I’m Your Man
(1988), de Leonard Cohen (1934-2016), há-de ter sido o primeiro CD que comprei
na vida. Teria a idade que a minha filha mais velha tem agora, 15 anos. Lembro-me
de estar na companhia de um amigo a ouvir First We Take Manhattan, da
incredulidade do meu amigo, que não parava de dizer em tom de lamento “que
decadência, que decadência”. Decadência significava a voz envelhecida de Cohen,
em comparação com os álbuns iniciais, era o sintetizador sobrepondo-se à viola
acústica, eram os coros femininos num registo pop inaceitável. Curiosamente,
tinha ouvido falar inicialmente de Leonard Cohen num programa de televisão que
me capturara por causa da mais pop das suas canções: Bird on The Wire. O tal amigo decepcionado, que já
conhecia Songs From a Room (1969) e New Skin For The Old Ceremony (1974), não
aceitava nada do que ouvia, excepto talvez o oud à grega em pano de fundo
durante Everybody Knows.
Regresso amiúde
a Leonard Cohen, por causa das melodias, da ironia, das construções frágeis
que suportam letras inquebráveis, espessas. É verdade que o Cohen que come uma
banana warholiana na capa de I’m You Man já não é o mesmo de Sisters of Mercy.
Nem faria sentido que fosse. Mas se olharmos com atenção encontraremos as
mesmas motivações que cativavam sem que agora nos expulsem de um universo onde
queremos permanecer para sempre, cativos de uma poesia inteligente,
espiritualmente desassossegada, sensual, elegante. E então, além do oud, repararemos
na influência de Lorca, nos violinos neo-românticos, no piano de Jazz Police (que mais parece uma homenagem a Serge Gainsbourg), repararemos em versos definidores
das contradições humanas como estes de I Can’t Forget: I loved you all my life,
and that’s how I want to end it. The summer’s almost gone. The winter’s tuning up. Yeah, the summer’s
gone but a lot goes on forever. And I can’t forget, I can’t forget, I can’t
forget but I don’t remember what. E repararemos no
remate, uma evocação de Hank Williams em estrutura bluesy com letra a rebentar
de confessionalismo.
Anos depois, os The Jesus and Mary Chain ofereceram uma
versão a Tower of Song que de algum modo clarificava o que o tempo faz às coisas. Mais arranjo, menos
arranjo, Cohen esteve sempre no imo das canções que escreveu como uma espécie
de sombra do grande poeta que foi/é. Sombra no sentido em que a canção projecta a
forma da matéria original, o conteúdo de uma personalidade tão romântica quão
inquieta. A música, neste caso, será apenas um suporte expressivo. Que importa
que dancemos a ouvir alguém declarar-se falhado? É como gritar que se é
rastejante com a raiva de um herói. O amor tem destas coisas, leva-nos ao
ridículo, faz-nos repetir refrões com o coração repleto de paixão face a objectos
distantes, indiferentes. Então entramos na canção como quem entra numa igreja
vazia, porventura abandonada, e escutamos no fundo da alma a voz suave de um
anjo:

2 comentários:
o meu primeiro não foi, mas também o comprei.
E qual foi o primeiro?
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