quarta-feira, 27 de junho de 2018

27 DE JUNHO DE 2018


   Entretanto faz-se tarde, a dor assalta as costas, carrega-se a tristeza aos ombros e é tanto o peso que se carrega, as costas cedem e acordas com dores ao som dos motores, das ausências, das distâncias. 
   O sol penetra as sombras de uma casa perdida, acumulações de pó sobre a mobília velha, paredes salpicadas de bolor, migalhas espalhadas pelo chão esperam por pássaros esfomeados que nunca mais chegam, migraram para outros lugares, fez-se tarde. 
  Entretanto mais um dia riscado no calendário, uma pilha de afazeres adiados repousa para a eternidade em agendas perdidas, chegam pelo correio páginas infindas que jamais alguém terá tempo para ler, dobram-se jornais, revistas, acordes de guitarra e lixo com eles, é tarde. 
  Salvo por um copo de vinho branco ao fim do dia, o homem pressente falhas no ritmo cardíaco, entre sístole e diástole há um tempo morto que é a cama onde se deita a sonhar com dias livres. E todos os rostos lhe surgem tardios, desfigurados por uma caricata desproporcionalidade, como que esborratados na página ondulante de quotidianas aberrações.
   Entretanto a noite surge, o dia nasce, faz-se tarde.

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