A Ministra da Cultura diz que a tauromaquia
não é uma questão de gosto, é uma questão de civilização. Vai daí, taxe-se a
13%. Manuel Alegre discordou, fazendo valer a sua discordância sugerindo um
perigo latente na decisão da Ministra: “É este tipo de intolerâncias que cria
os Bolsonaros”, disse o poeta mais rico de Portugal. Quando eu era adolescente,
o mais popular dos contra-argumentos era do mesmo tipo da retórica utilizada
por Alegre. Dizíamos que o nosso adversário estava a falar como outrora havia
falado Hitler, ficando o assunto arrumado. Ninguém quer ser comparado a Hitler.
Excepto, talvez, o Bolsonaro.
Argumentos puramente retóricos interessam-me
cada vez menos, desde logo por me parecer que não têm força num mundo cada vez
mais permeável às notícias falsas, cada menos preocupado com a morte do
jornalismo, cada vez mais democrático na disseminação de burgessos que passam a
vida a vomitar teorias acerca de tudo nas redes sociais sem nunca terem lido um
livro que seja acerca de nada. Se a opção é por estupidificar, estupidifiquemos.
Tive há dias a ideia de uma startup que talvez
fizesse sucesso naquela coisa do Web Summit. A ideia consistia numa máquina de
gerar Bolsonaros, primeiro pequeninos e baratos, mas que depois podiam ser
regados, cresceriam e tomariam conta dos próprios criadores como por vezes
acontece às criaturas. O criador da web não anda para aí pedindo
responsabilidade, amedrontado que está com as implicações do monstro que pariu?
Pois bem, sejamos destemidos. O futuro sorri-nos do fundo do abismo.
Só não estou convencido dos méritos da minha
veia empreendedora porque ainda não adormeci totalmente, tenho meio olho aberto
que se mantém desvairado, aos círculos, acumulando daqui e dacolá um razoável
arquivo de factos. Apenas isso me leva a considerar que a minha máquina de
produzir Bolsonaros seria um fracasso, cheguei tarde, eles estão por todo o
lado e têm vindo a ser gerados, cultivados e promovidos à borla.
A tendência para opormos a civilização à
barbárie ainda nos sairá cara, principalmente se teimarmos em não aceitar que
as mais nefastas barbáries foram produções de gente muito civilizada. E não
estou a referir-me a touradas. Na actualidade, o que não falta é exemplos de
como é perigoso colocar no mesmo saco a defesa dos direitos dos animais e
discursos de apelo à violência como os algaraviados pelas trupes de fanáticos.
E é preciso dizê-lo com toda a clareza: andarmos a discutir 1 % para a cultura
em pleno século XXI é do domínio da barbárie, não tem nada de civilizado.
Querem maquinazinhas de gerar Bolsonaros?
Olhem para as praxes, com suas bestas trajadas promovendo posturas reverenciais
e acéfalas, ostentando poderes e hierarquias legitimados tanto pela subordinação
como pela estupidez, cultivando o medo como o carneirismo. Querem maquinazinhas
de gerar Bolsonaros? Olhem para os patrões que exploram sem piedade, empregando
sem contrato nem direitos, descontando nos vencimentos rendas de tugúrios que
eles próprios arrendam a quem contratam, gente vinda de longe, desamparada, que
nada tem. “Pelo menos aqui têm alguma coisa”, ainda arrotam os novos
esclavagistas sem pinga de consciência moral.
Enfim, querem maquinazinhas de gerar
Bolsonaros? Olhem para as claques de futebol e para as juventudes partidárias,
olhem para o rei de Espanha a pousar ao lado do elefante abatido numa era em
que, sabemos agora, 60 % da vida animal no planeta foi simplesmente dizimada pelos
homens nos últimos 50 anos. Vem no Guardian, num artigo que por certo os
pequenos Bolsonaros jamais lerão. Estão ocupados a vomitar as suas teorias nas
redes sociais.
In Gazeta das Caldas, n.º 5252, 16 de Novembro de 2018, p. 28.

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