domingo, 1 de julho de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #46



   Podia dar-me para pior, deu-me para isto. Em 1994 ainda não vivia em Caldas da Rainha, longe disso. Andava por Lisboa no segundo ano de exílio urbano. Foi por essa época que emergiu a chamada “cena das Caldas”. Da fornalha caldense destacavam-se, entre tantos que a história guardará nos corações de uma mão cheia de adultescentes, os Red Beans e os Tina and The Top Ten, do artista plástico João Paulo Feliciano & C Lda. Com colaboração do experimentador sónico Rafael Toral, Teenage Drool (1994) não marcou necessariamente uma posição nessa coisa anacrónica do “rock português”. De nacional, havia apenas a coincidência da quadrilha ser lusitana. O som praticado por estes das Caldas assimilava outras latitudes, assumindo a influência de uns Sonic Youth ou de uns Buffalo Tom ou de uns Dinosaur Jr. (ouça-se o solo de guitarra em No More) sem regatear direitos de autor. 
   Resgatado da gaveta, Teenage Drool denota uma inocência que dispara pelos ouvidos dentro tremendas correntes de nostalgia. Por onde anda aquela devoção desinteressada pela melodia submersa em ruídos embaladores? Onde ficou o gozo do riff e das relações inusitadas, como a que em Where the blue coloca no ringue uma guitarra desembrenhada em wah wah e uma gaita-de-beiços neil younguesca? Onde ficou o ritmo adolescente que fazia sair de casa rapazes e raparigas com vontade de abanar o capacete ao som de guitarras ruidosas? Em suma, onde ficou o feeling? Vestiu pijama, voltou as costas, ressonou a noite inteira.


   Dir-me-ão que está tudo na mesma... como a lesma. Não serei eu a discordar. A gente é que envelheceu, o tempo passou. O tempo passou como sempre passa, a gente envelheceu como sempre envelhece, a lesma deixou o seu rasto de langonha, que nada tem que ver com a baba adolescente desses tempos. De resto, defendo-me já advertindo que a única versão “naquele tempo é que era bom” admitida cá por casa é a que diz respeito aos amplificadores. Naquele tempo os amplificadores eram realmente melhores. Estou a ouvir If I hold e vêm-me lágrimas aos olhos. Lembro-me das múltiplas ocasiões em que ouvi aqueles acordes iniciais e apetece-me fugir, partir ao encontro da despreocupação que ficou para trás, desembaraçar-me dos trabalhos e das servidões que hoje perturbam ossos e nervos. Está tudo na mesma? Está tudo lesma.
   Vocês já olharam/ouviram bem para/os amplificadores de agora? Não cospem fogo, vêm protegidos por cuidados médicos. Que tristeza! São amplificadores light, sintéticos, paramédicos, têm garantia de estabilidade emocional, munidos de purificadores ambientais, capazes de disfarçar o mínimo ruído, o mínimo grão, a mínima desventura. São um nojo de pureza. Antigamente, os amplificadores eram melhores. Que me chamem reaccionário. É a minha teoria, é a minha constatação. A prova está em If I Hold e nos cartazes que preenchem as centenas de festivais de Verão. A prova está em que sempre que surge alguma coisa a lembrar-nos o grão daqueles amplificadores, a gente logo declara a categoria do “retrô”. As fadistas agora têm tatuagens onde antes tinham bordados. Porra, se isto não é retrocesso civilizacional ao nível dos amplificadores… então não sei o que será:


3 comentários:

Pedro Góis Nogueira disse...

Nem mais. Estes ainda vi ao vivo no Campo Pequeno a abrirem Sonic Youth, isto a propósito dos amplificadores, ao ler este texto veio-me logo à ideia o "Teenage Riot" que abre o "Daydream Nation" e é impossível apanhar a coisa convenientemente a não ser com os amplificadores do "nosso tempo". É que não é mesmo.

hmbf disse...

Grande concerto.

Ivo disse...

Que pérola! Acho que nunca ouvi sequer falar no nome da banda. Isto é muito bom.
Puxei a vídeo para meio antes de começar a ler, não sei porquê veio-me à cabeça Atari Teenage Riot.