segunda-feira, 23 de julho de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #47



   Isto podia começar assim: Daydream Nation (1988) faz 30 anos. Deixemo-nos, porém, de nostalgias. Decorria o ano de 1992 quando os Sonic Youth adquiriram uma popularidade inusitada por causa de um teledisco que metia putos com skates e festas privadas, aspecto visual embalado pela vaga Smells Like Teen Spirit que inundou esses anos como um tsunami chegado de Seattle. A origem não era assim tão imprevisível, já que ali havia nascido, a 27 de Novembro de 1942, Jimi Hendrix. Mas os Sonic Youth, oriundos de New York City, andavam a tocar há pelo menos 10 anos quando os Nirvana desabrocharam. E tinham muito mais que ver com The Velvet Underground ou Joy Division do que com o mago da guitarra psicadélica.
   Sister (1987) foi o primeiro álbum dos Sonic Youth que adquiri, fascinado por ritmos que os ligavam directamente à banda de Ian Curtis (evidentes nos temas Schizophrenia e Stereo Sanctity) com uma dose adicional de energia e menos lirismo. Guitarras estrategicamente preparadas para a dissonância provocavam certa estranheza inicial rapidamente ultrapassada pela dramatização do ruído, orientada pela secção rítmica a cargo de Kim Gordon e Steve Shelley. Falemos dessa dramatização do ruído. Há quem confunda ruído com lixo sonoro, o que pode colocar ao mesmo nível sons emitidos por um motor desafinado e música ambiente de um shopping. Ora, o ruído é outra coisa.
   Por ruído entendo a robustez de determinado som, a qual pode ser trabalhada artisticamente como quem alarma cores com o ritmo da pincelada. Geralmente associado a gestos violentos, o ruído pode, no entanto, adquirir uma inesperada elegância. É isso que sucede com bandas como os Sonic Youth. Os riffs são aqui e acolá perceptíveis, a distorção do som atinge níveis aceitáveis que permite tal percepção. O que lhes oferece elegância é o modo de tratamento de sons que noutras circunstâncias seriam considerados musicalmente desprezíveis. Chama-se a isso arte, a capacidade de aproveitar determinada matéria transformando-lhe a natureza. Já não está em causa uma mera reprodução das formas, uma transfiguração, mas antes uma leitura subjectiva do corpo material com o qual se trabalha. Neste caso: o som.
   Escutemos um tema como White Cross, as linhas melódicas minimalistas transportadas por um ritmo surpreendente que a determinada altura ameaça perecer para, logo de seguida, retomar a marcha anterior até à explosão final. Aquilo a que chamamos “noise” neste tema é do mesmo tipo daquilo que nos leva a falar de absurdo a propósito de Kafka, ou seja, uma desordem emocional que ameaça o sentido literal dos termos, as convenções semânticas com que organizamos uma linguagem declarativa, descritiva. Neste caso, a linguagem capta uma emoção, faz com que um sentimento profundo venha à tona, para usar a imagem psicanalítica, liberta o recalcamento cuspindo-o para a atmosfera. Por isso dizemos que é uma linguagem libertadora, porventura catártica. Embora talvez seja mais exacto ficarmos apenas pelo conceito de libertadora:


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