quarta-feira, 4 de julho de 2018

04 DE JULHO DE 2018


   Chego tarde a casa, deito-me no sofá a disfarçar a solidão com um copo de vinho branco. Ligo a televisão e salto de canal em canal, brinco com o comando como vejo as pessoas que me são estranhas brincarem com os seus telemóveis. De quando em vez, paro. Um filme, uma cena estrambólica, uma qualquer imagem desopilante faz-me parar. Por breves segundos fico boquiaberto a constatar, mais uma vez, a degradação humana exibida em todo o tipo de lixo televisivo. O canal radical da SIC é exímio neste tipo de propagação, oferecendo-nos tudo o que meta nus humanos já sem aqueLa graça primitiva das moças que se despiam enquanto liam no ponto as notícias do dia. Passo por tais fenómenos como cão por vinha vindimada. 
   Às vezes sou surpreendido por um mau filme, mas não tão mau que me demova. Há maus filmes com argumentos no mínimo curiosos. O Ilustre Cidadão (2016), por exemplo, dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, engendra o regresso de um Prémio Nobel da Literatura à sua terra natal. O resultado é um autêntico descalabro, repleto de equívocos motivados por uma incompreensão do que separa obra ficcional e vida vivida. Do mesmo ano, apanhei anteontem London Town. Realizado pelo alemão Derrick Borte, coloca em cena um casal de adolescentes apaixonados pela cena punk londrina dos anos 1970. De origens distintas, como ficarão a saber, têm a ligá-los a paixão pela música dos Clash. O actor Jonathan Rhys Meyers faz de Joe Strummer. É um filme de improbabilidades, mitologia adolescente para domingo à tarde. Mas também tem a sua piada no modo como cruza ficção e história, ainda que aqui a ficção vença. No final, há beijo de amor adolescente. 
   A solução para O Ilustre Cidadão parece-me mais realista, ele acaba só, expulso da terra, exilado na mesa de uma conferência de imprensa a explicar que a verdade não existe. Existem perspectivas.

2 comentários:

Ivo disse...

A Sic Radical já desapareceu da grelha lá de casa faz tempo. Mau demais. O próximo a ir é o Canal Q.

Cuca, a Pirata disse...

Recomendo uma dieta à base de comédias francesas e vinho tinto. O branco faz mal à nostalgia.