Antes de mais, convém esclarecer o que é isso da minha
geração. Penso na primeira geração de portugueses que cresceu em democracia, os
nascidos na década de 1970, ensinados num sistema massificado. Nascidos já depois de 25 de Abril de 1974, ou pouco antes, apanhámos
pela frente um mundo promissor, o qual se fazia acompanhar do peso das
expectativas, de ambições familiares, de credos sociais e políticos. Os nossos
pais queriam-nos doutores, deram-lhes a possibilidade de oferecer aos filhos
tudo aquilo de que haviam sido esbulhados durante a ditadura. Queriam os filhos
doutores, engenheiros, faziam gala na exibição dos canudos e dos títulos. Era
assim.
Entrei para a universidade em 1992, terminei o curso de
Filosofia em 1997. Em teoria, esperava-me um futuro de docência quando ser-se
professor era ainda coisa respeitável. Rapidamente nos apercebemos da sombra de
ilusão arrastada por uma ideia de futuro, não havia ligações directas entre formação
académica e exercício profissional. Havia nepotismo oligárquico, havia cunha,
havia catequese, em contraste com a parangona da política de mérito à qual se
submetiam mentes ingénuas e anódinas. Portugal fartou-se de formar (farta?)
licenciados sem emprego, sem trabalho, uma geração outrora apelidada de rasca
com a corda da frustração a apertar o gasganete.
Depois, apanhámos pela frente a emergência de um novo génesis.
A revolução tecnológica em curso tornou obsoleta e anacrónica grande parte da
nossa formação, transfigurou o mundo, provou-nos que estávamos deslocados,
teríamos de reaprender a vida a breve trecho. Velhos valores caíram em completo
desuso. Que valor tem hoje isso a que chamamos privacidade quando são as
próprias pessoas a exibirem nas redes cada passo que dão nas suas existências
ditas privadas? A paisagem transformou-se, a paisagem geográfica e a paisagem
humana. Hoje, trazemos o mundo no bolso das calças. Não se ouve música como se
ouvia, as lojas de discos estão a fechar como fecharam os clubes de vídeo. São espécies
em vias de extinção.
A minha geração é essa geração que se observou
dessincronizada do mundo, a primeira a aperceber-se de que o velho mundo não
tinha retorno, o mundo novo era uma aventura de acasos e de acidentes e de
incertezas, o corpo social fora deformado por uma vontade de futuro cativa de
nostalgias inconsequentes. À pressão do sucesso adicionámos a compressão da
rede, do estar em cima do acontecimento, da agitação diária, do ruído
descontínuo da visibilidade. O tempo acelerou-se. Não admira que comecem a surgir tantos elogios do
silêncio e da lentidão, mesmo provindos de meios onde o ruído e o tumulto são traves mestras.
1998, para mim, não foi apenas o ano da Expo 98, essa ideia de um Portugal
moderno a surdir do lixo. Foi também o ano em que durante um interrail pude aperceber-me do quão incipiente era a modernidade no meu país. Foi o meu primeiro ano de
trabalho, numa escola no Alto da Damaia onde praticamente todos os professores resistiam
ao uso de computadores e criticavam acintosamente as primeiras experiências no
sentido de informatizar serviços administrativos. 1998 foi um ano de abre
olhos, a Filosofia valer-me-ia para pouco mais do
que para olhar criticamente o mundo à minha volta. E sofrê-lo em solidão, à
distância. O resto era reaprendizagem, aceitar o que se perdera como curso dos
tempos ou resistir à perda teimando naquilo que acreditava fazer sentido preservar.
O processo pedia banda sonora a propósito, a qual chegou,
imagine-se, da cidade menos provável, a mais clássica e erudita da Europa no que a música diz respeito:
Viena. O improvável aconteceu, o espanto mantinha-se vivo e actual, nem tudo era
já visto. Foi nesse território classista e conservador que a revolução
electrónica irrompeu com estilo e sabedoria. Com groove, sossego, frescura, fleuma.
The K&D Sessions (1998), da dupla Kruder & Dorfmeister, fazia da
remistura o que os dadaístas fizeram com o ready-made. O trabalho de colagem,
programação, remistura, produção, respondia aos sinais dos tempos com arte e
engenho. Ouvimos hoje The K&D Sessions com a mesma serenidade com que o
recebemos no início, e lembramo-nos da escola que então formou Tosca, Peace
Orchestra, Madrid de Los Austrias, Sofa Surfers, dZihan & Kamien… O mundo 'inda agora (re)começara.

5 comentários:
Grande álbum.
Dose dupla.
Exacto.
" Portugal fartou-se de formar (farta?) licenciados" De facto para se ser feliz basta saber ler e contar.
Excelente reflexão. :-)
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