A tendência para o inclassificável, seja em que área for,
sempre se sobrepôs à necessidade de etiqueta(s), que tanto quanto posso procuro
afastar do caminho. No trabalho, os melhores livros têm sido os que desafiam a
arrumação por géneros e tipos e sinaléticas. Prefiro organizar-me conforme
datas, enquadrando num mapa cá muito meu o curso da História. Na música, faço
mais ou menos a mesma coisa. Isto permite-me como que retomar espantos
iniciais, recuperar o fácies boquiaberto de quem se interroga ao longo do tempo
como foi possível ter havido no tempo o que o próprio tempo tenderia a
explicar, regularizar, normalizar.
Permanece a dúvida: como foi possível uma
banda como os Soul Coughing quando andava toda a gente a ressacar Nirvana e
quejandos? A origem nova-iorquina talvez permita compreender uma veia
experimental, vanguardista, recicladora de géneros a partir dos quais emerge um
anti-género. Frank Zappa é a referência mais óbvia. Música
monstruosa, a dos Soul Coughing, enraizada num contrabaixo com ressonâncias
claramente jazzísticas que a percussão desvia para o groove e para a dança. No
limite, são uma banda de jazz a repercutir no final do século XX a missão de
fazer dançar que imbuía os músicos de jazz do início do século. A arte dos “samples”,
isto é, da colagem, da remistura, e um vocalista em contínuo registo spoken
word (raramente canta) conferem a modernidade, abrindo janelas para o hip-hop,
para a soul, para o funk. Não estando ausente, a guitarra é o instrumento que
menos sobressai neste quarteto atípico.
Ruby Vroom (1994), o primeiro álbum,
está repleto de momentos em que pressentimos o gozo da improvisação, da
desconstrução de ambientes à partida encantadores com uma parafernália sonora intencionalmente
caótica (gaivotas, ruas, fragmentos quotidianos). Depois de os ter visto ao
vivo na Aula Magna de Lisboa, julgo que em 1996, fiquei ainda mais convencido
dessa veia inchada de desfocagens e deformações sonoras. Algumas drogas também,
sem dúvida. Ficamos a perceber melhor de onde isso vem quando verificamos que
alguma desta rapaziada andava na companhia de John Zorn ainda antes de ter sido
um corpo (des)conjunto. Mas Uh, Zoom Zip tem um groove do caraças, apetece logo
dançar e esquecer o Brasil, os fascistas, a porcaria de um mundo a afundar-se
no pântano das suas criações.
Isto podia ser coisa de um álbum só, como tantas
vezes sucede para entreter maus feitios. Não foi o caso. Ainda que o projecto
tenha sucumbido ao terceiro tomo, porventura o mais pop dos três, Irresistible
Bliss (1996) manteve desperta, ou seja, aberta, a janela da (con)fusão. Com mais guitarra, é certo. Acusados
de se terem rendido à pop por quem trazia tímpanos sujos, os Soul Coughing do
segundo álbum não se limitaram a copiar os do primeiro nem se preocuparam em
agradar a quem desconhecesse o seu passado. O mundo é que era diferente.
Basta ouvir o poderosíssimo Super Bon Bon para percebê-lo. Melhor naquele ano
só mesmo Odelay, de Beck Hansen.
P.S.: procurem Lazybones. Não se arrependerão.

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