quinta-feira, 30 de agosto de 2018

JAPÃO, PAÍS DE SUICIDAS




   Yasunari Kawabata (n. 1899 – m. 1972) foi criado pelos avós, depois de perder os pais quando contava apenas quatro anos de idade. Passados dez anos, perdeu os avós. Acabou num internato. Foi aí que decidiu ser escritor, embora a pintura tenha sido a primeira paixão. Terra de Neve (D. Quixote, trad. Armando da Silva Carvalho) foi o seu primeiro romance, publicado por fascículos entre 1935 e 1947. É hoje considerado uma obra-prima. O romance coloca em cena a relação entre um homem da cidade e uma jovem gueixa. Shimamura gosta de se refugiar na montanha, longe da agitação da capital e da família. É nesse lugar de isolamento que conhece Komako, ao abrigo da multidão: «Shimamura pensa na Terra de Neve, na sua frialdade. Mas descobre nela qualquer coisa de ardente» (p. 45). A relação que se estabelece entre ambos não é a típica relação de um homem com uma gueixa. Shimamura interessa-se por Komako, de quem se diz ter-se tornado gueixa profissional para poder pagar despesas com remédios do noivo. Ela nega-o. «Shimamura sentia-se cada vez mais desolado, miserável, oprimido, vencido pela inutilidade e pelo vazio absurdo» (p. 67). Só a imagem de Komako o anima, longe da cidade, numa solidão íntima partilhada, sem público, longe das complicações da vida quotidiana, familiar. 
   A paisagem, neste romance, não é apenas cenário. Há entre as descrições da natureza e estas duas personagens uma espécie de fusão, Shimamura e Komako são uma extensão da solidão das montanhas, reflectem a vontade selvagem do «valezinho, apertado entre a massa dos montes cobertos de neve» (p. 85). Não há-de ser por acaso que, no final, Shimamura se funde com a Via Láctea. Mas já lá vamos.
   Osamu Dazai (n. 1909 – m. 1948) é o pseudónimo de Shūji Tsushima. Nascido e criado numa família numerosa, desde cedo se interessou pela literatura. Ryūnosuke Akutagawa (n. 1892 – m. 1927), de quem se diz ser o pai da short story japonesa, era o seu ídolo. Suicidou-se com apenas 35 anos de idade. Dazai seguir-lhe-á o exemplo, depois de incursões pelo marxismo, pelas drogas, pelas prostitutas (não necessariamente por esta ordem). Em 1929 tentou suicidar-se pela primeira vez, em 1930 fugiu com uma gueixa e foi deserdado pela família, tentou suicidar-se novamente, foi preso por se envolver com o Partido Comunista Japonês, e por aí adiante...
   Quem leia o belíssimo romance Não-Humano (Cavalo de Ferro, trad. Ana Neto) aperceber-se-á do estilo autobiográfico. Dazai coloca-se no papel de personagem, disfarçando-o com ligeiros estratagemas técnicos. Mas rapidamente entendemos que o ser angustiado, deprimido, saturado, melancólico, solitário, do livro tem tudo que ver com a criança adoentada, filha de uma família rica, que foi Shūji Tsushima. Entendemos também uma revolta típica para com a sua condição social, o desconforto perante as raízes, uma declarada incompreensão do ser-se humano. Osamu Dazai não se reconhece no outro, recusa imitá-lo, não se quer único porque sabe-se único, excluído pela sua própria excepcionalidade. Observa os seres humanos à sua volta e não os compreende, teme-os, julga o convívio com os outros insuportável, aliena-se através do consumo de drogas, adopta uma vida licenciosa: «álcool, tabaco e prostitutas eram um excelente meio de dissipar (mesmo que só por breves momentos) o meu medo dos humanos» (p. 44).
   Sentindo-se excluído socialmente desde que nasceu, a sua maior tragédia será a farsa em que procurará sobreviver. Não é como o homem da cidade que se refugia nas montanhas em busca de solidão, se deslumbra com uma gueixa com quem trai a família deixada para trás. Toda a sua vida é uma hesitação entre a decisão de fugir e de se matar, não havendo qualquer diferença entre ambas. O que ele detesta nas pessoas é a hipocrisia, a contradição em que vivem, mas não enjeita fazer de palhaço para alcançar os seus objectivos. É um não-humano extraordinariamente humano, diríamos. Ama uma mulher com quem tenta suicidar-se. Ela morre, ele escapa: «De todas as pessoas que conheci, aquela miserável Tsuneko foi mesmo a única que amei» (p. 64). O que o faz ser assim? Por que rejeita o amor dos outros? Por que é incapaz de os amar? Lá iremos.
   Yukio Mishima (n. 1925 – m. 1970) foi tudo o que um escritor pode ser. É difícil de imaginar o que poderia andar pela cabeça deste génio que nunca deixou de exibir o seu talento sob diversas formas. Confissões de uma Máscara (Assírio & Alvim, trad. António Mega Ferreira) não desfaz as dúvidas, como, de resto, o título previne. É uma máscara quem se confessa, não um rosto. Ainda assim, julgo podermos confiar em parte da história. O livro como que expõe a homossexualidade do autor, dos primeiros sinais, por assim dizer, à «expressão da necessidade de afirmar a minha verdadeira natureza» (p. 35). Mishima passeia-nos pelos anos da infância, partilha fantasias, penetra territórios heterodoxos, como sejam os da masturbação a contemplar uma reprodução de S. Sebastião. Sexo e violência são os ingredientes que tem para nos oferecer, tal como eles desabrocham na adolescência e por vezes se retratam na vida adulta. Não há recalcamentos na exposição dos pormenores. A tentação declarada do suicídio, a paixão infeliz por um rapaz, as erecções, o ciúme, os atalhos para a solidão. 
   Curioso como tanto em Kawabata, como em Dazai e Mishima, a palavra solidão surja como uma espécie de estado interior, íntimo, uma fatalidade inerente ao ser. Certo que no primeiro a solidão é procurada no refúgio da montanha, mas, em boa verdade, não é a solidão que se procura, ela simplesmente transporta a sua presa ao lugar que lhe convém. Em Dazai, a solidão como que estabelece entre o eu e o outro um muro intransponível. Em Mishima ela surge do desconforto  de uma sexualidade proibida. No final, fica sempre a imagem dos outros como o inferno que leva ao isolamento. Shimamura e Komako são arrastados pela multidão durante um incêndio, são espezinhados pela multidão, é a multidão quem os afasta, quem lhes impede o amor, numa alegoria do amor impossibilitado pelas convenções sociais. Yozo, o alter-ego  de Dazai a quem se atribui a autoria dos cadernos de memórias reunidos sob o título Não-Humano, olha para a sociedade como para um indivíduo ameaçador, oceano revolto onde o ser naufraga. As aparências matam-no, as evidências levam-no ao isolamento. «Indigno de ser humano. / Deixara então de ser um humano» (p. 127). 
   E Mishima? Tenta enganar-se com Sonoko, na companhia de quem se isola dos outros. Mas é tudo engano. A máscara o confessa: «tornei-me um daqueles seres que só conseguem acreditar nas falsas aparências» (p. 123). E com isto sofre, porque também ele se sente condenado à autodestruição. A obrigação de amar aniquila-o, também ele pensa em fugir, todos pensam fugir. De quê? Da sociedade. Da mentira. E é ele quem o afirma, embora pudesse ser outro qualquer: «De súbito, senti essa dor aguda que nos vem depois de fixarmos demasiado tempo o mesmo objecto. Esta dor proclamava: «Não és humano. És um ser incapaz de relações sociais. És apenas uma criatura desumana e, em certo sentido, estranhamente patética» (p. 178).
   Yasunari Kawabata ganhou o Prémio Nobel em 1968. Em 1972, suicidou-se. Há quem diga que foi acidente. Há quem aponte como razões para o feito uma relação amorosa ilícita, o choque após a notícia do suicídio de Yukio Mishima. Este não deixa dúvidas: seppuku. Dazai desapareceu nas águas do rio Tamagawa. Levou consigo Tomie Yamazaki, amante à época. Não-Humano foi o seu último livro.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

AMORES DE VERÃO #5


À MANEIRA DE ÁLVARO DE CAMPOS

Estou cansado de sentir.
De sentir até esses sentimentos
que deixei há algum tempo de sentir
e que regressam do passado como um eco
para que eu os sinta sem nos sentir.

Os sentimentos que são inoportunos,
os inesperados, também me cansam.
Aborrece-me este coração que não pára de sentir
as coisas até que não sente,
que não deveria sentir, porque não são sentimentos
estritamente seus, mas de alguém
que está já muito cansado de sentir.

Não sei o que sinto
é falso ou é veraz, alheio ou próprio,
e daí sem dúvida este cansaço,
enquanto observo sem sentir nada
os barcos que zarpam com esses marinheiros
de redes invisíveis
que navegarão sem sentir nada,
como também eu não sinto enquanto escrevo isto,
como não sinto quando penso no passado
e digo a mim mesmo: "Isto que estou a pensar nunca existiu",
e nesse momento o meu eu fundamental — digamos — também não existe,
porque não está amparado por uma densidade de tempo verificável,
um tempo exclusivo que sustente
e que vou sentir em seguida
sem o sentir, e daí este ponderar fantasmagorias
para puxar atrás a tarde
engalanada de ouros transitórios
e do fumo das fábricas,
a tarde que foge para a noite,
como o escriturário entristecido
que, ao regressar à sua pequena casa, se sente o imperador
de planetas desconhecidos.

E com certeza a nostalgia, sim, a nostalgia
daquele que sentia o que julgava sentir
e canalizava tudo o que sentia para o gozo ou para a dor,
e não para a indiferença do sentir,
como este eu de agora que não sente
a obrigação de sentir.

Nostalgia
de quando a vida era mais veemente e um pouco mais estranha,
pelo menos como recordo que a sentia,
embora quem saberá.


Felipe Benítez Reyes (n. Rota, Cádiz, Espanha, 25 de Fevereiro de 1960), in Privilégio de Penumbra, trad. Vasco Gato, colecção Mão Dita #05, Abysmo, Junho de 2018, pp. 19-23.

PEDRÓGÃO MESQUINHO



Acabei de ver a reportagem O Compadrio, sobre a magnanimidade portuguesa no pós-tragédia de Pedrógão Grande. Mais do mesmo. Vem tudo nos livros há imenso tempo. «Está tudo muito bem feito», garante sua excelência o Sr. Presidente da Câmara com ar macambúzio de sem-vergonha. Há muito que me recuso contribuir para estas causas colectivas, por julgar que não pode a sociedade civil substituir-se ao Estado nas suas obrigações mais elementares. Quando o Estado mete em mãos-rotas as suas funções, nomeadamente de fiscalização assertiva da aplicação de dinheiros públicos, dá nesta roda vida de trafulha a desculpar-se com as trafulhices dos outros. Uns que só fazem porque foram condicionados, outros que fazem por imitação, outros para não passarem por parvos. E o chico-esperto vai metendo ao bolso jeitinhos e favores sem que lhe pese uma coisa que os homens têm mas os animais não: consciência. Neste Portugal de gente bruta não há beijinho de Marcelo que domestique. Atento à tragédia, sempre estou para assistir ao que vai suceder a todos os trafulhas que se aproveitaram ali do mal geral para fazerem render bens particulares. Hei-de ficar para ver, hei-de, se Marcelo também os vai abraçar e apaparicar, promovendo a vigarice e o oportunismo que graça neste país desgraçado. «Andam a fazer casas só para os compadres», desabafa uma das inquiridas. Compadrios, pois, como sempre para mal das nossas virtudes. Puta que os pariu a todos, que deviam arder nos infernos da vergonha.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O MALHADINHAS


Os números foram oferecidos por António Cabrita logo no início do ensaio intitulado “Que histórias conta o ouriço à baleia?”: Shakespeare utilizou 30000 palavras na sua obra, Camilo chegou às 18000, agora não se passa das 4000. E pergunta: Para que serve melhorar a nossa competência lexical e linguística? E responde: para ampliar a nossa liberdade. A conclusão é discutível, podia ser objecto das mais inesperadas contestações. Sei de tipos com o vocabulário reduzido muito mais livres, pelo menos em aparência, que certos dicionários ambulantes. Não quero ir por aí. Parece-me antes óbvio que o nosso mundo encurtou-se com a caída em desuso de inúmeras palavras, ficou mais ínfimo e previsível, ficou tudo mais claustrofóbico. Apercebemo-nos disso quando relemos um clássico como O Malhadinhas. A Bertrand reeditou-o recentemente, acompanhado de Mina de Diamantes (como acontece desde 1958), mas enriquecido pelo prefácio de Maria Alzira Seixo e as ilustrações de Bernardo Marques. Sobre esta questão da linguagem, Alzira Seixo refere a riqueza do vocabulário sublinhando que «Aquilino usa o léxico da fala popular, e de teor disfemístico», «fortalecida pela hipérbole, a ironia e a sinédoque, nomeadamente na referência levemente mordaz e risonha feita à religião». Levemente é como quem diz. Quem tenha lido o exame de consciência, porque é disso que se trata, do António Malhadas de Barrelas, que por acaso é palavra que pode significar limpeza da reputação que ficou manchada, aperceber-se-á facilmente da relação conflituosa com a religião que o texto exprime. É certo que no final o Malhadinhas se assemelha a um beato, prestes a meter um pé no paraíso enquanto mantém outro no Inferno. Mas é tudo oportunismo, ou melhor, sentido de oportunidade.
   Bom de faca, mulherengo, destemido, dito de língua afiada, o almocreve é figurão humorístico que permite «pôr vulto no mundo» dos humildes, dos campesinos, das gentes votadas ao esquecimento. Desconfia do progresso por nele não compreender mudanças de monta, olha para o passado com indisfarçável nostalgia, mas o que mais se lhe destaca é a coragem de levar avante a sua própria vida, quer raptando a mulher com quem acabou por ter uma caterva de filhos, quer travando-se de razões com os agentes de uma justiça que ele não reconhece. Nisto se projecta, talvez, o anarquismo do autor, expulso do Seminário em 1904, preso em 1907 por conspirar contra a Monarquia, clandestino no seu próprio país, exilado lá fora…
   O Malhadinhas data de 1922, e dele, que não por acaso tem nome de quem troça ou sova, retenho com maior vivacidade aquela alegoria exemplar do capítulo IX, o da viagem de burro, debaixo de neve, na companhia do Fr. Joaquim das Sete Dores. Entre sermões jamais esquecidos, o de uma conformidade com a existência que não os livraria da ameaça de uma alcateia. Contra os lobos não valeram preces como terá valido a sabedoria popular, mas mais que esta o que valeu às presas foram mesmo os asnos que acertaram no caminho debaixo de um nevão que tudo cegava. Elogio da natureza? Por certo. Já que a fé que salva não é a dos livros nem a das leis vendidas pela igreja, mas a do instinto puro, animal. 
   O que tem Diamantino Dores, dito Dedê, que ver com António Malhadas? É difícil de entender. Aquilino diz que juntou as duas novelas por haver entre ambas coincidências de clima. Emigrado no Brasil, Dedê regressa à aldeia natal 25 anos depois de haver partido. Ainda que por cá ninguém o saiba, foge das ameaças de um marido traído. Por cá é recebido com todos os encómios devidos a um filho da terra que prosperou lá fora, ainda que de verdade a prosperidade seja apenas aparência. E Dedê, sabichão, vale-se disso, usa e manipula a seu bem-querer as ilusões da parvónia, a ingenuidade dos meias solas. Mulherengo, desbaratador, o Diamantino dos diamantes não passava, em boa verdade, de um empregado menor, fiscal das obras, administrador de secção na prefeitura do Rio. Mas quem o sabia? Em Chambão das Maias, aldeia miserável das Beiras, a pomposidade da recepção disfarçaria a miséria das gentes: 
   «— Está tudo na mesma. Saí daqui ontem!» (p. 177) 
   É o nosso herói quem o declara, aprontando das suas, aproveitando-se dos coitados que se desfaziam em vontades perante sua senhoria, até perceber que por mais esmolas que desse não remediaria o «panorama social português»: «gente assim primária», «pateguinhas pobres e cobiçosas». «Com uma bolsa de dólares comprava-se esta terreola toda, almas e corpos» (p. 226) Diamantino denota uma sobranceria que não reconhecemos no Malhadinhas, embora este, à sua maneira, também fique sempre por cima. O que os aproxima não é de carácter, é  de sociologia. No teatro da vida, tudo neles é representação e fantasia excepto o risco de viver. Um mais rústico, outro mais finório, são ambos retratos de um país arrebatado na casa de penhores da moral vigente. Um país com mais palavras do que as que hoje têm uso.

QUEM PRECISA DE CONSULTA?


“O papa Francisco recomendou aos pais o recurso à psiquiatria assim que estes se apercebam de tendências homossexuais dos filhos”… Há quem venere este Francisco, quem lhe compre magotes de livros e o traga nas palminhas. Eu cá, na minha ignorância eclesiástica, sempre desconfiei de batinas. Homem que seja homem não anda nos trajos de padre, quanto mais de papa. Pena tenho que quando esta gente era criança não lhes tenham os pais precavido consultas em psiquiatria. Talvez tivessem ajudado.

Adenda: lembrar isto.

ESTADO DE NEGAÇÃO


Os socialistas portugueses vivem em estado de negação. Confrontados com a corrupção que assola o partido, máquina de favores e de distribuição de cargos e de $ócrates & Companhia Ilimitada, apressam-se a desculpar males com argumentos do Restelo. Que o poder infecta quem lá está, que a corrupção toca a todos, que é tudo igual… Logo, que fique tudo na mesma. Que fique tudo na mesma, tipo ora PS, ora PSD, com CDS a cheirar cus. Que fique tudo na mesma porque com outros não seria diferente. Há nestes raciocínios tanto de futurologia quanto de pessimismo, o que não deixa de ter a sua graça. Ser-se socialista, hoje em dia, significa ser-se complacente com a canalhice. Porque lá na cabeça do socialista moderno não há remédio para a humanidade, somos todos iguais. Só fica por explicar por que razão tem o estado português a fama de ser tão corrupto como o Qatar e não tão transparente quanto a Suécia. Isto é, por que é que somos mais iguais a uns do que a outros?

POLÍTICA DE CACARACÁ


António Costa está cada vez mais parecido com Valentim Loureiro. Este, oferecia frigoríficos. Aquele, oferece três anos de redução no IRS aos emigrantes que pretendam regressar a Portugal. Aqueles que ficaram por cá a engolir sapos, a aguentar no cachaço as machadadas do austoritarismo, a pagar impostos e multas a preço de ouro por atrasos de horas, bem podem continuar em estado de servidão e sufoco fiscal. Alguém que pague os infortúnios dos banqueiros.

AMORES DE VERÃO #4


HUMAN BULLET

     Todo o poeta tem um quê de entertainer.
     Todo o entertainer tem um quê de entristecido.

Dada a tendência a despachar o que é inútil,
nos cercos de antigamente
catapultavam-se cadáveres de soldados.
Não é apenas uma arma biológica,
é propaganda perfeita do inevitável.
Decomposição mais gravidade.

Aninha-se o eco do horror, sem que saibamos, nos circos.
O homem que entra no canhão costuma vestir vermelho.
O vermelho é a farda do risco.
Pedir silêncio torna-se divertido, se pensarmos nisso,
jaulas com macacos e tigres. Depois,
a contagem decrescente. Raramente favorece o arrepen-
dimento,
é uma espécie de chicote para o drama.

Quando és projectado a tal velocidade, passam-se coisas nas
células, sai-te oração pelo nariz, é
tão embaraçoso, como mijar em público.

O resto do voo é-me indiferente, tal como a aterragem.
Segue-se quase sempre música. O Fortuna.
Já sofreu tanto essa canção. Alguém,
por fim, que a salve,
                        com uma bala na nuca.


Yannis Stiggas (n. Atenas, Grécia, 1977), in Exupéry significa perder-se, trad. José Luís Costa, Douda Correria, Abril de 2018, s/p. 

VIVA O CAPITALISMO



Muro da Vergonha separa indígenas de ‘gringos’ em Lima

Dez quilômetros de barreira de concreto que cortam os morros da capital peruana resumem o abismo social e étnico no país

(aqui)


Quem possa, veja Toda A Verdade: O Muro Das Desigualdades. Na SIC Notícias.

domingo, 26 de agosto de 2018

LA MALICIOSA


A montanha acompanha-me
como um guia a um cego.
As águas correm num nível baixo
e nada se banha nelas.
A montanha, tal como eu,
aparece e desaparece,
provoca os meus sentidos
e prova a minha distracção.
O manto silvestre é cinzento
e verde de silêncio.
A natureza diz mais sobre mim
do que qualquer coisa que eu possa dizer.
A ausência de pessoas dignifica a paisagem,
vence a história sem medo.
Vim aqui para respirar
dou graças por ter sobrevivido.
A montanha abraça-me,
sem que eu pense que o tempo vai acabar
e começar noutro lugar
menos fértil para os meus sentimentos.
A minha vida casa com a paisagem
feita de pedra e vegetação.
Não preciso que nada mais me convença
do resto ser pura desilusão. 



Marta Chaves (n. 1978), in Varanda de Inverno (Assírio & Alvim, Abril de 2018). Poemas curtos, brevíssimos, por vezes monásticos, noutras ocasiões a lembrarem formas orientais tais como a do haiku, a poesia waka e kanshi. Amiudadamente dirigidos a uma segunda pessoa, nunca concretizam a índole do destinatário. Preferem os espaços em branco como pontuações da ausência, a qual encontra no silêncio seu parceiro ideal. Resvalando por vezes para o aforismo, os poemas de Marta Chaves são fragmentários, questionam a fé, ironizam a realidade, fazem tema da solidão e do absurdo existencial. Um bom exemplo desta capacidade de síntese é o poema intitulado Banquete: «Sento-me sozinha à mesa / e obrigo-me a pensar no absurdo. // Não faço perguntas. / Elas sentam-se a meu lado, / com um à-vontade cruel». O exercício declarado é de procura, a busca de uma iluminação que alivie o ser dos absurdos e dos vazios. Aliviar do vazio preenchendo o silêncio com palavras, eis uma arte poética que traz à superfície as contradições próprias da poesia. Da melancolia nunca escapamos.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

DO QUE NOS AVIVA


O Ventilan, este. Por ser tão generoso na beleza amiúde oferecida. Apontamentos de uma autenticidade desarmante, fotografias belíssimas, coisas dos outros, et de plomb et de plume. Tudo luminoso, tudo tão a valer. E a d’ama, mais intermitente, mas nos últimos dias com uma produtividade a não passar despercebida. Do melhor que a poesia portuguesa deste nosso tempo abstergente tem para oferecer. ABSTERGENTE! Por fim, mas não por último, sempre mais distante do que devia, o Âncoras e Nefelibatas. Sempre que venho daquelas bandas trago aprendizagem, para mais gratuita. Coisa tão rara. São gente que conheço pessoalmente, boa gente; mais que conhecer, admiro; mais que admirar, amigo. Gente que me faz falta no dia-a-dia comezinho, quotidiano, pesaroso, corrente. Que os vá pressentindo assim ao jeito de quem se corresponde já é compensação que nunca hei-de conseguir cobrar. Obrigado.

LUÍS AMARO (1923-2018)


Sobre Luís Amaro, neste weblog, um poema seguido de nota crítica de Pedro Mexia (aqui) e uma nota de leitura do Diário Íntimo (aqui). Tivesse este país um povo minimamente sensível, o nome de Luís Amaro não seria tão estranho como por certo será. Eduardo Pitta refere-se aqui às dívidas do milieu, essa canalha onde cabe de tudo um pouco mas pontificam os oportunistas, os arrivistas, os presunçosos amantes do rissol e da prebenda. Mais do mesmo, mais do mesmo. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

PERGUNTA SIMPLES

O Valupi é o mais engraçado dos webloggers portugueses. Leio-o há anos, sempre com a mesma galhofa. Aprecio as suas perguntas simples. Aqui lhe ofereço uma, na esperança  de que saiba responder: o que tem de socialismo o PS? Reformulo: o que têm de socialistas os pulhas do PS que andam disseminados pelos cargos de decisão nas empresas deste país? Fica a questão.

23 DE AGOSTO DE 2018


Levei a mais crescida à bola. Era promessa antiga. Casa composta, primeiro jogo de uma época que já se percebeu ir ser assombrado pelo fantasma Bruno. Onde estão os ghostbusters quando mais precisamos deles? Percebi um não sei quê de latência durante o jogo, com as claques muito interventivas, a apoiarem a sua equipa e tal, alegria, cânticos, comoção. Às tantas, nem parecia que estávamos em Alvalade. Senti falta dos assobios à equipa, do desânimo, daquele bota-abaixo típico de quem faz revolta da frustração.  O resultado foi-nos favorável, é certo. Melhor que a exibição. Mas para dizer a verdade: do que eu tinha mesmo saudades era da bifana pós-match, regada com duas cervejolas em boa companhia. Regressámos contentes, pai e filha. Ele, por ter cumprido a promessa. Ela, por ter ido à bola com o pai.

SPARVALHEIRA


A sociedade não sei das quantas quer José Afonso no Panteão, ignorando que o Panteão há muito está no Zeca. O episódio está ao nível da pesporrência que leva à exibição de falsas licenciaturas e teses de mestrado compradas a pataco. Num país de fachada como o nosso estas coisas surgem legitimadas pela cagança geral, mas há limites. A ideia de Zeca Afonso no Panteão Nacional só lembraria a quem não entende nada da obra de Zeca Afonso, ainda que possa jactar-se de ter andado de braço dado ou ladeado ou abraçado o autor d’A Ronda das Mafarricas. Presidida por um a-u-t-o-r que publica ao ritmo que os felinos copulam, a SPA bem que pode estender a passadeira vermelha à silly season. O 1º prémio em matéria de vanglória já ninguém lhes tira.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A ORDEM DO DIA


Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 1933. A “nata” empresarial germânica reúne-se secretamente com Hermann Göring e Adolf Hitler, tendo em vista o patrocínio financeiro da campanha nazi. Aquela que foi baptizada como II Grande Guerra ainda não se avista com clareza, mas quem a busque no horizonte não sentirá dificuldades em vislumbrá-la. Os nazis prometiam um regime de aço, o afastamento da ameaça comunista, acabar com sindicatos, «permitir que cada patrão seja um Führer na sua empresa» (p. 23). Os convidados arregalaram os olhos, lamberam as beiças. À mesa estão Gustav Krupp, que anos mais tarde será julgado em Nuremberga por praticar escravidão (é o homem da capa), Albert Vögler, industrial conhecido por temer a ascensão do comunismo, Günther Quandt, o homem do império onde hoje se inclui a BMW, divorciado de Magda Ritschel, que viria a ser mulher de Goebbels. Estão também Friedrich Flick, um dos homens da Mercedes, que, apesar de condenado a 7 anos em Nuremberga, não se livrou de morrer como um dos homens mais ricos do mundo. As contribuições ao Partido Nazi renderam mais de dois milhões de marcos. Só a IG Farben, onde se incluíam a BASF (lembram-se?) e a Bayer, contribuiu com 400000. O francês Éric Vuillard (n. 1968) começa por aqui a sua extraordinária narrativa A Ordem do Dia (Publicações Dom Quixote, Abril de 2018, trad. João Carlos Alvim), Prémio Goncourt 2017. Romance? Novela? Conto? Ensaio? História? Ficção? Pouco importa o género, o tipo, a forma, quando o que está em causa é um belíssimo livro que ler-se-ia de fôlego não fosse obrigar-nos tantas vezes a parar para colocar as emoções e o pensamento em níveis arteriais recomendáveis.
   Primeiro, a promiscuidade entre os mundos empresarial e político a revolutear-nos o estômago. Com consequências por todos conhecidas. Depois, o oportunismo, a avidez, a cegueira de uma ganância transversal. Apanha políticos, ataca indústria e finança, dissemina-se socialmente. Vuillard salta de um episódio para outro, nunca perdendo de vista o propósito de denunciar aquilo que leva ao abismo. Contra as ambições nazis restava ao mundo a oposição internacional. Em vésperas de Grande Guerra, Edward Frederick Lindley Wood, 1.º Conde de Halifax, visitou a Alemanha a convite de Göring. O retrato do encontro provoca-nos asco, o asco das subtilezas políticas, sempre rodeadas de um charme que contrasta com a miséria dos povos. Que terá visto Halifax em Göring? Podia ele ver alguma coisa? Afinal: «Não foi o muito honorável primeiro visconde de Halifax, que, na qualidade de chanceler do Tesouro, se opôs firmemente a que fosse concedida qualquer ajuda suplementar à Irlanda durante todo o tempo em que desempenhou esse cargo? A fome provocou um milhão de mortos» (p. 31). Sempre num degrau acima da realidade, estes agentes políticos a quem a realidade sustenta caprichos, ambições desmesuradas, loucuras, delírios, são tratados por Éric Vuillard sem piedade. 
   Segue-se Kurt Schuschnigg, «o pequeno déspota austríaco» (p. 34), hoje lembrado como «o último chefe de estado austríaco antinazista antes da anexação da Áustria à Alemanha». Como o apresenta o autor de A Ordem do Dia? Fraco, cobarde, esotérico, atabalhoado, submisso, «o pequeno ditador que Hitler tiraniza» (p. 58). Passará a guerra numa prisão nazi, é certo. Libertado pelos Aliados, «tornar-se-á um americano exemplar, um católico exemplar, um professor universitário exemplar, na universidade católica de Saint Louis» (p. 68). Exemplar! Éric Vuillard domina os temas, escreve com aquela simplicidade apenas possível a quem conhece profundamente o assunto a que se dedica, não se inibindo de tecer considerações, de lançar um olhar irónico sobre os podres da política. Leia-se, que merece mesmo ser lido:

«Na época em que era prisioneiro dos italianos, ainda jovem, durante a Primeira Guerra, Schuschnigg deveria ter lido os artigos de Gramsci, em lugar de romances de amor; teria assim talvez dado com estas linhas: «Quando discutes com um adversário, tenta pôr-te na pele dele.» Mas ele nunca se colocou na pele de ninguém, quando muito envergou o fato de Dollfuss, depois de lhe ter, durante alguns anos, lambido as botas. Pôr-se na pele de alguém? Nem sequer vê muito bem para que é que isso serve! Não se pôs na pele dos operários espancados, nem dos sindicalistas presos, nem dos democratas torturados; então, agora, só faltaria mesmo que conseguisse pôr-se na pele dos monstros! Hesita. É o derradeiro minuto da última hora. E, como de costume, capitula. Ele, a força e a religião, ele, a ordem e a autoridade, ei-lo que anui a tudo aquilo que lhe pedem. Basta que não lho peçam com delicadeza. Disse que não à liberdade dos sociais-democratas, com firmeza. Disse que não à liberdade de imprensa, com coragem. Disse que não à conservação de um parlamento eleito. Disse que não ao direito à greve, às reuniões, à existência de outros partidos para além do seu. E contudo, será esse mesmo homem que será contratado, no pós-guerra, pela nobre universidade de Saint Louis, no Missuri, como professor de ciência política» (pp. 70-71). 

   Lembra-vos alguma coisa? Notam alguma contradição? A Ordem do Dia parte de acontecimentos históricos, de uma história relativamente recente, num período que é o daqueles que caminham para o precipício. Sabemos dos factos, conhecemos a catástrofe, ficamos a perceber melhor como ela foi sendo anunciada «com pezinhos de lã», envolta no descaso geral de agentes políticos, económicos, financeiros, com a capacidade de contaminar toda a sociedade civil. À pergunta “como foi possível?”, podemos hoje responder “foi possível com conformismo, passividade, indiferença”. O que não é o mesmo que dizer “foi possível com desinteresse”. Pois, como prova a reunião secreta de 20 de Fevereiro de 1933, interesses havia muitos. Uma Europa a dormir foi recebendo com salvas, mais ou menos encenadas, os actos da catástrofe. Como se estivesse a assistir a uma peça de teatro em actos sucessivos onde os mortos eram reais, onde a morte, a tortura, a fome, a miséria, era real. Ou seja, não estava um degrau acima. A conclusão vale tanto sobre o tempo que passou como para o presente, como facilmente entenderá quem não faça como "os três macacos japoneses" e abra os olhos, escute com atenção, questione, duvide, critique: «Não se cai nunca duas vezes no mesmo abismo. Mas cai-se sempre da mesma forma, com uma mistura de ridículo e de pavor» (p. 141). Excelente livro.

OBRIGATÓRIO


No Expresso, entre obrigatórios, lê-se o seguinte: «São contos breves (ou brevíssimos), crónicas, reflexões, pequenos engenhos explosivos — entre ficção afiada e poema em prosa. Textos nómadas, mais ou menos selvagens, sempre a tender para a heterodoxia. Henrique M. B. Fialho olha para o mundo e espanta-se, ou indigna-se, ou contrapõe delírios ao caos do quotidiano. "Pode ainda ser lido como um romance fragmentário acerca da primeira geração nascida depois de Abril", acrescenta a editora». Clique na imagem para ver melhor.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

AMORES DE VERÃO #3


O PROBLEMA DA POESIA

O problema da poesia, percebi eu
ao passear na praia uma noite —
com a areia fria da Flórida sob os meus pés nus
e uma galáxia de estrelas no céu —

o problema da poesia é que
ela estimula a escrita de ainda mais poesia,
mais peixinhos a encher o tanque,
mais coelhinhos saltitando
da barriga das mães para a erva molhada de orvalho.

E como terá alguma vez fim?,
a não ser que acabe por chegar o dia
em que já comparámos todas as coisas que existem
com todas as outras coisas que existem,

e não haja mais nada a fazer
a não ser fechar silenciosamente os nossos cadernos
e sentarmo-nos com as mãos postas em cima das secretárias.

A poesia enche-me de alegria
e eu levito como uma pena ao vento.
A poesia enche-me de tristeza
e eu sinto-me a afundar como um colar lançado de uma ponte.

Mas, acima de tudo, a poesia enche-me
da necessidade de escrever poesia,
de me sentar no escuro a esperar que uma pequena chama
me apareça na ponta do lápis.

E, ao mesmo tempo, do desejo de roubar,
de irromper pelos poemas dos outros
com uma lanterna e uma máscara de esqui.

E que triste bando de gatunos nós somos,
carteiristas, larápios vulgares,
pensei para mim próprio
à medida que uma onda fria dançava à volta dos meus pés
e o farol varria o oceano com o seu megafone —
que é uma imagem roubada por mim directamente
a Lawrence Ferlinghetti —
para ser completamente honesto por um instante —

o poeta de S. Francisco que andava de bicicleta
e cujo livro, em forma de parque de diversões,
eu levava num bolso do meu uniforme para todo o lado
pelos traiçoeiros corredores do liceu.


Billy Collins (n. Manhattan, Nova Iorque, EUA, 22 de Março de 1941), in Amor Universal, trad. Ricardo Marques, Averno, Outubro de 2014, pp. 97-98.

ARETHA FRANKLIN (1942-2018)



Em todo o lado vejo dizer que morreu uma rainha. O meu republicanismo ressente-se. A última vez que transigi foi na roulotte das farturas. Talvez possa também abrir uma excepção à soul.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

INTERVALO DOLOROSO



Gazeta das Caldas, n.º 5238, sexta-feira, 10 de Agosto de 2018.

(também aqui)

SUBLINHADO MEU


   Choram os padres que a religião leva más andanças e eu o creio. Os templos por esse mundo estão às moscas. E também vos digo, baixinho que ninguém nos ouça, eu sou o último cá na terra a ter medo do inferno. Sabem os meus fidalgos, eu só queria um dia ser rei. Um dia não era cabonde; mas uma semana. Se fosse rei uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal. Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte. Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr um matacão em cima. Uma choldra de ladrões! Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode ter! Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro — lembram-se? — para me ajudar a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém. Vai senão quando, António Malhadas, salta de lá com nove tostões de sumptuária. Irra, novecentos réis por um cavalicoque, um chincaravelho que não valia, a bem dizer, os guizos dum gato! Raios partam o Governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figurões, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos! Raios partam! O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar? Quem lhe encomenda o sermão?!

Aquilino Ribeiro, in O Malhadinhas, pref. Maria Alzira Seixo, Bertrand Editora, Maio de 2018, p. 119.

VIDA EM POTÊNCIA


O potencial candidato encheu-se de coragem e saiu de casa num dia de Verão. Começou por visitar as tasquinhas, onde distribuiu abraços e beijinhos, tirou fotografias, foi apanhado nas redes do social. Depois passou pela Feira Nacional de Hortifruticultura (há quem diga horto…), repetindo gestos e trincando uma maçã. Na Feira do 15 de Agosto cruzou-se com potencial rival, cumprimentando-o cordialmente. Acabou a noite na Festa Branca, não deixando escarpar uma visita às Summer Sessions da praia local. Deitou-se cedo, precavendo um dia seguinte assaz exigente na Feira de São Bernardo. O potencial candidato passa o Verão de feira em festa. Suspeitamos que a chegada do Outono lhe proporcione tempo para pensar. É só uma suspeita, já que no último Inverno constatámos não ser do tipo dado ao pensamento. Idem na Primavera.

WEB SUBMIT


Na minha terra, cada um convida para a sua festa quem bem lhe apetecer. Depois só vai quem quer.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

AMORES DE VERÃO #2


O EU

É pequeno e invisível como os grilos
em Agosto. Gosta de fantasiar e mascarar,
como todos os anões. Mora entre
blocos de granito, entre verdades
prestáveis. Cabe até sob um
penso, sob uma venda. Não o encontrarão
os funcionários da alfândega nem os seus belos cães. Entre
hinos, entre alianças, esconde-se o eu.
Acampa nas Montanhas Rochosas do crânio.
Eterno fugitivo. Ele é eu próprio e eu
estou nele com a temerosa esperança de que finalmente
tenha encontrado um verdadeiro amigo. Mas ele
é solitário, tão desconfiado, não
aceita ninguém, nem a mim.
Adere aos acontecimentos históricos
como a água ao copo.
Poder-se-ia encher com ele uma jarra do neolítico.
É insaciável, quer fluir
por aquedutos, tem sede de vasos cada vez mais novos.
Quer saborear um espaço sem paredes,
difundir-se, difundir. Depois desaparece,
como o desejo, e no silêncio duma noite
de Agosto a única coisa que se consegue ouvir é a paciente
conversa dos grilos com as estrelas.

Adam Zagajewski (n. Lviv, Ucrânia, 21 de Junho de 1945), in Sombras de Sombras, trad. Marco Bruno, rev. Jorge Sousa Braga, Tinta-da-China, Novembro de 2017, p. 43.

TRÊS NOVELAS DE JAIME ROCHA



   Jaime Rocha (n. 1949), pseudónimo de Rui Ferreira de Sousa, começou por publicar poesia ainda na década de 1970. A primeira obra de ficção surgiu em 1984, com o título Tonho e as Almas. Nessa obra fomos apresentados a uma paisagem que acompanhará grande parte da obra subsequente, paisagem claramente relacionada com as origens nazarenas do autor, preenchida por barcos, pescadores, o mar em pano de fundo, falésias e até, em certos momentos, um linguajar típico da região. Mas esta fixação geográfica e social é apenas cenário para realidades psicológicas mais profundas e menos naturalistas. Não é raro as narrativas de Jaime Rocha enveredarem por ambientes típicos da literatura fantástica, com personagens perseguidas por traumas, sonhos, alucinações, fantasmas, delírios. Títulos como A Loucura Branca (1.º edição, 1990) e A Rapariga Sem Carne (Relógio D’Água, Novembro de 2012) apontam claramente nessa direcção, quer pela sugestão patológica da palavra loucura, quer pela impressão fantasmagórica da imagem de uma rapariga sem carne.
   No posfácio de António Cabrita que acompanha a 3.ª edição de A Loucura Branca (Relógio D’Água, Maio de 2014) lê-se que «a escrita de Jaime Rocha é a de quem anda pelas ruas com a cabeça submersa nos rumores do mundo, nas suas dimensões dúplices, ocultas, cifradas, afastando da sua frente, com gestos de nadador, as cortinas do aparente» (p. 88). Este exercício de andar pelas ruas é, antes de mais, uma característica das personagens. Nota-se especialmente em A Rapariga Sem Carne, com Mateus a deixar dentro de casa o corpo de uma mulher estranha, ali instalada de um modo enigmático, enquanto sai e observa as ruas da cidade onde vive: «Pela rua fora, pessoas vestidas de escuro espalham-se e desaparecem dentro dos carros ou entram nos pequenos cafés. Há cães a urinar nos pneus dos carros e sacos de plástico a esvoaçar pelas bermas» (p. 17). A cidade de A Rapariga sem Carne não é muito diferente da vila de Escola de Náufragos (Relógio D’Água, Março de 2016), ainda que entre ambas exista um óbvio distanciamento no tempo e no espaço. Também aí uma criança chamada Mateus anda pelas ruas a espalhar seu olhar demoníaco, enquanto dentro de casa os mistérios da família, os segredos, as ocultações, preparam o terreno da tragédia.
   O facto de tanto em A Rapariga sem Carne como em Escola de Náufragos a personagem central se chamar Mateus permite-nos supor um elo entre as duas narrativas. Não poderá o Mateus de A Rapariga sem Carne ser a versão adulta do rapaz que aprendeu a ser homem na Escola de Náufragos? Se optarmos por uma interpretação menos literal da palavra naufrágio, que surge nestas obras em contexto distinto, vislumbramos nestas histórias de cariz fantástico uma concepção da natureza humana que aponta para a ideia de queda. A criança de Escola de Náufragos está num processo de iniciação, o qual se desenrola através de gestos violentos, crimes, injustiças. Somos levados a pensar mais numa ética do mal do que do bem. A loucura já não é um estado iminente, é a normalidade da qual dificilmente se escapa. Neste sentido, a casa, entendida enquanto refúgio doméstico, está ausente na vida destas personagens. A casa é uma armadilha de fantasmas e de alucinações, como fica óbvio em A Rapariga sem Carne; a casa é um antro de segredos e de obscuridades, de sombras que se intrometem no pensamento. Daí que, em Escola de Náufragos, a avó de Mateus o aconselhe: «Agora vai-te embora, vai para a rua que a casa faz-te mal» (p. 31).
   No entanto, o mundo doentio da casa, do refúgio, do covil, não encontra solução na rua. As personagens saem, caminham, observam, como que arejam, mas não se resolvem. A rua oferece-lhes um mundo que não as resgata da loucura. Com uma estrutura mais complexa, A Loucura Branca também coloca a sua personagem central frente ao mar. Mas esta experiencia o trauma do suicídio de um amigo: «mato-me porque não aguento ver aquilo em que os outros se tornaram» (p. 11). O naufrágio tem aqui uma essência dúplice: é o daqueles que sucumbem à realidade e é o daqueles que, não sucumbindo à realidade, como que se alienam dela e são declarados loucos. A primeira razão do suicídio não é alguém não aguentar a sua vida, mas antes o efeito que a observação da vida dos outros tem na sua própria vida. Loucos porque deprimidos, stressados, esgotados, angustiados, ou, como no caso de José Lúcio, porque perseguidos por sonhos aterradores. Em A Loucura Branca, Jaime Rocha desloca-nos para um universo onírico. Também nesse pesadelo a casa surge como lugar desconfortável, decorado sem gosto, e a rua é lugar do imprevisível, do desconhecido: «Saiu apressado como se fosse cumprir uma tarefa importante, mas, na realidade, não sabia aonde se dirigia, nem em que dia exactamente estava em relação ao tempo que o médico fixara para a cura do tumor» (p. 38).
   Destas três novelas, com seus pesadelos, enxurradas, naufrágios, conservamos o desconforto das personagens. Em nenhuma situação elas aparecem instaladas, integradas. Há um conflito latente entre as suas personalidades e o mundo envolvente, o qual surge representado sob a forma trágica da queda. O pânico do alucinado só recupera tranquilidade quando reencontra a sua alucinação. O imaterial, o irreal, o sonho, oferece-lhe um sentido que a realidade usurpa. A realidade tem os traços da desolação, é o beco onde todos os males e todos os desastres se consumam. José Lúcio descobre que odeia a mulher quando ela se recusa ouvir-lhe a descrição dos pesadelos. A sua mulher já não é a que sai para ir às compras com os filhos, mas sim a mulher de pele dourada e olhos azuis que lhe aparece nos sonhos. Ele separou-se da realidade, casou-se com um fantasma, com uma alucinação, com uma ideia. Ao saírem para a rua, em boa verdade, estas personagens afundam-se cada vez mais em si mesmas. Por isso são náufragos, cada vez mais imersos nas profundezas do desconhecido que habita todos nós. É como se a rua fosse o mar onde o náufrago se afundou. É como se a casa fosse o barco à deriva num beco maligno. O exterior onde se movimentam corresponde, paradoxalmente, ao interior de que estão cativas. Não foi este o percurso traçado pelos românticos do século XIX? E não foi esse o caminho onde a determinada altura desabrochou toda a grande literatura fantástica?

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

FUI DESCOBERTO


Guardo para mim a mania de que apenas serei escritor quando encontrar alguém a ler-me numa praia. Isto não é bem a mesma coisa, mas anda perto. Grato ao Rui Almeida pela notícia, que me teria escapado. Continuo a frequentar mais praias desertas do que redes sociais. Clicar na imagem para ver melhor. 

15 ANOS


15 anos é muito tempo. A minha filha mais velha tem 15 anos. Há 15 anos publiquei o primeiro post. Foi há pouco mais de 15 anos, 15 anos e alguns dias. Este que agora publico, 15 anos depois, é para recordar como Portugal era então: aqui. O que mudou? Portugal continua a arder, 15 anos de pó, de chamas e de cinzas. 

AMORES DE VERÃO #1



Acabará o Verão. Começará Setembro. Abrirá
a caça aos patos, às galinholas. "Ah, como estás
velho" dir-te-á uma, e tu engatilharás a de dois canos,
não para levantar uma rola, mas para recobrar ânimo.
E as narinas fremem com os pêssegos secos que vendem
na rua. Mas, fora isto, muda tão rápido o mundo,
como se tivesse adoptado em dado momento
as manias extravagantes dum estrangeiro moreno.

Nisto, o Outono, claro, não é tido nem achado. Nem a dor
do rosto alterado como o da fera que investe contra o caçador,
mas esta sensação de pincel pousado ao lado duma pintura
a que falta princípio e fim, caixilho e estrutura.
Para não falar do museu, para não falar do gancho.
E o comboio passa ao longe na planície apitando,
embora, vendo bem, não seja visível o fumo.
Mas, do ponto de vista da paisagem, obrigatório é o movimento.

Isto aplica-se ao Outono, a todos os tempos,
a quando deixas de fumar e também quando
as árvores parecem carris que rejeitaram os rodeiros
e enferrujam no desvio para o alto do outeiro.
E não tens na garganta uma bola, mas um ouriço inteiro,
pois já não podes apreciar as linhas dum cargueiro
que ao largo passa, e o perfil dum aeroplano,
desprovido de auréola, nas alturas parece estranho.

A velocidade é só isto. A amiga tinha razão — quem diria?
Um antigo romano que acordasse agora que reconheceria?
Uma pilha de lenha, a textura duma nuvem, os pombos nas alturas,
a água parada, qualquer coisa na arquitectura,
mas nem uma cara. Ainda há quem passe a fronteira
de vez em quando, mas, a uma segunda vida sem direito, 
regressa a casa a correr, de terror o olhar desfeito.
E o lenço, do adeus não refeito, 

agita-se e vibra ainda ao vento. Outros, cuja sorte foi amarem
qualquer coisa mais do que a vida, sempre souberam
que a segunda vida é, afinal, a velhice, e deixam-se
ficar ao sol, brancos como o mármore, nunca escurecem.
E, sem desprezarem os prazeres da história, olham fixamente
um ponto distante. Pois que, quanto mais os pontos forem,
mais manchas terão os ovos — jogamos aqui ao esconde-esconde —
da codorniz, da galinhola e da perdiz que se levanta não sei onde.


Iosif Brodskii (n. São Petersburgo, antiga Leninegrado, 24 de Maio de 1940 - m. Nova Iorque, 28 de Janeiro de 1996), in Paisagem com Inundação, trad. Carlos Leite, Cotovia, Outubro de 2001, pp. 53-55.

TOMASZ STAŃKO (1942-2018)


Comecei a ouvi-lo apenas em 2002, por causa de Soul of Things. A capa reproduzia um fotograma do filme Éloge de l'amour, do realizador Jean-Luc Godard. Devo a chamada de atenção ao Carlos, do Alinhavar, que não vejo há anos e de quem tenho saudades.