segunda-feira, 8 de outubro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #51



It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine), foi a primeira canção que ouvi dos R.EM.. Faz-me mais sentido hoje do que quando a ouvi pela primeira vez, teria uns 13 ou 14 anos. O tema surgiu no álbum Document (1987), quando ainda se ouvia rádio. E a canção passava na rádio, como também passava, do mesmo álbum, The One I Love.


Oriundos de Athens, no estado norte-americano da Geórgia, os R.E.M. estrearam-se com Murmur (1983). Canções como Radio Free Europe, Pilgrimage, Talk About The Passion, Perfect Circle, deram o mote para uma sonoridade pop-rock com nuances líricas misteriosas e encantadoras. O mega sucesso obtido mais tarde, com os álbuns Out of Time (1991) e Automatic for The People (1992), acabou por de algum modo vulgarizar uma proposta desenvolvida na década anterior com meia dúzia de álbuns. A verdade é esta: só em 1991 lhes prestei a devida atenção, por causa do vídeo de Losing My Religion. Como nada disto é por acaso, refira-se que algumas cenas do vídeo remetem para um filme de Andrei Tarkovsky e para quadros de Caravaggio. Apesar da vulgarização mediática, a banda de Michael Stipe nunca se esgotou nas melodias apelativas que sempre os caracterizaram. Fundindo elementos provenientes da folk tradicional com ritmos pop, recorreram amiúde a arranjos sofisticados posteriormente adoptados por inúmeras bandas. (Don’t Go Back To) Rockville, assinada por Mike Mills, parece uma canção country, já Sitting Still é pura folk rock, Can’t Get There From Here aproxima-se da new wave, mas há também homenagens ao punk , ao rock de garagem, a Patti Smith. A belíssima voz de Michael Stipe oferece aos temas um tom dramático, por vezes melancólico e noutras ocasiões empolgante. Escute-se Finest Worksong, do supracitado Document, como exemplo dessa capacidade de conjugar com ironia um retrato decadente da sociedade e um discurso provocador.  


And I Feel Fine… The Best Of The I.R.S. Years 1982-1987 (2006) compilou em dois CDs quarenta e duas canções dos primeiros tempos, oferecendo uma panorâmica generosa do percurso de uma das mais relevantes bandas de rock alternativo formadas durante a década de 1980. Quem apenas conheça os R.E.M. por causa de Everybody Hurts poderá ter uma bela surpresa ao escutar estas canções, filiadas desde o início numa sensibilidade melódica que nunca se curvou ao facilitismo da cançoneta de salão. Com uma sensibilidade muito própria, mostraram ser possível fazer pop sem sacrificar a dimensão poética de uma canção.


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