terça-feira, 29 de maio de 2018

29 DE MAIO DE 2018


   Cinco dias sem fumar, as palpitações parecem ter sido ultrapassadas por uma espécie de compressão no peito, a tensão estabilizou, a respiração mais calma. O descanso é que não vem, a insónia não deixa.
   Ao largo, de face para mim, algo de mim me observa intimidando-me. Que fazes aí entre os demais? Tantas horas de vida despendidas em teu proveito, o tanto que ficou por ser feito, adiamentos, concessões, o desconforto das cadeiras, o desconsolo da ausência para isto. Tu agora aí, encolhido entre os demais a olhares para mim como se fosses um qualquer. Custa-me ver-te onde todos os dias vejo os outros, é como ter consentido a vulgarização de uma parte de mim, bocado de corpo imaterial, íntimo, réstia de paixão agora morta.
   Vejo duas sobras de pássaro na estrada. Lembro-me do poema do José Gomes Ferreira, um dos meus preferidos: Nunca encontrei um pássaro morto na floresta. // Em vão andei toda a manhã / a procurar entre as árvores / um cadáver pequenino / que desse o sangue às flores / e as asas às folhas secas… // Os pássaros quando morrem / caem no céu. Estes que vi mortos tombaram no alcatrão. Talvez o céu tenha ficado pesado, talvez tenha já caído sobre a terra sem que tivéssemos dado por isso. Talvez estes pássaros tenham sido condenados ao círculo dos poetas, inferno de terra alcatroada e voo rastejante.

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