sábado, 14 de julho de 2018

MERDE D'ARTISTE



Discussão animada no Governo Sombra acerca da transferência de Cristiano Ronaldo para a Juventus. Os números são de deixar embasbacado qualquer ser deste mundo: O clube de Turim vai pagar €100 milhões pelo concurso do internacional português, montante que será liquidado em dois anos. A este valor acresce as verbas do mecanismo de solidariedade da FIFA (€5M) e encargos acessórios (€7M), perfazendo total de €112 milhões. Cito A Bola. O liberal indefectível crê na lógica do mercado, antecipando lucros para a Juventus que justificarão a transferência (entendida aqui como investimento). O esquerdista fã de bola não disfarça o incómodo, contorcendo-se em hipóteses, possibilidades, que redundam num “nim” incosequente. O conservador de serviço denota alguma compreensão social, fazendo justiça à veia democrática-cristã. A pornografia do fenómeno está no facto de a contratação só ser possível através de um investimento que tem origem no trabalho desenvolvido na fábrica Fiat Chrysler Automobiles, com os operários a reclamarem por há muito não sentirem o cheiro dos lucros que dão à empresa.
   Fosse lá pelo cheiro, fosse pela ligação a Itália, lembrei-me de Piero Manzoni. Nos idos de 1960 gerou escândalo no mundo das artes quando se lembrou de empacotar os próprios excrementos em latinhas a que deu o nome de Merde d’artiste. Fez noventa delas, o que terá obrigado a muito cagar, literalmente vendidas a preço de ouro. Com tal gesto, Manzoni questionava os caminhos da arte contemporânea, reduzida a negócio que já pouco ou nada tinha que ver com arte. A verdade é que Merde d’artiste originou diversos episódios caricatos, entre os quais queixas acerca do conteúdo das latas. Havia quem afiançasse que não continham merda do artista, pelo que não valeriam o dinheiro que se pedia por elas. Alguém andava a vender gato por lebre, ou seja, carne picada por cocó. Fosse o que fosse que estivesse dentro das latas, agitou as águas (por assim dizer). 
   Há qualquer coisa nestas transferências multimilionárias no mundo do futebol que me lembram a “merda de artista”, talvez pela estúpida sobrevalorização do culto de uma autoria que esvazia de qualquer sentido a arte praticada. No fundo, é tudo muito simples. Mesmo ressalvando a possibilidade do bom investimento, o que nesta matéria indigna qualquer ser cuja sensibilidade não seja medida pelo dinheirómetro é a sufocante exorbitância dos valores. Quando comparados com as misérias do mundo deixam claras as prioridades de quem detém o poder. Portanto, ontem como hoje: trabalhadores de todo o mundo, uni-vos! 
   Por falar no assunto, relembro uma história que publiquei num pequeno livro com o título Call Center (Companhia das Ilhas, 2014):

GALERIA

   Saberá o leitor que o mundo artístico está repleto de obras que geram casos, debates mais ou menos intermitentes, intermitências intermináveis. Em 1961, por exemplo, Piero Manzoni pegou numas latas de metal, atestou-as com 90 gramas de excrementos de artistas e vendeu as conservas à cotação diária do ouro. Conta-se que, passados 30 anos, perante a iminente corrosão de uma das latas, certo museu dinamarquês teve que despender avultadas quantias para conservar os excrementos enlatados de Piero Manzoni. Que dizer, ou pensar, da instalação intitulada Cloaca, autoria do belga Wim Delvoye? Consistia a mesma numa reprodução do sistema digestivo humano, cujo objectivo final se resumia, nem mais nem menos, à produção de excrementos em série. Poderíamos ainda citar vídeos, performances, instalações de distintos artistas realizados à base de diversos materiais, tais como: vomitado, esperma, sangue e, claro está, matérias fecais. Pois bem, saído de um Centro de Arte Moderna onde decorria uma mostra dessas aventuras do espírito humano, só dois pensamentos ocorriam ao Visitante: 1. há merdas que não entendo; 2. não sei o que pensar desta merda. Ao reflectir desta maneira, fê-lo em alta e viva voz. Calhou que um dos artistas presentes na mostra o tivesse escutado. Chegada a oportunidade, adormeceu-o com clorofórmio, embalsamou-o e metamorfoseou-o em obra de arte híper-realista exposta neste preciso momento numa galeria internacionalmente reconhecida. Não será difícil encontrá-la, caríssimo leitor.

   Dito isto, estou como o Visitante. Só espero que não me embalsamem, até porque à merda de artista prefiro a "merda de mundo". Este em que vivemos.

3 comentários:

maria disse...

hoje liguei a tv e dei com a notícia de um japonês que viveu 39 anos (salvo erro)sozinho numa ilha. No documentário que fizeram, dizia ele:"há duas coisas que dão cabo do mundo - o dinheiro e a religião."

maria disse...

pardon, foram 29 anos. tenho o link no blogue.

Unknown disse...

parem o mundo que eu quero sair