Inventário de um dia comum, motivado por poema de José Luis
García Martín: manhã de leituras. Sigo para o trabalho a pé. Reorganizo a
exposição de alguns livros, recepciono outros, devolvo muitos. Visitado por clientes
regulares, poucos desconhecidos, troco palavras circunstanciais. Sem que nada o fizesse prever, dois deles contam-me
histórias de vida com mortos e perdas pelo caminho. Pelas 18h, como uma salada
à pressa.
Larguei o serviço às 23h, parei no Démodé e bebi duas cervejas
Sagres. Paguei um Baileys a uma jovem que se
sentou a meu lado, no balcão, e despedi-me. Caminhada nocturna calma e silenciosa,
ninguém nas ruas. A sensação de ter passado ao lado da puta velha sem sequer
termos reparado um no outro.
Cheguei a casa com toda a gente já deitada. Estirei-me
no sofá da sala a fingir que via o Ben-Hur, enquanto mastigava um resto de
salada e dois croquetes ao som do tambor que marca o ritmo na galé. Fui para a cama por volta das 3h, cada vez mais perto
dos cinquenta, o pânico a tomar-me conta do peito, um coração deprimido,
palpitante, acelerado, o ónus de jamais ter parado na infância ou adolescência para
sonhar com a vida. Calhou-me assim.
Hoje, na rádio, dão sol no país inteiro.
Aqui onde estou nem uma nesga de céu azul se avista. Está vento, a temperatura
baixa, dir-me-ia na Escócia não fosse o chamamento do amolador de tesouras.
2 comentários:
"A sensação de ter passado ao lado da puta velha sem sequer termos reparado um no outro."
Isto é bom, pá!
Saúde, Henrique.
Mérito do José Luis García Martín.
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