quinta-feira, 12 de julho de 2018

#107



   Inéditos não será o termo exacto. Vários dos temas agora coligidos no mais recente álbum, em dose dupla, de José Mário Branco já haviam sido editados em EPs e singles. Falemos antes de raridades, pérolas compostas entre 1967 e 1999 que no ano da graça de 2018 foram recuperadas para bem dos nossos ouvidos.
   Ao ouvir este disco, a primeira palavra que vem à memória é a palavra exílio. O exílio em Paris, fugindo da guerra colonial, pois claro, mas também um exílio criativo característico do autor de FMI. José Mário Branco é um extraordinário caso da música portuguesa, quase sempre estupidamente associado à chamada canção de protesto como quem etiqueta, data, arruma na gaveta. De resto, nesses idos de 1960, o que de novo trouxe à canção de protesto ou militante ou socialmente interventiva, como preferirem, foi precisamente uma riqueza musical que liberta a canção de uma época específica inscrevendo-a num tempo universal. Ouvimos Remendos e Côdeas, escrita a partir de um poema de Brecht, e damos com uma sofisticação que já nada tem que ver com a escola de “baladeiros” de antanho. Certo, data de 1986. No entanto, se escutarmos o single que juntou Ronda do Soldadinho e Mãos ao Ar! não vislumbramos a mesma sofisticação ao nível da composição?
   Se há característica que este álbum vem salientar é a de um compositor multifacetado, tão capaz de penetrar os territórios do rockDô-Yô (à maneira de The Shadows) — como de abraçar a música erudita — três andamentos de Fantaisie Languedocienne. Exímio arranjador, José Mário Branco denota uma cultura musical extraordinária que lhe permite pegar no Cancioneiro Galaico-Português e musicar um punhado de cantigas de amigo à moda dos trovadores medievais, mete um pé na chanson française e o outro nas marchas populares, escreve para teatro e compõe para cinema: Cantar da Viúva de Emigrante, escrita para o filme Gente do Norte, de Leonel Brito, e Fuga do Mar, com poema de Alexandre O’Neill, gravada para o filme O Ladrão do Pão, de Noémia Delgada, são duas peças etnomusicológicas absolutamente tocantes.
   Mas há ainda Fim de Verão (à maneira d’Os Conchas), para o filme Agosto, de Jorge Silva Melo, em toada pop, e Alma Herida (bolero à maneira de Antonio Machin), composta para o filme A Raiz do Coração, de Paulo Rocha. Canta em português, em castelhano, em italiano, em francês, brinca com a voz alcançando tons que dificilmente reconheceríamos como sendo de José Mário Branco não soubéssemos que com José Mário Branco (quase) tudo é possível. Se as sobras são isto, imaginem a riqueza do repertório. Não é preciso imaginar, ele está disponível, façam-lhe justiça, ouçam-no:


1 comentário:

Ivo disse...

http://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/