domingo, 10 de junho de 2018

10 DE JUNHO DE 2018


   Dia de Portugal, país de antiquado povo ingovernável, subsumível ao gosto popular de quadras anódinas, parentes de apelido impositivo, curvo-me a teu nome como aos pés de um deus, sou filho de ladrilhos barrentos, meus pais passaram fome que eu não conheci, Portugal ínfimo, é uma desvantagem ter sido parido em teu ventre.
   Dia de Camões, poeta de amores desventurados, o da tença, intrépida raridade numa pátria de necessitados, esse de peito condoído a rivalizar com dribles, marcas de penálti, glosamos a glória póstuma que te dedica a história, em paz descansados na vã glória de estarmos vivos, engenhando tanto quanto podemos a procrastinação de estarmos mortos.
   Dia das comunidades portuguesas, caninas, ciganas, homoeróticas, comunidades acordadas em guiões equatoriais de guinés distantes, comunidades assassinadas por candidatos manifestos a claques de clubes futebolísticos, insultadas em plena feira do livro, comunidades de Camões a rir pelo olho estragado o que chora com olho são, dia da raça em paz descansada sobre tronos de estrume honestamente defecado.
   Portugal, «deixai-me descansar em paz ũa hora, que comigo ganhais pouca vitória».

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