sexta-feira, 29 de junho de 2018
LAUREANO BARROS
(...) Na realidade, Laureano Barros era uma estranha personagem. Perfeccionista e rigoroso até ao exagero, não tolerava a incerteza nem os atrasos (era capaz de cortar relações de amizade por o terem feito esperar alguns minutos para além da hora combinada), nada lhe aborrecia mais que a desonestidade, por ele considerada uma traição aos seus princípios humanistas e sociais-democratas (não podendo, em boa verdade, dizer-se comunista — embora tena acolhido na morada da Foz o comunista na clandestinidade Rogério de Carvalho, e se tenha encontrado, a meio da noite, num pinhal de Vila do Conde, com a também comunista Cândida Ventura, porque se comprometera a entregar-lhe uns documentos secretos, Laureano afirmava-se socialista na sua versão social-democrata). (...) De certa maneira, Laureano Barros era um excêntrico: proibiu que lhe desejassem Feliz Natal ou lhe dessem os parabéns no dia de aniversário (e não aceitava presentes); nunca teve carta de condução, mas tinha um taxista às ordens, com quem dava grandes passeios pelo Gerês; costumava almoçar no luxuoso restaurante Elevador, no Bom Jesus de Braga, aonde frequentemente levava os jornaleiros da quinta (incluindo o lenhador José Corga, conhecido pela proeza de comer três quilos de batatas à refeição), o que inspirava grande consideração aos olhos dos empregados; comprou as dez primeiras edições da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, um luxo extravagante; obrigou Arnaldo Sousa, amigo e director do jornal da terra, O Povo da Barca, a prometer que não publicaria qualquer notícia sobre a sua morte; e manifestou a vontade de ser sepultado nos terrenos da quinta, sem caixão, sem discursos e sem cerimónia religiosa. (...) Laureano Barros procurou incutir nos filhos o gosto pelos livros, a ponto tal que chegou a comprar mais de um exemplar da mesma obra para evitar futuros problemas de partilhas. Cedo, porém, teve de lutar contra a evidência de que nenhum dos três filhos iria preservar inteira a biblioteca. (...)
João Pedro George, na Introdução a O Grilo na Varanda — Luiz Pacheco para Laureano Barros (Correspondência, 1966-2011), Tinta-da-China, Junho de 2017, pp. 23-39.
quinta-feira, 28 de junho de 2018
OITENTA FLECHAS PARA ATRAIR A COTOVIA
Em 1959, Portugal havia assimilado a lição modernista a
ponto de ter germinado segundos e terceiros modernismos, mais sabe-se lá
quantas digestões congéneres. Em 1959, o neo-realismo e um surrealismo tardio
batiam-se em país retardado política e socialmente (com repercussões
insuspeitas nos domínios da alta cultura, que está para a baixa como os estilistas
estão para as costureiras). Dentro de momentos, Ruy Belo (1933-1978)
estrear-se-ia com Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e Herberto Helder, que um
ano antes ameaçara a eternidade com O Amor em Visita, tornaria pública
A Colher na Boca (1961). Quaisquer diferendos poderiam estar sanados, não fosse
a teimosia de uns quantos em medidas de grandeza. Se as casas de apostas não
cessaram foi por não lhe terem faltado apostadores. Mas sejamos honestos:
depois de uma primeira metade do século como foi a do nosso XX, para quê
continuar a apostar? O mais que viesse seria peixe em rede estreita. Em 1959,
nasceu António Cabrita. E mais depois dele, dando continuidade a uma arte que
não carece de medidas de grandeza para se afirmar. A poesia tem destas coisas, mesmo
morta gera seus inúmeros filhos, exército de resistentes num mundo afivelado
por castrantes mediações: o espectáculo, o ruído mediático, a tirania da
popularidade social, com ou sem rede, a cilada do sucesso imediato, das
plateias ilusórias onde pontificam os pares com um pé na academia e outro na
imprensa.
E de António Cabrita não se pode dizer que não tenha andado pelos
jornais (20 anos no Expresso?) ou pela Universidade (a de Moçambique), distribuindo
talentos que pariram livros de contos, de ensaio, romance, novela, poesia. Que
agora reapareça numa editora que já deu provas de nada querer com o institucional,
abdicando de depósitos legais e de ISBN tanto quanto parece estar-se nas tintas
para números de página, só diz do bom gosto na escolha das companhias. Um homem
tem que fazer pela vida, certo de que da poesia colherá apenas alimento para o
espírito, o tal maná da liberdade que torna suportável o viver.
Oitenta Flechas
Para Atrair a Cotovia (Douda Correria, Abril de 2018) é o Livro I de um
projecto ambicioso que procura recolher poesia espalhada aos quatro ventos,
dezoito anos depois de ter sido reunida no volume Arte Negra (Fenda, 2000). São
quatro os conjuntos agora coligidos, dois dos quais devidamente datados: Harpo
Marx na Jaula do Leão (sequência de oito poemas de 2013, outrora anunciada aqui), Hölderlin de Verão
(sequência de 11 poemas), Bar La Fontaine (Prémio Natércia Freire de 2009) e Os Testamentos Apátridas e Outros Cordéis Sem
Alma (conjunto mais vasto, datado de 2017).
A poesia de António Cabrita
coloca-nos em diálogo continuado com as referências cinematográficas,
literárias, musicais, artísticas do autor, resvalando por vezes para a écfrase,
sendo que muito mais frequentemente essas referências surgem como focos e
identificação. Exemplos: «Daí ter sempre admirado o primeiro verso / de Tranströmer:
a realidade / é um pára-quedista que desperta
dentro / do sonho» ou «Também eu, meu caro williams, / preferia viver numa
cidade bordejada / de fábricas de seda». A citação, neste caso, empreende um
reconhecimento identitário que tem no poema Os Avatares (Em Definitivo) exemplo maior de como a auto-ironia pode ser instrumento sem instrumentalizar,
ou seja, ao parodiar-se o poeta não se coloca no centro do mundo, antes dá
conta de uma tomada de consciência do seu lugar no mundo. Lugar precário, como sói
ser o de qualquer mortal. Mais ainda se for poeta. A inclinação humorística,
brincalhona, galhofeira, de alguns poemas sublinha esse facto, ainda que não
afaste uma crença (que nada tem de religiosa) no poema como força expressiva do
pensamento. Desse modo, nos versos deste livro encontramos mais divagações,
diversões, desvios literários, do que observações quotidianas, as quais não
estando ausentes encontram-se quase sempre a meio do caminho com uma qualquer
alusão cultural que as localiza.
António Cabrita é um poeta-leitor, exímio no
tratamento das palavras que melhor garantem o ritmo certo para cenários provenientes
tanto da realidade vivida como de uma imaginação povoada por mitos pessoais. O
riso satírico do olhar, a raiva contida da consciência histórica, certa
melancolia de espírito, mas também um comovente lirismo familiar, sobressaem
nos seus poemas sem que o Eu se ensimesme na lamentação do tempo ou se desfaça
na citação redundante:
A MOSCA E O SANGUE DO LEÃO
A mosca não pode aterrar no sangue do leão,
escreveu breyten breytenbach, nome de granito
onde ecoam uns sincopados cascos de cavalo
mas o que interessa é a renúncia do insecto,
a renúncia de quem escolhe a equidistância,
e como eu se abstém de afogar-se
nas encordoadas veias de Deus. Toda a vida
desejei que me fosse anunciado: «Eis
o que chega da floresta!», apontando aquele
que de si mesmo se perdeu e recolhe
por sob a língua os braseiros da ausência
e a culminação do mais escarpado Nome,
e foi-me, nesta espera, dessorando a pobreza.
E, se ouvia zunir aprestados os vampiros,
julgava-me protegido como a sentinela
a quem só a manhã quebra os ossos.
Assim me habituei aos rumores ocultos
da noite como a árvore aos veios que a impelem.
Mas agora impõe-se-me um direito de nada
mais aguardar, e de desposar a acção,
não a que sob a embriaguez e a macieira levou Will
a decorar com o seu punhal em carne viva o relicário
de Anne Hathaway, mas a que mesmo de esguelha
perdura na memória dos homens em letras exaltadas.
Sinto amiúde que me falha ter exercido qualquer
actividade venatória, como ter sido caçador furtivo
ou guardião do segredo de um crime de grande porte,
e de xisto é o meu coração carecido, mas espero
que o arpão da imaginação abra a porta duma taberna
onde se possa ser mais que borrachão e espirituoso
e o mal e o bem entrancem nos dedos o tabaco
enquanto o cuspo chega à língua, na limpidez
com que o mar doba a espuma branca.
Nota: quem tiver seguido o autor no weblog Raposas a Sul, lembrar-se-á, por certo, de uma primeira versão deste poema e da explicação que
o precedia: aqui.
ENTRE LER MAL E NÃO LER...
Hoje há mais leitores que nunca no mundo, embora o seu nível médio seja espantosamente baixo. A aposta das editoras na exclusiva mecânica do enredo e na prioridade das estruturas funcionais, em detrimento da grande liberdade da criação, já levou o Kundera a falar em «testamentos traídos», e o grave é que não se ache grave que a enorme maioria dos milhões de pessoas que hoje consomem Dan Brown não esteja à altura de ler Rabelais, Cervantes ou Shakespeare. É desastroso, parece-me, que não se considere lastimável que, cinco séculos depois dos foliões analfabetos que o citavam nas tabernas, se considere Shakespeare como um espectáculo para elites. Ora, não se tenham dúvidas: é mais grave ler mal do que não ler.
António Cabrita, in Para Que Servem os Elevadores e outras indagações literárias, Alcance Editores, Maputo, Setembro de 2012, pp. 21-22.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
terça-feira, 26 de junho de 2018
A LIGA DA CHAVE DOURADA
Quando o Super-homem surgiu no primeiro
número da revista Action Comics, em 1938, o mundo estava longe de imaginar o
poder que os super-heróis iriam exercer sobre toda uma geração de jovens
norte-americanos. Três anos depois, os agora famosos Joe Simon e Jack Kirby
deram à luz Capitão América. A capa com Hitler a levar uma murraça deste herói
made in América tornou-se icónica, dando a entender que as histórias de
quadradinhos eram mais do que mero entretenimento adolescente. Elas continham poderosos
elementos de propaganda que procuravam demarcar as forças do bem (aliados) das
forças do mal (nazis), contribuindo desse modo para uma consciencialização
popular de um conflito em emergência. A chamada época de ouro dos super-heróis deu-se,
precisamente, durante o período da II Grande Guerra, acabando não só por perder
folgo no pós-guerra como por gerar sentimentos contraditórios acerca da
influência exercida sobre os leitores mais novos. O paternalismo
norte-americano vislumbrou nos comics, tal como na música rock ou noutras
manifestações artísticas, a influência do diabo, actuando sobre os criadores de
modo a controlar conteúdos e reprimir metáforas.
A censura nunca foi um
exclusivo dos Estados totalitários. O escritor Michael Chabon (n. 1963),
norte-americano de origem judaica, dedicou ao tema 660 de páginas. The Amazing
Adventures os Kavalier & Clay
(2000), Prémio Pulitzer de Ficção em 2001, foi publicado em Portugal com o
título A Liga da Chave Dourada (Gradiva, Abril de 2003). Coloca em cena Samuel Louis Klayman e Josef Kavalier, dois primos
de origem judaica que tornar-se-ão numa das mais famosas duplas de revistas de
quadradinhos. A acção decorre entre 1939, quando Joe Kavalier chega aos EUA
vindo da República Checa, e 1954, o ano em que a influência dos super-heróis sobre
a juventude começou a ser questionada de um ponto de vista persecutório. Joe
deixou para trás a família, carregando consigo a vontade de os libertar das
garras nazis. Sammy, espantado com as qualidades do primo para o desenho, abriu-lhe as portas do universo das revistas de quadradinhos. Do encontro entre ambos surgirá o
Escapista, super-herói inspirado em Harry Houdini.
Chabon oferece-nos um quadro que coloca ao
mesmo nível o plano das possibilidades, vinculado ao real, e o dos heróis,
assente na necessidade de fuga à realidade. Alicerçada no ilusionismo, a mente
juvenil destes criadores oferecia a quem os lesse a possibilidade de escapar.
Mas mais que isso, oferecia aos próprios um modo de evasão que era, também, o
sonho de poderem estar de algum modo a combater os inimigos que haviam deixado
numa Europa distante, mas presente. Joe Kavalier e Sammy Clay têm tudo para se
tornar inesquecíveis, num romance que extravasa o domínio da ficção quando nos
transporta para o ambiente criativo de uma Nova Iorque efervescente, onde encontraremos
Salvador Dalí e respectiva trupe surrealista, o génio de Orson Welles e a
influência de Citizen Kane (1941)... Certo que as fórmulas para escapar ao tédio
existencial aqui aludidas não negligenciam o oportunismo comercial de uma
indústria ávida de fenómenos populares, embora esta dimensão não fira a magia
de um encontro essencial de jovens criativos com a sua própria condição. Esta,
aliás, encontra na homossexualidade de Sam Clay um processo de descoberta
paralelo à libertação operada em Kavalier. O que parece estar em causa é o modo
como as personagens escapam a um mundo opressor, a forma como se libertam de
correntes que os oprimem e impedem de ser eles próprios.
Sam Clay e Joe
Kavalier são, eles mesmos, a personagem que engendraram a determinada altura
das suas vidas. Eles são o Escapista, ainda que no limite de uma força que lhes
permitirá salvarem-se apenas a si próprios. Tudo o mais falha porque tem de
falhar, tudo o mais se reduz a «sonhos de fuga, transformação e evasão» traídos
por um a magia que é truque, que é ilusão, que é prestidigitação, que é
charlatanice. «Josef era uma dessas desafortunadas criaturas que se tornavam escapistas não para provar a superioridade dos seus corpos relativamente às
restrições exteriores às leis da física, mas por razões perigosamente
metafóricas. Os homens desse tipo sentiam-se prisioneiros de correntes
invisíveis —
emparedados, enclausurados» (p. 49). O mesmo podemos afirmar de Sam Clay, o
primo, que a única memória viva que guarda do pai é a da visita a uma sauna,
recordada 400 páginas depois de ter sido referida como recalcamento de uma homossexualidade
finalmente assumida. Entre tantos heróis mascarados, são estes anti-heróis de
rosto descoberto quem mais acaba por sobressair num romance riquíssimo em
parábolas inspiradas nas velhas histórias de quadradinhos.
FLANZINE N.º 17
Flanzine, n.º 17
Tema: Cinzas
Edição de João Pedro Azul
Produção de Cabe Cave - Associação Cultural
Junho de 2018
Índice Demográfico, pp. 54-55.
domingo, 24 de junho de 2018
20 - DO SILÊNCIO DOS RATOS
Eles ficam calados, ratos nos seus cantos, remordendo as armadilhas que a si mesmos montaram, incapazes de desabocanhar as tábuas de queijos, multicolores e, sem excepção, discretamente fedorentos, que tomaram por tábuas de salvação. Queijos pasteurizados, está bom de ver. Ao abrigo de micro-organismos patogénicos, sejam eles a generosidade, a abnegação, o amor ou a verdade. Não: nos seus cantos, onde até o sol é ensombrado e nunca assombra, não penetram tais maleitas e, por isso, nunca terão de escolher entre a alma e o coração, ambos frágeis construções feitas de filamentos de bolor. Decadente. Vivificante. Crescendo a olhos vistos. Fazendo de tudo a mesma coisa. Sem dissimulações. Digno como não pode ser o que bole pela calada. Os sinos sem badalo, não vá a gente acordar. As falinhas mansas com que conquistar sopeiras, baronesas e eleitores de ambas as freguesias. Eles ficam calados, à espera de que os esqueçamos enquanto operam a nossa remoção para parte incerta. Mas eu não me esqueço. E, apesar de tudo, continuo a acreditar que é possível trazê-los, de volta ou pela vez primeira, para o mundo dos vivos. O meu mundo. Iluminado por olhos doces e doridos e infinitamente luminosos. Os vossos, que me ledes de coração aberto.
Miguel Martins, in Lérias, Averno, Agosto de 2011, p. 31.
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Lidos em 2018,
Os mestres e as criaturas novas
POR AMOR AO SPORTING
Os 71,36% dão-me algum alívio, posso sonhar com um Sporting
sem o grunho. Como nunca simpatizei com a personagem, que desde a primeira hora
julguei arrogante, oportunista, mentirosa, insidiosa, a perder-se em
declarações conflituosas contraproducentes, de uma verborreia incontinente nas
redes sociais, ateando fogos com rivais, sócios, figuras históricas do clube,
jogadores, adoptando um estilo populista anti-media, sinto um certo alívio na
possibilidade de ver-me livre de mais esta figurinha tóxica da vida pública
portuguesa. Por outro lado, os 28,64% inquietam-me. Tal como sucede com
Sócrates, há-de haver sempre quem apoie Bruno. Esses jamais reconhecerão no seu
ídolo a figurinha nociva que ele revelou ser. São os que assobiam, ameaçam, agridem,
uma espécie de jagunços ao serviço das suas próprias obsessões e mais nada. Já disse e
repito: depois do que aconteceu, a destituição do presidente não chega. É
preciso extinguir a Juve Leo e marcar todos quanto possam ter estado envolvidos
na invasão da Academira, de modo a que nunca mais lhes seja permitido colocarem
um pé no estádio. A bem da segurança, da pacificação do clube e dos
serviços mínimos de limpeza social.
sábado, 23 de junho de 2018
quarta-feira, 20 de junho de 2018
A TERÇA DE JUNHO
Ontem ouvimos John Coltrane, falámos de surrealismo, de livros-objecto e de collage, lêmos Mário Cesariny, espreitámos o conteúdo de caixas mágicas, observámos mulheres anónimas, recordámos livrarias extintas, viajámos juntos com sala cheia pelos espaços vazios da palavra e da imagem, da palavra-imagem, da imagem-palavra. Tudo porque tivemos por companhia o bom Miguel de Carvalho, alguém que mete o coração em tudo quanto faz. As fotografias são do Ricardo Aurélio. Obrigado.
segunda-feira, 18 de junho de 2018
CLUBE DE OGRES
Tenho-me lembrado assiduamente deste texto por causa do que se está a passar no meu Sporting. Ontem, ao ver a mesa da tal comissão de gestão, chegou-me um cheiro a mofo ao nariz que mudei logo de canal. Infelizmente, estavam a falar de rescisões de jogadores com um clube que os acolheu, educou, formou. O oportunismo tem destas coisas: a gente olha para o mundo e sente-se num limbo. Facilmente se identificam os ogres, mas dificilmente, muito dificilmente, se vislumbram ingredientes para a magia dos bons magos.
domingo, 17 de junho de 2018
UM POEMA DE JULIO MARTÍNEZ MESANZA
PREFERÊNCIAS
Nem os cumes sublimes nem os rios
que não foram manchados pelos homens;
nem os palácios nem as brancas ruínas
dos templos antigos, nem esses deuses
de mármore ou de bronze, iguais todos,
nem a alada vitória ou um bugatti,
menos ainda a música e o baile,
com seus amaneirados sacerdotes:
nenhuma dessas coisas e de outras
tão admiradas pelos mais sensíveis
e que têm que ver com o bom gosto
ne propicia uma impressão profunda.
Antes esses hangares já em desuso,
essas estações fora de serviço,
esse lsabirinto das fundições,
arrabaldes sombrios, descampados
aonde só aí se compreende
essa tristeza perplexa dos homens,
os rios que arrastam sua miséria,
escuros, majestosos e solenes,
e essas lixeiras descomunais.
Julio Martínez Mesanza (n. 1955, Madrid, Espanha),
in Trípticos Espanhóis - 1.º, trad. Joaquim Manuel Magalhães, Relógio
D'Água, Maio de 1998, p. 153.
QUEM SE ESQUECEU DO INTERIOR?
I Governo (1976–1978) — M. Soares (PS)
II Governo (1978) — M. Soares (PS+CDS)
III Governo (1978) — A. Nobre da Costa
IV Governo (1978–1979) — C. A. Mota Pinto
V Governo (1979–1980) — M. L. Pintasilgo
VI Governo (1980–1981) — F. Sá Carneiro/D.
Freitas do Amaral (PSD+CDS+PPM)
VII Governo (1981) — F. Pinto Balsemão (PSD+CDS+PPM)
VIII Governo (1981–1983) — F. Pinto Balsemão (PSD+CDS+PPM)
IX Governo (1983–1985) — M. Soares (PS+PSD)
X Governo (1985–1987) — A. Cavaco Silva (PSD)
XI Governo (1987–1991) — A. Cavaco Silva (PSD)
XII Governo (1991–1995) — A. Cavaco Silva (PSD)
XIII Governo (1995–1999) — A. Guterres (PS)
XIV Governo (1999–2002) — A. Guterres (PS)
XV Governo (2002–2004) — J. M. Durão Barroso
(PSD+PP)
XVI Governo (2004–2005) — P. Santana Lopes
(PSD+PP)
XVII Governo (2005–2009) — J. Sócrates (PS)
XVIII Governo (2009–2011) — J. Sócrates (PS)
XIX Governo (2011–2015) — P. Passos Coelho
(PSD+CDS)
XX Governo (2015) — P. Passos Coelho (PSD+CDS)
XXI Governo (2015–presente) — A. Costa (PS)
PARA EVITAR SER ESMAGADO PELA DESILUSÃO
Na boca de
Deasey, o palito de ouro agitava-se para cima e para baixo.
— O seu habitual
desperdício de talento, Mr. Kavalier. As minhas condolências.
— Obrigado.
— Está a dizer
que pode ser um êxito? — perguntou Sammy.
— É muito
difícil falhar na pornografia — retorquiu Deasey.
Michael Chabon, in A Liga da Chave Dourada —
As espantosas aventuras de Kavalier & Clay, trad. Rui Pires Cabral,
Gradiva, Abril de 2003, p. 295.
AUTO-RETRATO
I - Diário de navegação
Movo-me cintilante com bandarilhas solares entre arenas de pétalas mortas. Pressinto as canetas cravadas e adormecidas.
Arrasto o segredo mineral dos ventos e contemplo o verbo derramado pela raiz. Grito nas veias atrás do sangue para esculpir a cor.
Vou comigo, escapando à loucura, carregado de pólen no papel à sombra do gesto. Aprisiono os sentidos e as vigílias de quem espera a palavra surda.
Apaziguo o corpo numa ruína sedutora onde bebo a areia insone. Fecho as janelas atrás da espuma marítima.
Recordo-me sem saída.
II - Condenação do corpo
Para curar o corpo vibro no vício da memória.
Encosto a sombra no ombro com a certeza duma morte
febril na luminosidade do escrito.
Persigo os versos no desgaste extremo do verso.
No rosto abatem-se os objectos encontrados na maré.
Nunca abandonarei a infância na constelação da manhã.
Reaprendo diariamente o espírito do meu corpo.
Na decifração do dia amadureço a ferrugem no peito,
uma corrosão iridiscente no abandono vigiado da boca.
Pernoito na reclusão cardíaca dos momentos de embarque.
Pertenço a lugar nenhum do estremecimento.
Ao espelho abandono-me no limite das veias.
Meu corpo de rudezas estendidas nos degraus e no crepúsculo.
Meu corpo de icebergues esculpidos pelo sol no regresso inundado.
Na escrita comunico com aquele que ama e demora
na linguagem dos movimentos derramados pelo húmus.
Miguel de Carvalho (n. 1970), in Neste Estabelecimento Não
Há Lugares Sentados (2016). Herdeiro da experimentação surrealista, tem
composto diversas obras que destacam um encadeamento vitalista e
provocatório entre palavra e imagem. São disso exemplo maior as colagens
reproduzidas no livro «No princípio não era o verbo» (DSO, Abril de 2015) e o
romance-collage, em homenagem a Max Ernst, intitulado «A cidade dos paleólogos
e as viagens nocturnas do capitão Dodero» (DSO, Dezembro de 2017), onde coloca
em diálogo textos respigados em romances populares do séc. XIX e colagens desafiadoras
com imagens de proveniência diversa. O onírico adquire nesses trabalhos uma
nova dimensão, trazido à realidade através de representações que lhe captam espantosas
associações livres e inesperadas. Cultor do livro-objecto, acerca do qual
escreveu o interessante ensaio «Atrás das pálpebras, o sonho abriu os olhos.
Tudo estava lá…» (DSO, Novembro de 2014), Miguel de Carvalho levou a cabo
várias experiências revelando bom gosto e a absoluta independência editorial
através da opção por edições artesanais de circulação restrita. Em Abril de
2016, alguns dos seus poemas anteriormente publicados nessas edições reapareceram,
junta a outros, na colectânea «Neste Estabelecimento Não Há Lugares Sentados»
(Alambique), composta por duas partes onde, ora em prosa, ora em verso, o acaso
e o acidente vislumbram possibilidades de fixação na palavra poética, entendida
enquanto «mediação entre uma linguagem verbal e visual». Uma espécie de ode a
uma mulher desconhecida introduz-nos num universo íntimo marcado pelo desejo e
pela distância, colocando o sujeito poético no lugar do voyeur que se interroga
acerca da essência da sua condição de observador. Poesia feita de reflexos, de erupções imagéticas invulgares, num tom por vezes enigmático, noutras ocasiões
assaltado por um encantamento proveniente das múltiplas possibilidades de conexão
do olhar à realidade.
sábado, 16 de junho de 2018
UM POEMA DE MIGUEL DE CARVALHO
O tempo às voltas em círculos
em vazios de apertos e ausências
a luz senão em linhas escuras
onde sombras se erguem e se retesam.
A morada esquecida da carne
tem outra existência neste lugar de fome
diante a lucidez que lhe suscita
um silêncio atrofiado de mínguas.
Um esfomeado que não volve
segue na órbita do instante
interminável nos dias sem comer
sob a pele deste momento
com outra pele que não acaba
senão envolta nos ossos com fome.
Ele revê todas as vírgulas dos segundos
dos órgãos e de tudo
com a força desnutrida
sonolenta no destino do seu corpo.
Cabo Mondego, 6 de Fevereiro, 2014
Piolho [revista de poesia], n.º 13, tema: fome, coord. Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Fernando Guerreiro, A. Dasilva O., Black Sun editores/Edições Mortas, Março de 2014, p. 13.
sexta-feira, 15 de junho de 2018
UM POEMA DE ABELARDO LINARES
UMA ESTRANHA CERTEZA
Durante muitos anos, com frequência
me lembrei de ti, ou da tua imagem,
para ser mais exacto, pois daquilo
que uma vez amamos só nos resta
(tal como de um livro) uma muito vaga
impressão geral e algum episódio.
E com frequência também me perguntei,
procurando entre a névoa da lembrança
não sei se uma resposta, o que deixaste
em mim que continue meu ainda
e se não foi o amor, o meu amor por ti
e não tu própria, o que me importa ainda
e o que procuro ainda ao recordar-te.
Se a nossa vida arde, somos chama
ou aquilo que se queima e é a cinza?
Nessa desmesura que é o tempo
acham sua razão amor e esquecimento,
mas não sua medida. Ao recordar-te,
compreendo-o tão bem, que pouco importa
saber ou não saber, mas tão-somente
sentir que foste parte de mim mesmo,
que estás dentro de mim, tal os meus sonhos,
que são e não são eu, mas em mim nascem,
que já nunca de mim vais apagar-te,
que, queira ou não queira eu o esquecimento,
hás-de ir vivendo com a minha vida.
Que estranha sensação essa certeza.
Abelardo Linares (n. 1952, Sevilha, Espanha), in Trípticos Espanhóis - 1.º, trad. Joaquim Manuel Magalhães, Relógio D'Água, Maio de 1998, p. 97.
ANORAQUE DAS NOITES TROPICAIS
Caldas da Rainha mantém-se nublada, ventosa, fria, a pingar.
Não há massa de ar quente que nos aqueça.
quinta-feira, 14 de junho de 2018
UM POEMA DE JOSÉ LUIS GARCÍA MARTÍN
RETRATO DE UM ESCRITOR DE CERTA IDADE
Dou voltas pelo centro, levanto um cheque,
compro uma coleira de cão, bebidas.
Está um belo dia de verão,
muitos rostos amigos me sorriem,
bebo um copo com um conhecido
que me conta uma história que não entendo
de todo e animo-o e sou feliz.
No rádio do carro passam Mozart.
No fim de contas essa puta velha,
a vida, não se portou mal:
vivo do que escrevo, nunca aturo
maus humores de ninguém, durmo bem
quase todas as noites, bebo muito
apenas um dia por semana, vejo
pouco os meus filhos, é verdade, a mãe deles
esconde-os por debaixo da saia,
um sítio a que prefiro não voltar,
mas não os esqueço nem me esquecem.
Era esta a vida que eu sonhava
nos verões da minha adolescência
quando olhava absorto para o céu
e uma fugaz estrela se soltava?
Nem sei nem me importa. Para a noite
talvez solicite companhia,
ainda que prefira ficar só
e beber e beber. Depois, amanhã,
dormirei como um morto o dia todo.
No rádio do carro passam Mozart,
o céu está mais azul que de costume,
não preciso de nada que não possa
pagar e quase não me dão desgostos
o coração, o fígado e os cães.
Em breve vou fazer cinquenta anos.
José Luis García Martín (n. Aldeanueva del Camino, Cáceres, Espanha, 1950), in Trípticos Espanhóis — 1.º, trad, Joaquim Manuel Magalhães, Relógio D'Água, Maio de 1998, pp. 55-57.
ENCOMENDA
“Levantei a questão na reunião do júri e toda a gente
concordou que não seria um problema. Eu próprio não vi nisso qualquer problema.
O trabalho não está publicado, não é premiável. Não existe. Eu tenho uma
encomenda para um volume, pode ser péssimo, quando vier a sair”.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
«SCANDAL PAYS OFF»
— Foste tu que organizaste isto tudo, filho? — Sorriu a Sammy. — Sabes com certeza que é tudo puro lixo. O Super-Homem também é puro lixo, claro. E o Batman e o Blue Beetle. Essa tropa toda.
— Tem razão — disse Sammy entre dentes. — O lixo vende-se.
— Olá se vende! — retorquiu Deasey. — Posso testemunhá-lo pessoalmente.
— Mas é tudo lixo, George? — perguntou Ashkenazy. — Gostei bastante daquele tipo que salta de dentro dos rádios. — Voltou-se para Sammy. — De onde tiraste essa ideia?
— Tanto me faz que seja lixo como não — disse Anapol. — O que me interessa saber é se é lixo do mesmo género que o Super-Homem.
Michael Chabon, in A Liga da Chave Dourada — As espantosas aventuras de Kavalier & Clay, trad. Rui Pires Cabral, Gradiva, Abril de 2003, p. 173.
terça-feira, 12 de junho de 2018
DO RUÍDO ENQUANTO OBSCENIDADE COGNITIVA
Se quisermos ser menos cépticos, prudentemente
esperançosos, diremos que a política passou a ser também a arte de gerir as
imagens que testemunham os seus rituais.
Entretanto, reina a obscenidade cognitiva: a repetição
incessante das mesmas imagens (da política ao futebol) ameaça entorpecer-nos,
esvaziando não exactamente a nossa atenção ao mundo à nossa volta, mas a
própria consciência crítica com que, noutros tempos, observávamos a acção dos
políticos e outras figuras do domínio público — grita-se mais, especula-se
infinitamente sobre a apoteose de coisa nenhuma, pensa-se menos.
João Lopes, aqui.
segunda-feira, 11 de junho de 2018
ACIDENTE DE TRABALHO
Interrogava-me ontem sobre o porquê de termos acabado com a
possibilidade de jovens menores trabalharem sazonalmente, desde que remunerados
de acordo com o trabalho efectuado. Lembro-me que por esta época havia quem
recorresse à apanha da fruta para ganhar uns trocos, outros inscreviam-se na
apanha do tomate. As vindimas também eram opção, um pouco mais tardia para quem
pretendesse angariar fundos para férias de Verão. Bares e restaurantes aceitavam reforços em certas localidades mais procuradas por turistas
e visitantes esporádicos. Depois isso acabou. Por um lado, ficou feio os
meninos laborarem com pais tão bem sucedidos na vida. Por outro, ficou difícil
para o empregador assumir a responsabilidade de aceitar menores como força de
trabalho. Já hoje fiquei a saber que morreu um jovem de 14 anos, ao que dizem
as notícias piloto. Morreu na sequência de um acidente durante o campeonato espanhol
de velocidade. Portanto, um acidente de trabalho. Tinha 14 anos.
domingo, 10 de junho de 2018
DIA DA RAÇA
Se, imaginando só tanta beleza,
De si com nova glória a alma se esquece,
Que será quando a vir? Ah! quem a visse!
Luís de Camões
O resto está aqui.
UM POEMA DE JORGE DE SENA
L'ÉTÉ AU PORTUGAL
Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?
Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.
Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.
Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?
Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.
Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.
Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
— mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?
Chatins engravatados, peleguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem as pernas — e como cães sem faro
os pilhas poetas se versejam trúfias.
Velhos e novos, moribundos mortos
se arrastam todos para o nada nulo.
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais singelo pulo.
Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.
(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende).
Lisboa, Agosto 1971
Jorge de Sena, de Exorcismos (1972), in Poesia - III, Edições 70, Agosto de 1989, p. 177-178.
UM POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL
PORTUGAL
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem matizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neill, de Feira Cabisbaixa (1965), in Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2000, p. 211.
sábado, 9 de junho de 2018
[Olha os impressos, os envelopes.]
Olha os impressos, os envelopes. Não te esqueças do registo para as cartas e da cabeça que te deixei na caixa de correio. Ordena as capas. Cuidado com os separadores. São cinco e sem cinco o pescoço à guilhotina. O sono sepultado neste cortejo percorrido a nojo. Vais para casa e não dormes, encostado às costelas doentes do quarto. Sentes que alguém está para morrer brevemente e que a arte do mundo foi esquecida num tropeção de labaredas triangulares. Acotovelas-te nesta velhice de nenhuma idade para contar. Percorres as livrarias vazias da cidade e caminhas apressadamente para um lugar escuro onde possas finalmente chorar. Acomete-te, por fim, a visão de um farol no núcleo de uma paisagem africana. Leopardos à cabeceira de um astro apontado ao sangue roído da terra. Ainda assim, não consegues escrever. Meses e meses sem escrever, até que enlouqueces de olhar pregado numa cervejaria decrépita nos arrabaldes da cidade. Com o polegar anuncias a vinda do Outono e colhes, de desmaio em desmaio, o mosto que por esses dias te enfeita o rosto trémulo como uma peste. Revelas a uma criança que não cortas as unhas dos pés. Não por indolência, mas por saberes que essa é talvez a única forma possível de iludir o itinerário da morte.
Pedro Magalhães (n. 1981), in Cárcere. Natural de Guimarães,
publicou Imaginários Corvos de Sangue (Edita-me, 2011) e Cárcere (Debout
Sur l’Oeyf, 2017). Está representado na antologia Casa (do lado
esquerdo, 2016). Autor de poemas em prosa por vezes narrativos, com suas
personagens vagas (Valéria, Senhor Clemente, etc…), noutras ocasiões cifrados
por uma linguagem altamente metafórica, carregada de imagens violentas e de
ricas associações sinestésicas (cor de uivo). A intimidade surge nestes poemas
sem que o discurso se incline para o intimismo, sendo perceptível as marcas da
saudade, da ausência, da incomunicabilidade: «Esbichar as ervas daninhas das
palavras enquanto vou trauteando derrotas diárias de uma vigilância
empobrecida». Luís Miguel Nava será porventura na literatura portuguesa o autor
que mais se aproxima de uma referência para estes textos, os quais não recusam
no seu vigor caudaloso ecos de um mundo real (a escória deste país) e ressonâncias
imaginárias com dragões, magos e monges à mistura.
FUTEBOL vs POLÍTICA
Um dos meus problemas com discursos acintosos acerca do futebol, entendido na generalidade e genericamente, pode ser exemplificado com este fragmento de um texto de JPP. Substituam a palavra futebol por política e perguntem-se: qual a diferença? Nenhuma, zero, nomeadamente no nosso país, em que a máfia de futebol tem muito a aprender com a máfia da política. Principalmente no que diz respeito a estragos provocados na vida de todos.
ESGOTO A CÉU ABERTO
No esgoto a céu aberto das notícias sobre futebol nada
parece ter já gravidade. E por isso ninguém se pergunta como pode uma claque
ser apoiada por uma instituição de utilidade pública como é um clube de
futebol, ainda que em crise, e ao mesmo tempo admitir a candidatura à sua
presidência de um criminoso. E ninguém se pergunta como podem jornalistas
fingir que caem na armadilha de divulgar essa candidatura apenas e só porque dá
audiências.
Rui Tavares, para ler na íntegra, aqui.
sexta-feira, 8 de junho de 2018
ANTHONY BOURDAIN (1956 - 2018)
Este fez-me ver televisão com prazer, gesto cada vez mais raro. As notícias avançam com a possibilidade de suicídio. Não está fácil o mundo.
UM POEMA DE JOHN MATEER
OS LIVROS
Nem todos os livros foram lançados às fogueiras.
Alguns, como Ibn Zumbul conta, foram guardados em mesquitas abandonadas.
O nosso Viajante, ouvindo isto, foi levado a uma mesquita,
e através do buraco da fechadura não viu nada
mas ouviu — não o vento — o restolhar de vermes.
Talvez, pensou, todos os livros sejam o Não-criado.
John Mateer (n. 1971, Roodepoort, África do Sul), in Drescrentes, Debout Sur l'Oeuf (DSO), Outubro de 2015, p. 46.
PROIBIR NÃO É SOLUÇÃO
Não tenho telemóvel. Ando com um que é da empresa para a qual trabalho, porque a tal me obrigam. Odeio telemóveis, um ódio que não tolda minimamente uma das regras que tenho na vida: proibir não é, nunca foi, nunca será solução para nada. A solução é educar, pelo que preferia que a notícia fosse: escolas educam o uso de telemóveis. Mais uma vez, desinvestimos na educação apostando na repressão. Erro crasso.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
ALBANO MARTINS (1930 - 2018)
CHÃO DE LARVAS
Devolvo
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente
Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes — substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.
Albano Martins, in Hífen — cadernos semestrais de poesia, n.º 1, Outubro de 1987 / Março de 1988, direcção de Inês Lourenço e de Maria das Graças Mano, Novembro de 1987, p. 2.
TRUMP AND KIM JONG-UN'S NUCLEAR SUMMIT
Blue Noses (colectivo de artistas russos fundado em 1999)
An Epoch of Clemency (Kissing Policemen)
Da série The Era of Mercy, 2005
quarta-feira, 6 de junho de 2018
POMBOS LERDOS (actualizado)
Pombos Lerdos
Vários Autores
Medula, Abril de 2018
(para encomendas ver: aqui)
[O meu talento é bater palmas], pp. 9-10.
A esta publicação dedicou Diogo Vaz Pinto duas páginas no jornal I, contribuindo para o diagnóstico certeiro recentemente levado a cabo
por João Pedro George: «o cadáver que é preciso enterrar, hoje, é a crítica jornalística». Numa das duas páginas, misturam-se «lenda rural» e Machado de Assis.
Seriam indispensáveis para a compreensão do objecto em análise, pretendesse o
Bicho analisar alguma coisa. Não quer. Analisar não é para quem quer, é para
quem pode. E DVP não quer nem pode, o que não tem mal. Confunde tudo como
normalmente faz, dizendo que os outros é que estão confundidos. E da
confusão resulta que folhetins e folhetos passam a cumprir o mesmo papel na
História da Literatura, como se fossem uma e a mesma coisa. Mete-se a plaquete (meio)
e o folhetim (género) no mesmo saco e sai: folheto. Estamos falados. A este,
chamou-lhe «pífio manifesto», o que nos parece um manifesto exagero, não pelo
que possa ter de pífio, mas pelo que claramente não tem de manifesto. Tem
desculpa o Bicho, diz que se deitou de costas a tirar macacos e a olhar para as
estrelas. É provável que com a distracção os macacos tenham ido parar-lhe à
boca, depois mascou-os e cuspiu-os para a folheca do jornal. Saiu a macacada do
costume.
Chama atenção sobre si mesmo, como sempre faz, e diz que lhe deram
uma alegria. A ele. Ao crítico. Até pensámos que estava a falar de outrem, já que
de crítico do que quer que seja este tem tanto como eu tenho de engenheiro
aeronáutico. A primeira página foi para os pardais, isto é, para os pombos. A
segunda não merece melhor destino. Novamente a chamar atenção sobre si, dizendo
que a edição de Pombos Lerdos quis visá-lo, o Bicho não percebe, nunca
perceberá, a distância que vai entre o que ele é e o que ele afirma. Pombos Lerdos
teve um motivo, a preocupação inusitada de Vaz Pinto com a proliferação de
plaquetes de poesia publicadas por pequenas editoras. A este propósito,
questionámos o "visado" sobre a origem da preocupação. Lembrámo-lo de que ele
próprio tinha publicado várias dessas plaquetes. Mas ele nada disse, fechou-se
em copas como se nada fosse com ele. Não gosta dos tijolos publicados pela
Assírio à laia de obras completas, acha que a Praça vem sendo conspurcada pela
disseminação de pequenas editoras, vive incomodado com o dinheiro que as pessoas gastam
nestas coisas. Não podemos levar-lhe a mal, é um teólogo da justa medida. Logo
ele, todo desmesurado na prosa, surge-nos completamente comedido na moral. Quer
dar ares de Pacheco, mas parece-se com José-Augusto França.
E
assim temos que, das duas páginas, sobram três parágrafos e uma citação de
Joaquim Manuel Magalhães. Quem mais?! Como um dos parágrafos me é inteiramente
dedicado, dispenso-me dos restantes (onde encontramos mais uma referência,
desta feita a G. K. Chesterton, sem a qual o poema de João Alexandre Lopes
também não seria inteligível). Pela parte que me toca, só tenho a dizer bem do
Bicho. A minha história com ele vai longa de mais para que me alongue. Tem-me
dedicado uma atenção que não mereço, desproporcional à atenção que não lhe
presto e ele por certo mereceria. Sou a «besta de estimação» do Bicho, e até já tive direito a poema, apesar de ser «água-choca» e
«brutinho» (esta mania de projectar-se nos outros deve ter uma qualquer
designação psiquiátrica que desconheço). É só seguir os links para se ficar com uma percepção do amor que me tem, a despeito da consideração que não lhe mereço ainda que aqui venha debicar amiudamente. Levou o Nicanor Parra, o Patrick Kavanagh, o Olav H. Hauge, e queira Deus saber que mais... eu dispenso.
Também me chegam ecos de que lá no
Facebook, onde o Bicho passa a vida a agitar águas, sou visado com espantosa frequência (já que sem direito a resposta por não frequentar esse pardieiro onde intelectuais da melhor safra se sentem como peixe na água).
Há tempos, fizeram-me chegar uma a que achei piada: «Professor Doutor
Ressabiadíssimo». Enfim, eu sou estas coisas todas ignorando o Bicho. Ele é
nada disto, atirando-se-me ao nome, depois de ter ameaçado atirar-se-me à
pessoa, con-ti-nua-da-men-te. Digamos que cada qual sabe como ocupa o tempo da vida
que tem, assim como cada qual sabe onde aplica os seus investimentos. Tomaria eu que o Bicho me desse de uma vez por todas por morto, morto
dessa morte a que alude no tal parágrafo que me foi dedicado. Morto para
o Bicho seria sinal de boa morte. Dêmos-lhe o mérito de não fingir que não vê,
o único que tem. Pois quando começa a dizer o que viu, a gente apercebe-se de que viu tudo ao contrário e é uma chatice, um tédio, uma modorra, um
aborrecimento, uma maçada, uma estopada, um enfado, um fastio e demais
sinónimos que o word desenrasque para aquilo que o Pinto é. Podia ser bom rapaz, soubesse dar às leituras o tempo que não dá ao pensamento. Todo ele é agitação. A pressa leva-lhe o gás.
P.S.1.: E agora sou «cadáver», mais uma vez sem que nada de essencial tenha sido respondido. Eu perguntei claro, o Bicho (sic) responde no velho estilo rococó que lhe conhecemos para não responder a nada.
P.S.2.: Desfazendo eventuais equívocos, sugeridos pela seguinte passagem:
Com o pormenor delicioso, entre outros, de ter Fernando Pinto do Amaral sido convidado a apresentar o n.º 2 da revista Criatura, como aqui ficou registado.
P.S.1.: E agora sou «cadáver», mais uma vez sem que nada de essencial tenha sido respondido. Eu perguntei claro, o Bicho (sic) responde no velho estilo rococó que lhe conhecemos para não responder a nada.
P.S.2.: Desfazendo eventuais equívocos, sugeridos pela seguinte passagem:
Resta que, ou ignoram muito vermelhuscos, ou a ideia é
revogar-me a carta, licença, prostrar-me na indigência de eu ser uma qualquer
abominação, “Bicho”, monstro que ligam com tudo o que é baixo, e mesmo assim
paira sobre eles sem explicação. Um chernobyl encarnado.
... aqui se
reproduz o talão de uma transferência efectuada para o Bicho em Janeiro do ano
passado. Supomos que não tenha mudado de nome:
P.S.3.:
O importante é, tanto quanto possível, partilhar um
agrado pelas pessoas e coisas que o merecem. Não acrescentamos nada à merda
atirando mais merda para essa “mirífica montanha”. A merda despreza-se.
Diogo Bicho Duarte Vaz Pinto, aqui, a 10 de Março de 2009, muito antes do Facebook:
Levanta o braço a oeste, baixa-o a este (aqui). E quando lhe convém pousa para a fotografia em threesome.
Com o pormenor delicioso, entre outros, de ter Fernando Pinto do Amaral sido convidado a apresentar o n.º 2 da revista Criatura, como aqui ficou registado.
Não fizeram nada. Mal ou bem, só divulgaram para cima de 80 poemas de Parra sem cobrarem nada por isso: aqui. E o Bicho, dando por isso, levou lá para a terra dele: aqui.
Palavras para quê? É um artista português.
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