Em 1959, Portugal havia assimilado a lição modernista a
ponto de ter germinado segundos e terceiros modernismos, mais sabe-se lá
quantas digestões congéneres. Em 1959, o neo-realismo e um surrealismo tardio
batiam-se em país retardado política e socialmente (com repercussões
insuspeitas nos domínios da alta cultura, que está para a baixa como os estilistas
estão para as costureiras). Dentro de momentos, Ruy Belo (1933-1978)
estrear-se-ia com Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e Herberto Helder, que um
ano antes ameaçara a eternidade com O Amor em Visita, tornaria pública
A Colher na Boca (1961). Quaisquer diferendos poderiam estar sanados, não fosse
a teimosia de uns quantos em medidas de grandeza. Se as casas de apostas não
cessaram foi por não lhe terem faltado apostadores. Mas sejamos honestos:
depois de uma primeira metade do século como foi a do nosso XX, para quê
continuar a apostar? O mais que viesse seria peixe em rede estreita. Em 1959,
nasceu António Cabrita. E mais depois dele, dando continuidade a uma arte que
não carece de medidas de grandeza para se afirmar. A poesia tem destas coisas, mesmo
morta gera seus inúmeros filhos, exército de resistentes num mundo afivelado
por castrantes mediações: o espectáculo, o ruído mediático, a tirania da
popularidade social, com ou sem rede, a cilada do sucesso imediato, das
plateias ilusórias onde pontificam os pares com um pé na academia e outro na
imprensa.
E de António Cabrita não se pode dizer que não tenha andado pelos
jornais (20 anos no Expresso?) ou pela Universidade (a de Moçambique), distribuindo
talentos que pariram livros de contos, de ensaio, romance, novela, poesia. Que
agora reapareça numa editora que já deu provas de nada querer com o institucional,
abdicando de depósitos legais e de ISBN tanto quanto parece estar-se nas tintas
para números de página, só diz do bom gosto na escolha das companhias. Um homem
tem que fazer pela vida, certo de que da poesia colherá apenas alimento para o
espírito, o tal maná da liberdade que torna suportável o viver.
Oitenta Flechas
Para Atrair a Cotovia (Douda Correria, Abril de 2018) é o Livro I de um
projecto ambicioso que procura recolher poesia espalhada aos quatro ventos,
dezoito anos depois de ter sido reunida no volume Arte Negra (Fenda, 2000). São
quatro os conjuntos agora coligidos, dois dos quais devidamente datados: Harpo
Marx na Jaula do Leão (sequência de oito poemas de 2013, outrora anunciada aqui), Hölderlin de Verão
(sequência de 11 poemas), Bar La Fontaine (Prémio Natércia Freire de 2009) e Os Testamentos Apátridas e Outros Cordéis Sem
Alma (conjunto mais vasto, datado de 2017).
A poesia de António Cabrita
coloca-nos em diálogo continuado com as referências cinematográficas,
literárias, musicais, artísticas do autor, resvalando por vezes para a écfrase,
sendo que muito mais frequentemente essas referências surgem como focos e
identificação. Exemplos: «Daí ter sempre admirado o primeiro verso / de Tranströmer:
a realidade / é um pára-quedista que desperta
dentro / do sonho» ou «Também eu, meu caro williams, / preferia viver numa
cidade bordejada / de fábricas de seda». A citação, neste caso, empreende um
reconhecimento identitário que tem no poema Os Avatares (Em Definitivo) exemplo maior de como a auto-ironia pode ser instrumento sem instrumentalizar,
ou seja, ao parodiar-se o poeta não se coloca no centro do mundo, antes dá
conta de uma tomada de consciência do seu lugar no mundo. Lugar precário, como sói
ser o de qualquer mortal. Mais ainda se for poeta. A inclinação humorística,
brincalhona, galhofeira, de alguns poemas sublinha esse facto, ainda que não
afaste uma crença (que nada tem de religiosa) no poema como força expressiva do
pensamento. Desse modo, nos versos deste livro encontramos mais divagações,
diversões, desvios literários, do que observações quotidianas, as quais não
estando ausentes encontram-se quase sempre a meio do caminho com uma qualquer
alusão cultural que as localiza.
António Cabrita é um poeta-leitor, exímio no
tratamento das palavras que melhor garantem o ritmo certo para cenários provenientes
tanto da realidade vivida como de uma imaginação povoada por mitos pessoais. O
riso satírico do olhar, a raiva contida da consciência histórica, certa
melancolia de espírito, mas também um comovente lirismo familiar, sobressaem
nos seus poemas sem que o Eu se ensimesme na lamentação do tempo ou se desfaça
na citação redundante:
A MOSCA E O SANGUE DO LEÃO
A mosca não pode aterrar no sangue do leão,
escreveu breyten breytenbach, nome de granito
onde ecoam uns sincopados cascos de cavalo
mas o que interessa é a renúncia do insecto,
a renúncia de quem escolhe a equidistância,
e como eu se abstém de afogar-se
nas encordoadas veias de Deus. Toda a vida
desejei que me fosse anunciado: «Eis
o que chega da floresta!», apontando aquele
que de si mesmo se perdeu e recolhe
por sob a língua os braseiros da ausência
e a culminação do mais escarpado Nome,
e foi-me, nesta espera, dessorando a pobreza.
E, se ouvia zunir aprestados os vampiros,
julgava-me protegido como a sentinela
a quem só a manhã quebra os ossos.
Assim me habituei aos rumores ocultos
da noite como a árvore aos veios que a impelem.
Mas agora impõe-se-me um direito de nada
mais aguardar, e de desposar a acção,
não a que sob a embriaguez e a macieira levou Will
a decorar com o seu punhal em carne viva o relicário
de Anne Hathaway, mas a que mesmo de esguelha
perdura na memória dos homens em letras exaltadas.
Sinto amiúde que me falha ter exercido qualquer
actividade venatória, como ter sido caçador furtivo
ou guardião do segredo de um crime de grande porte,
e de xisto é o meu coração carecido, mas espero
que o arpão da imaginação abra a porta duma taberna
onde se possa ser mais que borrachão e espirituoso
e o mal e o bem entrancem nos dedos o tabaco
enquanto o cuspo chega à língua, na limpidez
com que o mar doba a espuma branca.
Nota: quem tiver seguido o autor no weblog Raposas a Sul, lembrar-se-á, por certo, de uma primeira versão deste poema e da explicação que
o precedia: aqui.

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