segunda-feira, 11 de junho de 2018

11 DE MAIO DE 2018



   Anthony Bourdain morreu, suicidou-se. E o que mais se escuta por aí é: tinha uma vida tão boa. Mas o que sabem ou julgam saber as pessoas dessa vida que quis interromper-se?
   Só tenho lido merda sobre o suicídio de Anthony Bourdain, exactamente o mesmo tipo de merda que li aquando do suicídio de Robin Williams. É-nos mais fácil acreditar na imagem pública que construímos de alguém do que na forte possibilidade de tudo quanto nos é dado saber acerca de uma figura pública ser mera aparência.
   O mundo das redes sociais, dos media, das capas de revista, desloca-nos para o interior da caverna. Não queremos sair de lá. Preferimos uma mentira consoladora a uma verdade inquietante. Só vemos sombras e chega-nos, não queremos mais, a verdade esgota-se nas sombras. Não há ninguém que ouse questionar o sentido, ninguém quer assumir a ausência de sentido, toda a gente disfarça o desconcerto com simulações de espanto. 
  Puta que pariu o espanto. As pessoas matam-se porque a determinada altura deixam de querer viver na mentira, na falsidade, na aparência, na sombra. Pelo menos nesse momento têm uma certeza. Estar vivo é estar sujeito à incerteza, há quem não pretenda sujeitar-se ao incerto indefinidamente. E mata-se. Pronto, acabou, foi-se.



Imagem ao alto: p. 54 de "A Festa dos Caçadores", excerto do conto "Mera Hipótese", Abysmo, Abril de 2018.

3 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

Espero que não seja assim. Espero que as pessoas se matem apenas por não suportarem a dor de estarem vivos e não por não quererem viver na mentira ou na dor. David Foster Wallace compara os suicidas àquelas pessoas que saltam de uma janela num incêndio para evitarem morrer queimadas. Prefiro essa ideia, apesar de tudo.

a outra disse...

Afirmar que as pessoas se matam porque " a determinada altura deixam de querer viver na mentira, na falsidade, na aparência, na sombra. Pelo menos nesse momento têm uma certeza. Estar vivo é estar sujeito à incerteza, há quem não pretenda sujeitar-se ao incerto indefinidamente. E mata-se. Pronto, acabou, foi-se." não será incorrer no mesmo erro que os demais?

hmbf disse...

Especular sobre a razão de alguém se matar não me parece o mesmo que negar o sentido dessa especulação. A recusa da incerteza não é o motivo, ainda que possa ser uma forte motivação. Presumo até que a mais forte de todas, sobretudo quando se mistura com dor física.