terça-feira, 28 de agosto de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #48



   O universo da música rock é fértil em personalidades trágicas, e cada geração tem a sua. A minha teve Kurt Cobain. Natural de Aberdeen, formou os Nirvana em 1987. Tinha 20 anos. O primeiro álbum tenho-o eu ainda em formato vinil (ou tinha, emprestei-o a um emigrado que nunca mais o devolveu). Bleach surgiu em 1989 com o selo da Sub Pop, editora de Seattle que entra na história como a grande impulsionadora do movimento grunge. É desse primeiro álbum About a Girl, canção mais tarde popularizada na versão unplugged gravada para a MTV em 1993 gravação, ao que parece, pulverizada de mensagens subliminares acerca do estado depressivo que assaltara Kurt Cobain. Foi encontrado morto a 8 de Abril de 1994, três dias depois de haver estoirado a cabeça com um tiro de caçadeira.
   O sucesso estrondoso que os Nirvana almejaram com Nevermind (1991), irónico desde a capa onde se exibe um bebé a nadar debaixo de água na direcção de uma nota espetada num anzol, ficou primeiramente a dever-se ao inteligente teledisco realizado por Samuel Bayer para o tema Smells Like Teen Spirit. É tudo inteligente e eficaz naquelas imagens, porque nelas se reflecte o efeito da música dos Nirvana sobre quem os ouvia: desordem. Da inofensiva coreografia inicial das cheerleadres ao mosh final, tudo bate certo naquele vídeo porque tudo é autêntico. A mensagem de fúria e de descarga energética é a mensagem do rock como há muito não a (ou)víamos.
   Devemos aos Nirvana a capacidade de resgatar as guitarras, de reavivar um conceito de simplicidade que nada mais exige senão bons riffs, uma secção rítmica portentosa, letras empolgantes com refrões orelhudos: Come As You Are, Lithium, Drain You, In Bloom, estavam à altura. O que ainda hoje impressiona num disco como Nevermind, e nisso a produção do experiente Butch Vig há-de ter ajudado como às omeletas ajudam os ovos, é a proliferação de temas arrebatadores rítmica e melodicamente. A música dos Nirvana enferma porém de uma contradição que foi a tragédia do artista. Pretendendo mandar às favas a melancolia, não se livra de ser melancólica.
   É ténue a diferença entre viver a melancolia a 200 à hora e arrastá-la lentamente pelos dias. Os primeiros morrem novos, suicidam-se, anulam-se, autodestroem-se. Os segundos ou sufocam na própria frustração ou dão em doidos e acabam em coletes-de-forças, mergulhados em comprimidos e terapias de todo o tipo. Querendo ser terapêutica, a música dos Nirvana mete o pé no acelerador e obriga o corpo a agitar-se como que apartando maus-olhados e alienando espíritos malignos. O mal continua a correr nas veias de quem dança, pelo que a constatação a posteriori de que a felicidade não se conquista com injecções intravenosas pode ser fatal. Ainda assim, o ouvinte agradece a mensagem, abana o capacete. Por ínfimos momentos que sejam, esses em que interrompemos o curso horrível das horas são já de si overdoses de sonho.


1 comentário:

Ivo disse...

E por fim chegámos à verdadeira essência!! =) desconfiava que algum dia os Nirvana teriam que por aqui aparecer.
Conselho: Se esse vinil Bleach for o original, resgata-o, é bem valioso. Pessoalmente até prefiro o Bleach ao Nevermind.
É curioso a quantidade de malta nova que se vê com t-shirts deles. Malta que claramente só poderia ter sido capa do Nevermind muitos anos depois de este ter sido editado.
Muitas vezes penso, sendo muito bom o que fizeram, o que não ficou por fazer?...