domingo, 27 de maio de 2018

27 DE MAIO DE 2018



Consulta do sono, um ano depois da marcação. Entretanto, quantas noites brancas, quantos delírios, quantas horas perdidas a olhar para o tecto, a contar fendas, teias de aranha, quantos nervos arruinados?

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   Jerzy Kawalerowicz (n. 1922 – m. 2007), nascido em Hvizdets, actual território ucraniano, finado na Polónia, aparece no dicionário como sendo autor de «brilhantes reconstituições históricas». Faraon/Pharaoh/O Faraó (1966) é uma delas, com direito a nomeação para melhor filme estrangeiro nos Óscares. Reparo no porte faraónico da estatueta, que seria improvável ir parar às mãos de Kawalerowicz numa época em que a Polónia era parte integrante do chamado bloco soviético. Para mais, o realizador era membro activo do Partido dos Trabalhadores Polacos. 
   O Faraó adapta um romance de Bolesław Prus. Impressiona o extraordinário cuidado na reconstituição histórica dos cenários e dos figurinos. As relações de poder entre governantes e sacerdotes não carecem de cuidados, já que se mantiveram quase inalteráveis ao longo dos séculos mesmo onde o poder político procurou distanciar-se/separar-se do poder religioso. Ambos procuram manipular os povos à sua maneira, retirando os devidos dividendos desse trabalho árduo que é conservar o predomínio de uma força institucional sobre aqueles a quem a força de dirige. 
   Ainda que resistindo a um estilo propagandístico descarado, Kawalerowicz não deixa de fazer de Ramsés XIII um herói no combate às artimanhas do clero para interferir no governo dos povos em proveito próprio. Estamos com ele nessa luta, em nome do pai, do filho e do espírito santo. Sem prejuízo, julgo que um dos elementos mais relevantes do filme é a encenação da beleza feminina. Krystyna Mikolajewska, a rapariga judia por quem Ramsés XIII se perde de amores, é beleza em estado puro; Ewa Krzyzewska, a mulher de Tutmosis, o braço direito de Ramsés XIII, uma tentação constante; Barbara Brylska, a sacerdotisa, cativa-nos só com o olhar. Quem quer que busque imagens destas actrizes ficará tão rendido à beleza faraónica das polacas que rapidamente fará da política e do clero um pormenor lateral. 
   Bendito Pharaoh, que sonhos prazenteiros me propiciarás.

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