Inéditos não será o termo exacto. Vários dos temas agora
coligidos no mais recente álbum, em dose dupla, de José Mário Branco já haviam
sido editados em EPs e singles. Falemos antes de raridades, pérolas compostas
entre 1967 e 1999 que no ano da graça de 2018 foram recuperadas para bem dos
nossos ouvidos.
Ao ouvir este disco, a primeira palavra que vem à
memória é a palavra exílio. O exílio em Paris, fugindo da guerra colonial, pois
claro, mas também um exílio criativo característico do autor de FMI. José Mário
Branco é um extraordinário caso da música portuguesa, quase sempre
estupidamente associado à chamada canção de protesto como quem etiqueta, data,
arruma na gaveta. De resto, nesses idos de 1960, o que de novo trouxe à canção
de protesto ou militante ou socialmente interventiva, como preferirem, foi
precisamente uma riqueza musical que liberta a canção de uma época específica
inscrevendo-a num tempo universal. Ouvimos Remendos e Côdeas, escrita a partir
de um poema de Brecht, e damos com uma sofisticação que já nada tem que ver com
a escola de “baladeiros” de antanho. Certo, data de 1986. No entanto, se escutarmos
o single que juntou Ronda do Soldadinho e Mãos ao Ar! não vislumbramos a mesma
sofisticação ao nível da composição?
Se há característica que este álbum vem salientar é a de
um compositor multifacetado, tão capaz de penetrar os territórios do rock —
Dô-Yô (à maneira de The Shadows) — como de abraçar a música erudita — três andamentos
de Fantaisie Languedocienne. Exímio arranjador, José Mário Branco
denota uma cultura musical extraordinária que lhe permite pegar no Cancioneiro
Galaico-Português e musicar um punhado de cantigas de amigo à moda dos trovadores
medievais, mete um pé na chanson française e o outro nas marchas populares,
escreve para teatro e compõe para cinema: Cantar da Viúva de Emigrante, escrita
para o filme Gente do Norte, de Leonel Brito, e Fuga do Mar, com poema de
Alexandre O’Neill, gravada para o filme O Ladrão do Pão, de Noémia Delgada, são
duas peças etnomusicológicas absolutamente tocantes.
Mas há ainda Fim de Verão (à maneira d’Os Conchas), para
o filme Agosto, de Jorge Silva Melo, em toada pop, e Alma Herida (bolero à
maneira de Antonio Machin), composta para o filme A Raiz do Coração, de Paulo
Rocha. Canta em português, em castelhano, em italiano, em francês, brinca com a
voz alcançando tons que dificilmente reconheceríamos como sendo de José Mário
Branco não soubéssemos que com José Mário Branco (quase) tudo é possível. Se as
sobras são isto, imaginem a riqueza do repertório. Não é preciso imaginar, ele
está disponível, façam-lhe justiça, ouçam-no:

1 comentário:
http://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/
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