontem, Aristófanes mostra-nos o caminho. Se alguém lhe presta atenção, isso é outra história.

Hoje:
Chego ao cinema do russo Aleksandr Rogozhkin (n. 1949) pela mão do R.A.. Chekist (1992) coloca em cena os tempos desgraçados da Cheka, polícia secreta russa fundada por Felix Dzerzhynsky nos tempos da Revolução. De origem polaca, conhecido como Félix de Ferro, ofereceu à Revolução uma ferramenta de vigilância e repressão da opinião pública responsável pela execução de centenas de milhares de pessoas. Camponeses rebeldes, detractores da Revolução bolchevique, antigos oficiais do exército czarista, traficantes que punham em causa os novos princípios económicos, padres, intelectuais contestatários, foram algumas das vítimas deste terror cruamente representado no filme de Rogozhkin. A rotina das execuções, a burocracia, a arbitrariedade das condenações, os automatismos de uma máquina de execução que normaliza o terror, são o pano de fundo sobre o qual assistimos à perda de controlo emocional dos verdugos. Numa das cenas que lhes retrata o quotidiano, assistimos mais uma vez ao desfile de nomes e consequente condenação. Há um ritmo que pauta o trabalho, uma rotina de morte dividida entre três elementos. Um diz o nome e a acusação, o outro sugere a condenação, o terceiro confirma-a. Tudo rápido e repetitivo como quem recita um mantra, como quem distribui carimbos numa repartição de finanças. A determinada altura, o primeiro elemento do processo resolve quebrar a monotonia. Pronuncia o nome de um dos camaradas na sala e subsequente acusação: chequista. Ao que o segundo responde automaticamente, sem sequer se aperceber que era a si mesmo que condenava: fuzilamento. A loucura normalizada sob a autojustificação consciente de que “a revolução não é filosofia” levará alguns verdugos a sucumbirem perante a consciência das suas acções, tentando suicídio quando pouco mais lhes resta. Sequências montadas como terapia de choque, numa revisitação da história que não vale a pena contestar.

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