segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

ALGUMA MÚSICA DE 2018




A estreia de Beatriz Nunes a solo, depois da colaboração com Madredeus, não passou despercebida. Canto Primeiro é jazz em português, suave, doce e delicado como a voz da intérprete e compositora que na estreia soube rodear-se de excelentes músicos. Ouroboros, cantado em scat, demonstra a versatilidade de uma cantora que se inspira tanto na tradição portuguesa como nas raízes da música improvisada. Neste disco convivem tradicionais alentejanos com secções de cordas, José Afonso e a poesia de Ângelo de Lima, melodias originais para poesia de Margarida Vale de Gato, solos de piano e contrabaixo… Andorinhas é o tema de abertura:




Vinte anos depois da estreia, e com apenas três álbuns editados, os escoceses The Beta Band resolveram comemorar a data redonda juntando três EPs perdidos no tempo: Champion Versions (1997), The Patty Patty Sound (1998) e Los Amigos del Beta Bandidos (1998). Em boa hora o fizeram, pois de outro modo é muito provável que estas gravações caíssem no esquecimento onde há muito a banda mergulhou. A referência mais imediata talvez seja Beck, embora o som The Beta Band coligido neste The Three E.P.'S acolha experiências próximas daquilo a que se convencionou chamar de post-rock. O último EP, integralmente disponível em vídeo oficial:




O regresso dos Dead Can Dance é o regresso dos Dead Can Dance é o regresso dos Dead Can Dance. Numa viagem em dois actos, por mares que não podemos dizer nunca antes navegados, Brendan Perry e Lisa Gerrard oferecem-nos o que melhor sabem fazer: música de excelência, polvilhada de elementos étnicos com ambientes inclinados para o gótico e bom gosto na utilização das tecnologias. As cores do médio oriente, norte de África, sobrepõem-se neste Dionysus evocativo de rituais orgiásticos em honra dos prazeres da vida. Dance of the Bacchantes é o terceiro momento do Primeiro Acto:




É o segundo exemplo aqui dado de uma recolha de pérolas perdidas, desta feita de um dos mais estimáveis compositores de canções português. O título provocador, Inéditos 1967-1999, faz do duplo CD de José Mário Branco uma peça especial no seu vasto repertório. São canções para teatro, para cinema, colaborações, cantos de guerra, marchas, recolhas de cancioneiros antigos, composições a pender para o clássico, coisas pop e até uma rocalhada à maneira dos The Shadows… coisas bonitas como Eu Não Tenho a Certeza. Não há vídeos oficiais para esta música, o que também não deixa de ser um testemunho de certa maneira de se estar. Actualíssimo, este Cantar da Viúva de Emigrante:




Quem goste de rock de guitarras não pode passar ao lado de Bottle It In, o mais recente do produtivo Kurt Vile. O travo retro contrasta com a modernidade em canções sobre o dia-a-dia, arranjos teimosamente resistentes ao facilitismo e composições invulgarmente cativantes para alguém que não cede um milímetro à facilidade da estrofe-refrão-estrofe. Vile prefere sobrepor guitarras, solos psicadélicos, tonalidades atmosféricas bruscamente rasgadas pelo fervor das cordas. Quem pretenda, pode vê-lo ao vivo em variadíssimos registos partilhados no Youtube. Vale a pena, para perceber que estamos a falar de um músico extraordinário acompanhado por uma banda assaz competente. Exemplo:




Foi para mim a grande surpresa do ano, este Double Negative dos Low. Acompanho-os desde Long Division (1995), quando ainda eram uma banda para guitarra, baixo e bateria, com canções melancólicas arrastando-se numa lentidão que levava os críticos a falar de sadcore e slowcore. O álbum mais recente aproxima-os de experiências sonoras desconstrutivistas como as levadas a cabo por um Bon Iver, demarcando-se porém de melodias apelativas para mergulharem num abstraccionismo que chega a ser agressivo. Muito mais electrónicos do que alguma vez foram, conseguem neste álbum reunir temas que, a despeito dos ruídos e das estruturas sónicas, nos transportam para cenários distópicos com paradoxais abertas num céu negro e tempestuoso. O segundo tema do álbum é este Dancing and Blood:




Por fim, no domínio mais tradicional da canção em português, Nação Valente não fez esmorecer a admiração que continuamos a ter pela obra de Sérgio Godinho. Com arranjos arrojados como têm sido pelo menos desde Domingo no mundo (1997), a mais recente recolha de originais assinados por Godinho coloca à nossa disposição 10 belíssimas canções, repletas de ironia e perspicácia no modo como captam a actualidade reflectindo-a criticamente. É verdade que ouvimos um disco de Sérgio Godinho como quem lê um livro, mas nem só de palavras vivem estas canções. Há uma dimensão musical a sustentar as palavras que não pode ser descurada, proporcionando amiudadamente experiências emocionais que nunca resvalam para o óbvio. Noite e Dia é a minha canção deste 2018 que não me deixará saudades:

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