quinta-feira, 14 de junho de 2018

14 DE JUNHO DE 2018


   Inventário de um dia comum, motivado por poema de José Luis García Martín: manhã de leituras. Sigo para o trabalho a pé. Reorganizo a exposição de alguns livros, recepciono outros, devolvo muitos. Visitado por clientes regulares, poucos desconhecidos, troco palavras circunstanciais. Sem que nada o fizesse prever, dois deles contam-me histórias de vida com mortos e perdas pelo caminho. Pelas 18h, como uma salada à pressa. 
   Larguei o serviço às 23h, parei no Démodé e bebi duas cervejas Sagres. Paguei um Baileys a uma jovem que se sentou a meu lado, no balcão, e despedi-me. Caminhada nocturna calma e silenciosa, ninguém nas ruas. A sensação de ter passado ao lado da puta velha sem sequer termos reparado um no outro. 
   Cheguei a casa com toda a gente já deitada. Estirei-me no sofá da sala a fingir que via o Ben-Hur, enquanto mastigava um resto de salada e dois croquetes ao som do tambor que marca o ritmo na galé. Fui para a cama por volta das 3h, cada vez mais perto dos cinquenta, o pânico a tomar-me conta do peito, um coração deprimido, palpitante, acelerado, o ónus de jamais ter parado na infância ou adolescência para sonhar com a vida. Calhou-me assim. 
   Hoje, na rádio, dão sol no país inteiro. Aqui onde estou nem uma nesga de céu azul se avista. Está vento, a temperatura baixa, dir-me-ia na Escócia não fosse o chamamento do amolador de tesouras.

2 comentários:

maria disse...

"A sensação de ter passado ao lado da puta velha sem sequer termos reparado um no outro."

Isto é bom, pá!

Saúde, Henrique.

hmbf disse...

Mérito do José Luis García Martín.