quarta-feira, 23 de maio de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #44



   Vem na Wikipédia, pelo que não deve ser verdade: «Enfrentando um processo de despejo por conta de pagamentos atrasados, João Gilberto deixou o apartamento em que morava, no Leblon, na zona sul do Rio. O músico foi levado para um imóvel cedido por uma amiga da família. Aos 86 anos, ele vive numa situação de fragilidade física e mental, agravada pela condição de miserabilidade financeira, relatou, no dia 2 de maio de 2018, a advogada de sua filha Bebel Gilberto, Simone Kamenetz». Saltamos da enciclopédia de todas as desconfianças para a imprensa e nada desmente o testemunho, apenas o agrava. Como é possível? O pai da bossa nova, pelo menos segundo quem a historiou leia-se Chega de Saudade, de Ruy Castro —, desafinou sempre na vida, a introspecção levou-o para um mundo só seu, quis cantar tão baixinho, contra o ruído e a dispersão, que acabou silenciado num mundo onde é tudo estrondoso, aparatoso, espectacular. 
   Deixemos de lado a história, os acidentes, os factos, a especulação melómana. Concentremos esforços na imagem do homem sem recursos artificiais, só ele e o violão em palco, aqui e acolá um arranjo de cordas, o piano que maravilhou a malta do jazz a ponto de ir parar à Blue Note essa obra-prima que dá pelo título de O Pato. Deixemos de lado a náusea que nos toma conta do pensamento e do pensamento chega às mãos e das mãos passa para o teclado. Poupemos o leitor à náusea, chamemos antes atenção para este facto: João Gilberto, esse mesmo, o que reinventou o violão com puxadas ao ritmo do swing solar, autor de Bim Bom e Hô-Bá-Lá-Lá, vive na miséria, isolado do mundo, porventura exilado de si mesmo, num direito que sempre foi seu. Dever seria, pelo que deu à humanidade, que a humanidade se reunisse em torno deste homem e lhe desse tudo o que se deve a um Deus. Em vez disso, voltamos as costas como se nada e quadruplicamos lamentos e carpideira inconsequentes. 
   Afinal, quantos génios produz o mundo num século? Não seria, no mínimo, exigível que tendo eles sofrido o que de sofrimento pode ser exigido a um ser que cria e se recria e inventa, não seria, no pelo menos mínimo dos mínimos, expectável ou digno de se ver que esses seres raríssimos pudessem pelo menos morrer em paz e conforto, quer dizer, no consolo burguês de não terem despesa e a fome saciada à mão de semear? Parece haver uma incompatibilidade entre o génio e o consolo, entre a criação e o conforto. 
   Adivinha: quem foi o suicida que disse ser o artista aquele que nasce para carregar os males do mundo? Estou contra este artista cristianizado, messiânico, estou contra, ninguém merece morrer na cruz, muito menos quem passou a vida a carregar com ela para que à sua volta crescessem papoilas de vento, fragmentos de beleza. Não pode ser, não é justo nem compreensível que essa voz que nos serena e tranquiliza pereça em miséria, em crise, em tão precária condição. Onde estão os artistas instalados que outrora tanto elogiaram Gilberto? Que têm feito por Gilberto? Não seria um mínimo dos mínimos que se juntassem e fizessem uma vaquinha para lhe oferecerem a vista que merece no Leblon? 
   Ó mundo injusto que Sá de Miranda tão certeiramente definiu, só premeias quem não te merece. Que nos sobra? O desejo que na face de todo o discurso laudatório à hora do necrológio escorra o escarro da nossa náusea.


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