sábado, 16 de junho de 2018

16 DE JUNHO DE 2018



Passo em revista as revistas, as publicações colectivas, dezenas delas já embrulhadas num manto de esquecimento, repletas de poemas, de artigos, de contos, traduções, o trabalho dos outros, o meu trabalho, milhares de caracteres impressos que o tempo se encarregará de preservar ou desfazer. Pergunto-me porquê, para quê. De onde vieram os convites? Por que vieram? Que sentimento motiva o trabalho gracioso das revistas? Talvez seja o vento que me fala pelas frinchas, talvez este sol que ilumina a solidão em que vivo, talvez uma nostalgia inerente ao fracasso, talvez simplesmente a ideia de que tudo podia ter sido de outra maneira. Podia nada disto ter sido feito, podia nada disto ter sido realizado. É até possível que a seu tempo a partilha desinteressada de palavras se extinga como um animal ferido pela poluição, pelo ruído, pela indolência de quem cresce num mundo obcecado com o sucesso. Abraço o fracasso como a um amigo, da frustração faço companhia diária para que não me atormentem os heróis em linha recta, todos campeões de alguma coisa que desconheço e me é inacessível. Por meta conheço apenas a morte, corredora de fundo a quem, que eu saiba, jamais alguém ganhou. Portanto, seremos todos bem-sucedidos no fracasso, sem dúvida que o nosso maior sucesso será ter vivido fazendo contra a ilusão de que vale a pena fazer. Porque não é por valer que a gente faz. A gente faz simplesmente por fazer.

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