quarta-feira, 24 de outubro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #52



A tendência para o inclassificável, seja em que área for, sempre se sobrepôs à necessidade de etiqueta(s), que tanto quanto posso procuro afastar do caminho. No trabalho, os melhores livros têm sido os que desafiam a arrumação por géneros e tipos e sinaléticas. Prefiro organizar-me conforme datas, enquadrando num mapa cá muito meu o curso da História. Na música, faço mais ou menos a mesma coisa. Isto permite-me como que retomar espantos iniciais, recuperar o fácies boquiaberto de quem se interroga ao longo do tempo como foi possível ter havido no tempo o que o próprio tempo tenderia a explicar, regularizar, normalizar. 
Permanece a dúvida: como foi possível uma banda como os Soul Coughing quando andava toda a gente a ressacar Nirvana e quejandos? A origem nova-iorquina talvez permita compreender uma veia experimental, vanguardista, recicladora de géneros a partir dos quais emerge um anti-género. Frank Zappa é a referência mais óbvia. Música monstruosa, a dos Soul Coughing, enraizada num contrabaixo com ressonâncias claramente jazzísticas que a percussão desvia para o groove e para a dança. No limite, são uma banda de jazz a repercutir no final do século XX a missão de fazer dançar que imbuía os músicos de jazz do início do século. A arte dos “samples”, isto é, da colagem, da remistura, e um vocalista em contínuo registo spoken word (raramente canta) conferem a modernidade, abrindo janelas para o hip-hop, para a soul, para o funk. Não estando ausente, a guitarra é o instrumento que menos sobressai neste quarteto atípico. 
Ruby Vroom (1994), o primeiro álbum, está repleto de momentos em que pressentimos o gozo da improvisação, da desconstrução de ambientes à partida encantadores com uma parafernália sonora intencionalmente caótica (gaivotas, ruas, fragmentos quotidianos). Depois de os ter visto ao vivo na Aula Magna de Lisboa, julgo que em 1996, fiquei ainda mais convencido dessa veia inchada de desfocagens e deformações sonoras. Algumas drogas também, sem dúvida. Ficamos a perceber melhor de onde isso vem quando verificamos que alguma desta rapaziada andava na companhia de John Zorn ainda antes de ter sido um corpo (des)conjunto. Mas Uh, Zoom Zip tem um groove do caraças, apetece logo dançar e esquecer o Brasil, os fascistas, a porcaria de um mundo a afundar-se no pântano das suas criações. 
Isto podia ser coisa de um álbum só, como tantas vezes sucede para entreter maus feitios. Não foi o caso. Ainda que o projecto tenha sucumbido ao terceiro tomo, porventura o mais pop dos três, Irresistible Bliss (1996) manteve desperta, ou seja, aberta, a janela da (con)fusão. Com mais guitarra, é certo. Acusados de se terem rendido à pop por quem trazia tímpanos sujos, os Soul Coughing do segundo álbum não se limitaram a copiar os do primeiro nem se preocuparam em agradar a quem desconhecesse o seu passado. O mundo é que era diferente. Basta ouvir o poderosíssimo Super Bon Bon para percebê-lo. Melhor naquele ano só mesmo Odelay, de Beck Hansen.




P.S.: procurem Lazybones. Não se arrependerão.

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