O universo da música rock é fértil em personalidades trágicas, e cada
geração tem a sua. A minha teve Kurt Cobain. Natural de Aberdeen, formou os
Nirvana em 1987. Tinha 20 anos. O primeiro álbum tenho-o eu ainda em formato
vinil (ou tinha, emprestei-o a um emigrado que nunca mais o devolveu). Bleach
surgiu em 1989 com o selo da Sub Pop, editora de Seattle que entra na história
como a grande impulsionadora do movimento grunge. É desse primeiro álbum About
a Girl, canção mais tarde popularizada na versão unplugged gravada para a MTV em 1993 — gravação,
ao que parece, pulverizada de mensagens subliminares acerca do estado
depressivo que assaltara Kurt Cobain. Foi encontrado morto a 8 de Abril de
1994, três dias depois de haver estoirado a cabeça com um tiro de caçadeira.
O sucesso estrondoso que os Nirvana almejaram com
Nevermind (1991), irónico desde a capa onde se exibe um bebé a nadar debaixo de
água na direcção de uma nota espetada num anzol, ficou primeiramente a dever-se
ao inteligente teledisco realizado por Samuel Bayer para o tema Smells Like
Teen Spirit. É tudo inteligente e eficaz naquelas imagens, porque nelas se
reflecte o efeito da música dos Nirvana sobre quem os ouvia: desordem. Da
inofensiva coreografia inicial das cheerleadres ao mosh final, tudo bate certo
naquele vídeo porque tudo é autêntico. A mensagem de fúria e de
descarga energética é a mensagem do rock como há muito não a (ou)víamos.
Devemos aos Nirvana a capacidade de resgatar as
guitarras, de reavivar um conceito de simplicidade que nada mais exige senão bons
riffs, uma secção rítmica portentosa, letras empolgantes com refrões orelhudos:
Come As You Are, Lithium, Drain You, In Bloom, estavam à altura. O que ainda
hoje impressiona num disco como Nevermind, e nisso a produção do experiente Butch
Vig há-de ter ajudado como às omeletas ajudam os ovos, é a proliferação de temas
arrebatadores rítmica e melodicamente. A música dos Nirvana enferma porém de
uma contradição que foi a tragédia do artista. Pretendendo mandar às favas a
melancolia, não se livra de ser melancólica.
É ténue a diferença entre viver a melancolia a 200 à
hora e arrastá-la lentamente pelos dias. Os primeiros morrem novos, suicidam-se,
anulam-se, autodestroem-se. Os segundos ou sufocam na própria frustração ou dão
em doidos e acabam em coletes-de-forças, mergulhados em comprimidos e terapias
de todo o tipo. Querendo ser terapêutica, a música dos Nirvana mete o pé no
acelerador e obriga o corpo a agitar-se como que apartando maus-olhados e
alienando espíritos malignos. O mal continua a correr nas veias de quem dança,
pelo que a constatação a posteriori de que a felicidade não se conquista com
injecções intravenosas pode ser fatal. Ainda assim, o ouvinte agradece a
mensagem, abana o capacete. Por ínfimos momentos que sejam, esses em que
interrompemos o curso horrível das horas são já de si overdoses de sonho.

1 comentário:
E por fim chegámos à verdadeira essência!! =) desconfiava que algum dia os Nirvana teriam que por aqui aparecer.
Conselho: Se esse vinil Bleach for o original, resgata-o, é bem valioso. Pessoalmente até prefiro o Bleach ao Nevermind.
É curioso a quantidade de malta nova que se vê com t-shirts deles. Malta que claramente só poderia ter sido capa do Nevermind muitos anos depois de este ter sido editado.
Muitas vezes penso, sendo muito bom o que fizeram, o que não ficou por fazer?...
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