sexta-feira, 27 de julho de 2018

ABSOLUTA PRESENÇA



Tão l...e...n...t...o... era o tempo naquela casa_que os números do relógio se desprendiam,
e
s
c
o
r
r
e
g
a
n
d
o pela parede branca até chegarem ao chão. 
   Tombados, confundiam-se com baratas que os habitantes da casa prontamente esmagavam. O homem permanecia eterno ao lado da mulher, deitados tal qual se deitam fantasmas. Levantavam-se para esmagar números tombados no soalho, eles próprios por vezes se inclinavam perfazendo ângulos mortos.
   A mesa posta aguardava pelo homem e pela mulher. Como não tinham estômago, apenas fingiam ter fome. Como não tinham peso, apenas fingiam esmagar números

e p      d
 s a h     o  s
     l  a         

pelo chão. 
   Na realidade e na fantasia, na verdade e na mentira, o homem e a mulher eram duas sombras projectadas de dentro para fora. 

Há casas que têm sóis escondidos na mobília, 
sóis apagados como candeeiros 
que de vez em quando se acendem. 

Quando o tempo pára__ ou quando os números dos relógios de parede
e
s
c
o
r
r
e
g
a
m
   de cansaço__ até caírem no soalho. 
   Esta casa não tem afagadores, ninguém trabalha nesta casa, é uma casa de silêncio onde nada se escuta. Apenas a respiração das sombras. 
  Então alguém surge de fora para dentro, então alguém se levanta de dentro para fora, então um sol acende-se dentro da casa e ilumina o homem e a mulher deitados no chão como dois números cansados. 1 + 1 = 0 . O amor que os aproxima é o amor que os afasta, sombriamente envolvidos um no outro, águas confundidas, sombras fundidas numa casa acesa de dentro para fora. 
   Um telefone ligava-os ao exterior, pelo telefone recebiam notícias de um mundo estranho, distante, o mundo fora de casa, nas ruas. Dizemos homem e mulher quando sabemos nem isso ser susceptível de comprovação. Eram apenas sombras sem estômago. Logo, não podiam ser homem nem mulher. Eram apenas habitantes inconclusivos de uma casa com sóis dentro, presenças, presenças absolutas de uma ausência particular. 
   
   Alguém observa essas presenças, sim. 
   Alguém tem que as observar. 

   O narrador pressente as presenças absolutas na casa vazia, na casa aparentemente vazia, o narrador pressente que o lugar dessas presenças é no interior da casa___a esmagarem números tombados pelo chão, migalhas de números, partículas de pó............. O narrador fala de um homem e de uma mulher quando pretendia dizer Monstro, isto é, Sombra, ou seja, presença absoluta. E então respira à mesa como qualquer coisa sentada perante um prato vazio, olha para o telefone há muito inutilizado, telefone sem voz porque no interior da caixa ficaram detidas para sempre todas as vozes, vozes reclusas de um silêncio que une as sombras no chão, silêncio entendido enquanto música, música entendida enquanto dança, dança entendida enquanto corpo, corpo estendido enquanto pó, sombra, 
             presença absoluta
   Esta história acabará quando a porta for finalmente aberta, quando alguém abrir a porta para entrar nesta história com a missão exacta de arrumar tudo nela, recolher os números do chão e voltar a c-o-l-o-c-á-l-o-s no relógio de parede, levantar o auscultador para libertar as vozes aprisionadas no interior da caixa do telefone, quando alguém se sentar à mesa enchendo o prato com o homem e a mulher sombriamente presentes no lugar absoluto da sua ausência. 
   Esta história terminará com alguém a comer sombras, a alimentar-se das sombras, transformando-se naquilo que come__porque todo o ser se transforma no que o alimenta.


Imagem ao alto: tinta-da-china, grafite e aguarela sobre papel, de André Ramos.

Sem comentários: