sexta-feira, 28 de setembro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #50




Quem fala de Robert Mapplethorpe fala de Patti Smith, amante, amiga, companheira de uma vida. Casada com Fred “Sonic” Smith, a quem dedicou o belíssimo Gone Again (1996), Smith manteve uma forte ligação a Mapplethorpe até ao fim. É dele a fotografia de capa de Horses (1975), álbum de estreia com lugar reservado na história da música popular. A título de curiosidade, refira-se que a foto de capa de Gone Again (1996) é de Annie Leibovitz. Esta relação com a fotografia não é despicienda, está ligada a um tipo de escrita que Smith cultivou a ponto de ser vulgarmente considerada a poeta do punk rock. Não obstante, sempre me pareceu precipitada a associação de Horses ao movimento punk. Mesmo considerando a sua pré-história, o álbum de estreia de Patti Smith denota uma sofisticação que nada tem que ver com o imediatismo furioso e anti-social dos punks. É verdade que o piano oferecido a Gloria, original de Van Morrison, rapidamente cede primazia à guitarra de Lenny Kaye. Mas o que tem de punk um tema como Break It Up, enriquecido com a guitarra de Tom Verlaine dos Television? Os nove minutos e qualquer coisa de Birdland e Land: Horses, com incursões pela spoken word, aproximam esta música das derivas poéticas de Jim Morrison em temas tais como The End ou When the Music’s Over. A produção de John Cale, dos The Velvet Underground, permite-nos também lembrar Heroin, canção que ressoa a espaços na repetição intensa de acordes simples e palavras de ordem.


Herdeira da aproximação da literatura à música popular, Patti Smith começou antes por ser um reforço na afirmação da mulher em contexto rock. Punk mesmo punkMy Generation, original de Pete Townshend com o qual Horses encerra em versão live. Com uma voz carregada de raiva, postura musculada, Patti Smith desbravou terreno para uma linguagem musical no feminino que artistas como Siouxsie Sioux, na década de 1980, e P J Harvey, na década seguinte, viriam a desenvolver. No supracitado Gone Again (1996), passados mais de vinte anos sobre a estreia, percebemos melhor a riqueza do percurso. Marcado por perdas pessoais ou próximas (o tema About a Boy é claramente dedicado a Kurt Cobain), compreendemos como no centro da música de Patti Smith respirou sempre um lirismo onde se conjugam observações sociais e alucinações pessoais, um lirismo da ruína, niilista, livre e provocador.

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