terça-feira, 27 de novembro de 2018

INTERVALO DOLOROSO


   A Ministra da Cultura diz que a tauromaquia não é uma questão de gosto, é uma questão de civilização. Vai daí, taxe-se a 13%. Manuel Alegre discordou, fazendo valer a sua discordância sugerindo um perigo latente na decisão da Ministra: “É este tipo de intolerâncias que cria os Bolsonaros”, disse o poeta mais rico de Portugal. Quando eu era adolescente, o mais popular dos contra-argumentos era do mesmo tipo da retórica utilizada por Alegre. Dizíamos que o nosso adversário estava a falar como outrora havia falado Hitler, ficando o assunto arrumado. Ninguém quer ser comparado a Hitler. Excepto, talvez, o Bolsonaro.
   Argumentos puramente retóricos interessam-me cada vez menos, desde logo por me parecer que não têm força num mundo cada vez mais permeável às notícias falsas, cada menos preocupado com a morte do jornalismo, cada vez mais democrático na disseminação de burgessos que passam a vida a vomitar teorias acerca de tudo nas redes sociais sem nunca terem lido um livro que seja acerca de nada. Se a opção é por estupidificar, estupidifiquemos.
   Tive há dias a ideia de uma startup que talvez fizesse sucesso naquela coisa do Web Summit. A ideia consistia numa máquina de gerar Bolsonaros, primeiro pequeninos e baratos, mas que depois podiam ser regados, cresceriam e tomariam conta dos próprios criadores como por vezes acontece às criaturas. O criador da web não anda para aí pedindo responsabilidade, amedrontado que está com as implicações do monstro que pariu? Pois bem, sejamos destemidos. O futuro sorri-nos do fundo do abismo.
   Só não estou convencido dos méritos da minha veia empreendedora porque ainda não adormeci totalmente, tenho meio olho aberto que se mantém desvairado, aos círculos, acumulando daqui e dacolá um razoável arquivo de factos. Apenas isso me leva a considerar que a minha máquina de produzir Bolsonaros seria um fracasso, cheguei tarde, eles estão por todo o lado e têm vindo a ser gerados, cultivados e promovidos à borla.
   A tendência para opormos a civilização à barbárie ainda nos sairá cara, principalmente se teimarmos em não aceitar que as mais nefastas barbáries foram produções de gente muito civilizada. E não estou a referir-me a touradas. Na actualidade, o que não falta é exemplos de como é perigoso colocar no mesmo saco a defesa dos direitos dos animais e discursos de apelo à violência como os algaraviados pelas trupes de fanáticos. E é preciso dizê-lo com toda a clareza: andarmos a discutir 1 % para a cultura em pleno século XXI é do domínio da barbárie, não tem nada de civilizado.
   Querem maquinazinhas de gerar Bolsonaros? Olhem para as praxes, com suas bestas trajadas promovendo posturas reverenciais e acéfalas, ostentando poderes e hierarquias legitimados tanto pela subordinação como pela estupidez, cultivando o medo como o carneirismo. Querem maquinazinhas de gerar Bolsonaros? Olhem para os patrões que exploram sem piedade, empregando sem contrato nem direitos, descontando nos vencimentos rendas de tugúrios que eles próprios arrendam a quem contratam, gente vinda de longe, desamparada, que nada tem. “Pelo menos aqui têm alguma coisa”, ainda arrotam os novos esclavagistas sem pinga de consciência moral.
   Enfim, querem maquinazinhas de gerar Bolsonaros? Olhem para as claques de futebol e para as juventudes partidárias, olhem para o rei de Espanha a pousar ao lado do elefante abatido numa era em que, sabemos agora, 60 % da vida animal no planeta foi simplesmente dizimada pelos homens nos últimos 50 anos. Vem no Guardian, num artigo que por certo os pequenos Bolsonaros jamais lerão. Estão ocupados a vomitar as suas teorias nas redes sociais.


In Gazeta das Caldas, n.º 5252, 16 de Novembro de 2018, p. 28.

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